Longevidade escolar, gênero e raça no Brasil: por quantos anos cada um estuda?

A escolarização da população brasileira foi um fenômeno característico do século passado, quando os indicadores educacionais (média dos anos de estudo, taxas de alfabetização, escolaridade) sofreram grandes mudanças. Esse processo, no entanto, não foi equivalente para todos os grupos sociais, havendo desigualdades que ainda hoje se mantêm ou mesmo se inverteram.

Tabela I: Média dos anos de estudo da população de 15 ou mais por categorias selecionadas. (Fonte: PNAD 2009, retirado de ROSEMBERG & MADSEN, 2011) – clique na imagem para ampliar.

Em 2009, dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios) apontaram que o(a) brasileiro(a), em média, frequentava 7,5 anos de estudos. Esse dado, por si só, não diz quase nada. Um olhar mais atencioso às heterogeneidades do povo brasileiro evidencia que, por trás dessa média, escondem-se médias dos anos de estudo absolutamente díspares, como podermos perceber na Tabela I, ao lado.

É importante evidenciar um dado ausente nessa tabela: as desigualdades educacionais de gênero. Em 2009, para a população de 15 anos ou mais, a média dos anos de estudo era 7,7 para mulheres e 7,4 para homens (ROSEMBERG & MADSEN, 2011). Hoje, é sabido que as mulheres apresentam os melhores indicadores, se comparadas aos homens, em quase todos os aspectos da educação básica e superior no Brasil. Mas… não foi sempre assim!

A histórica exclusão do acesso à educação pelas mulheres aparece facilmente nas estatísticas do passado. Interessante é notar que, conforme essa desigualdade foi se atenuando, a tendência foi se revertendo, a ponto de chegar à situação atual, na qual os problemas de escolarização residem principalmente sobre os meninos. A esse fenômeno dá-se o nome de reversão do “hiato de gênero” (BELTRÃO & ALVES, 2009). Dê uma olhada no gráfico abaixo (Figura 1) para enxergar essa reversão:

Figura 1: Média dos anos de estudo da população de 10 anos ou mais, por gerações (grupos de idade), segundo o sexo. (Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000, retirado de FERRARO, 2010) – clique na imagem para ampliar.

Repare que durante muitas gerações as mulheres estiverem sempre à retaguarda. Segundo esse estudo, assinado pelo pesquisador gaúcho Alceu Ferraro (2010), a reversão do “hiato de gênero” no que diz respeito à média dos anos de estudo aconteceu entre as décadas de 50-60, na geração que em 2000 possuía entre 40 a 49 anos de idade. Desde então, as mulheres permaneceram à frente.

É importante considerar outra categoria: a cor/raça. Sabemos que o grupo dos negros (aqui entendidos como a soma de pretos e pardos) sempre esteve em desvantagem, fruto da exploração escravagista seguida da negligência do Estado e da persistência do racismo na sociedade, mesmo nos dias atuais. Da mesma forma que o gráfico apresentado acima, vamos analisar a tendência na média dos anos de estudo ao longo das gerações, expressas na Figura 2:

Figura 2: Média dos anos de estudo da população de 10 anos ou mais, por gerações (grupos de idade), segundo a cor/raça. (Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000, retirado de FERRARO, 2010) – clique na imagem para ampliar.

Ao contrário do que aconteceu com gênero, não houve nenhuma reversão entre as desigualdades raciais. De fato, a distância entre as duas curvas permaneceu igual ou maior a 2 anos de estudo durante todas as gerações do século passado. Não há dúvidas de que a escolarização aumentou para ambos: se em 1920 negros estudavam 1,2 anos em média, hoje estudam 6,7 (Tabela I); entre os brancos, passamos de 3,1 para 8,4 (Tabela I). Porém, ainda há muito para se avançar.

Cruzando as duas variáveis, gênero e raça, percebemos que o impacto da questão racial na educação é mais elevado que o da problemática de gênero (vide abaixo, na Figura 3). Temos uma desigualdade fortemente marcada por raça e, dentro dela, a desigualdade marcada por sexo. Em ambas aconteceu a reversão do “hiato de gênero”: tanto as mulheres brancas quanto as mulheres negras superaram a média dos anos de estudo de seus colegas homens, e na mesma época.

Figura 3: Média dos anos de estudo da população de 10 anos ou mais, por gerações (grupos de idade), segundo o sexo e a cor/raça. (Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000, retirado de FERRARO, 2010) – clique na imagem para ampliar.

Em parte, podemos pensar que as desigualdades raciais estão bem acentuadas por causa da maior correlação entre raça e estrato socioeconômico. Com gênero, isso já não acontece de forma tão marcante. Quero dizer que mulheres e homens estão presentes desde as camadas mais populares às mais favorecidas, enquanto negros de ambos os sexos estão concentrados nas camadas populares, em virtude de seu passado.

Para fechar, é válido voltarmos ao dado que abre este texto: a média de anos de estudo do(a) brasileiro(a) é 7,5. De acordo com dados de Rosemberg e Madsen (2011), há grupos que puxam essa média para baixo (negros, homens, pobres, habitantes da zona rural, do Nordeste, Norte, Centro-Oeste, e a população com 40 anos ou mais), enquanto outros são mais favorecidos.

Isso porque estamos falando das variáveis nuas e cruas, mas imagine se as cruzarmos! Qual é a média dos anos de estudo de uma mulher nortista, habitante da zona rural, com 30 anos, parda, de classe alta? É difícil dizer… talvez seja mesmo impossível prever. Porém, as estatísticas nos trazem informações válidas, assim como o lembrete de sempre repensar nosso sistema educacional com intuito de eliminar todas as desigualdades na escolarização.

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