Pedagogia e celebração da identidade e da diferença: alguns pontos críticos

Questões relacionadas à diversidade têm ocupados cada vez mais as pautas de nossos projetos político-pedagógicos e de nossas teorias, insistindo-se muito na celebração da diversidade do Outro, principalmente, ao que se refere à sua identidade (cultural). Respeitar o Outro, conhecer sua cultura, cultivar uma tolerância pela diversidade são ações que fazem parte dessas pedagogias, no entanto, e especialmente quando analisamos essas pedagogias de um ponto “pós-estruturalista”, vemos algumas problemáticas. Primeiramente, a primeira questão é como essas pedagogias tendem a tomar conceitos como “identidade”, “diferença”, “multiculturalismo”, “diversidade”, entre outros; como esses conceitos são enxergados? Marcas inertes do sujeito? Essência?

As estratégias pedagógicas e de currículos da celebração da diversidade não devem ser veladas a teoria pós-estruturalista, para realmente compreendermos como o Outro é produzido assim como a própria identidade e a diferença?

A análise de Tomaz Tadeu da Silva em A produção social da identidade e da diferença (2011) nos afirma que sim, essas pedagogias naturalizam esses conceitos e tomam uma posição liberal: celebrar a diversidade do Outro. Por exemplo, o “multiculturalismo” é tomado como um conceito político vago e de benevolente apego ao respeito e tolerância com a diversidade e diferença do Outro. O autor clama uma teoria da identidade e da diferença que busque problematizar esses dois conceitos importantes, ao invés de celebrá-los, para ele, o apriorismo desses conceitos encerra-os em uma questão pedagógico-liberal de respeito e tolerância com a diversidade e diferença, quando, na verdade, esses próprios conceitos têm implicações políticas importantes.

Aparentemente, o distanciamento da tão evocada tolerância pelo Outro no que tange identidade e diferença, nos leva, antes de qualquer coisa, nos perguntar por que esse Outro ocupa tal posição? Na verdade, se seguirmos alguns textos anteriores, veremos como o Outro é aquilo tanto faculta quanto possibilita a constituição do “eu” soberano, aliás, a própria posição identitária do “eu” exige o seu Outro como exterior constitutivo, a falta sem a qual ele não pode emergir. No final das contas, a política da tolerância parece colocar o Outro como o ponto a se agir e não a desconstruir a própria normatividade ou o próprio problema das questões multiculturais. O Outro não é alguém que nobremente aceitamos, ele excede tanto que desestabiliza a própria identidade do seu “eu” e essa é uma contribuição incomensurável para entendermos a “identidade” e a “diferença” como produzidas socialmente.

Quais são as questões políticas que são deixadas de lado quando a identidade e a diferença são tomadas como dados naturais, essências? Não é chegado a hora de uma teoria da identidade e da diferença?

Claramente, esse é entendimento que o autor diz ser necessário, o de compreender a identidade e a diferença como resultados de produção social e relações de poder. “A identidade e a diferença”, nos escreve Silva (2011, p. 96), “não são entidades preexistentes, que estão aí desde sempre ou que passaram a estar aí a partir de algum momento fundador, elas não são elementos passivos da cultura, mas têm que ser criadas e recriadas”, além disso, elas “têm a ver com a atribuição de sentido ao mundo social e com disputa e luta em torno dessa apropriação”. É nesse sentido, que para o autor, esses conceitos tem de deixar de serem levados a luz do sentimento nobre da tolerância, para podermos enxergar como o resultados dos processos descritos.

O autor nos descreve três estratégias pedagógicas que surgem quando esses conceitos são tomados como “temas transversais”. Primeira, “liberal”, estimula-se a tolerância, respeito e boa vontade com a “diversidade” cultural, já que a própria “natureza” humana nos apresenta uma miríade de culturas que devem ser respeitadas; assim, o aluno entraria em contato com muitas delas e nada lhe seria “estranho”, no entanto, a perspectiva pedagógica em questão deixa de questionar a identidade e a diferença como resultados de relações de poder, de processos sociais que as produzem — para o autor, essa ação torna a produzir novas dicotomias, a do dominante tolerante e do dominado tolerado.

De um modo geral, a crítica de Tomaz Tadeu da Silva nos aponta que a identidade e a diferença não são enxergadas, em práticas pedagógicas do multiculturalismo, como produções sociais, como partes de relações de poder. Para o autor, as pedagogias atuais que celebram a diversidade criam novas categorias benevolentes (dominador tolerante versus dominado tolerado), acusa o preconceito somente como uma questão psicológica ou retificam o Outro como curiosos e exótico.

Segunda, “terapêutica”, se aceita os mesmos pressupostos da primeira, mas a rejeição pelo Outro é atribuído a processos psicológicos, pelo qual um “eu” rejeito um “outro” por ter sido, anteriormente, discriminado, sofrido preconceito de uma forma geral, assim, se propõe “tratar” esse “eu” para que ele mude suas atitudes e pensamentos. Terceira e última, seria a de apresentar aos alunos uma visão superficial e distante das outras culturas; para o autor essa é uma estratégia intermediaria entre as duas anteriores e a mais adotada, entretanto, o Outro é sempre percebido aqui como curioso e exótico, não questionando as relações de poder e reforçando a categoria do Outro nos próprios termos de exotismo e curiosidade, que ela já está impregnada.

De um modo geral, para Silva (2011), é necessário uma estratégia pedagógica e curricular realizadas no âmbito das recentes teorias culturais, sobretudo, do pós-estruturalismo, onde “identidade” e “diferença” são entendidas como questões de políticas, produzidas socialmente. Para o autor, antes da tolerância, vem a necessidade de explicar como a identidade e a diferença são ativamente produzidas, de questioná-las. Nessa perspectiva, ele nos diz que os alunos devem ser estimulados a subverter, perturbar e transgredir as identidades existentes, mostrando seu caráter construído e artificial.

2 comentários
  1. serge disse:

    texto muito interessante…parabéns…

  2. Munhoz disse:

    Excelente texto “introdutório” para a compreensão da identidade no “pós”, Lucas. Sem mais!

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