Den’da Lei

Escrito por Viviane Angélica Silva.

Havia um rádio de madeira na cozinha que Dona Ceição, talvez por saudade ou por falta de opção, conservou como aquela que ficou no Serro há muitos anos. Seu Zé Rufino, ao abrir o portão, encurvado ainda pelo peso do matulão e da ladeira Oswaldo Cruz, chegava de Honório Bicalho. O fato é que tinha leite na vendinha do final do morro, mas seu Zé ainda gostava era daquele colhido ao pé da vaca pela manhã de todo dia, mas que só chegava à cozinha de Dona Ceição quase à hora do almoço. Pressa pra quê? Abria a sacola de couro. De lá saíam garrafas fechadas com rolha, que tempos atrás carregara alguma garrafada ou só cachaça mesmo, mas que àquela hora trazia o sagrado leite de todo dia. Seu Zé passara na rocinha de algum conhecido e apanhara inhame, mandioca, taioba, jiló, couve ou alguma outra verdura. Da rua trazia também notícias de compadres e entretenimentos que a velha Nova Lima tivesse oferecido.

Só então o rádio era ligado e sempre na Itatiaia. Aí começo a aprender um pouco do que sei. De domingo a domingo funcionava a máquina do Rei, que nunca parava. Fim de semana e feriado parecia mais tranqüilo, mas mesmo assim, havia muita movimentação na corte. Desde sempre desconfiei de uma orgia, mas naquela época eu ainda tinha que respeitar o Rei e acreditar nas benções que me concederia. Como sonhava ser da nobreza um dia, o melhor era eu ser boa menina.

Ficava me perguntando como as mãos grandes e enrugadas que sintonizavam o rádio, eram úteis no reino. As unhas sujas, o cheiro de teta de vaca na mão e de burro nas calças de tergal bem como aquele chapéu surrado que era tirado da cabeça toda vez que seu Zé evocava Deus, só confirmavam minhas suspeitas: ele era da plebe. No reino tão vasto, a ele coube desafiar a terra, numa luta ingrata. Eu já tinha visto do que ela era capaz e me punha a imaginar o que aquele homem havia feito de tão mau para não ter sido mais agraciado.

Não que eu gostasse de tudo que eu via, mas aquela cozinha, a nata grossa do leite fervido, o fio cheiroso do café coado, o passo lento de Dona Ceição e a voz segura da Itatiaia, garantiam a legalidade que eu precisava na ocasião. Foi aí que comecei a entender um pouco de contradição. A terra que meu avô atravessou em longas missões de garimpo deu-lhe a miséria de cada dia, mas não o impediu de colher o que colocou à mesa todos os dias com fartura: Da sua sacola de couro saía toda viração de pensamento. Era uma ventania de histórias, dava até medo. Mas eu não arredava o pé, e não era só curiosidade, pois o velho sempre queria a companhia de um ouvido paciente para os casos que minha avó, meus tios e tias e minha mãe, conheciam de cor e salteado e que agora deveria pertencer aos netos. Tentava escutar e compreender todo mistério que aquela voz anunciava, muitas vezes sem entender porque de repente ela agravava e soava baixinha, como um trovão mansinho. Queria ver também o que passava diante dos olhos do Seu Zé quando chamava sua memória. Parecia ser coisa bem antiga pelo tanto de ruga que fazia nascer. Aí seu olhar procurava a Folhinha de Mariana e a ferradura enferrujada atrás da porta, suplicando entendimento…

Livre desde o nascimento, aquele homem de cabelos brancos e pele muito preta contava muitos nascentes e poentes. Parecia um capitão do mato capturado. Homem bravo que matara minha avó no dia do casamento e criara quatorze filhos no tempo da ignorância. Esse assassinato merece esclarecimento, pois não fora nenhum crime para a época já que não teve sangue, muito menos defunto. É que durante dezesseis anos existiu uma mulher chamada Conceição Gomes de Carvalho, sem registro de nascimento, mas que estava prestes a se casar com seu Zé. Seu Zé Rufino, que na verdade se chamava João Batista dos Santos, encontrara pela vida uma mulher da qual gostara muito e cuja graça era Maria Angélica. Não sei se houve possibilidade do João colocar o dos Santos nessa Maria, esse detalhe nunca foi comentado. O certo é que com essa mulher na cabeça, meu avô foi arranjar os documentos para casar com a tal da Conceição. E assim, em nome do seu desejo de macho, Conceição Gomes de Carvalho é sacrificada para que nascesse a Maria Angélica dos Santos, casada e registrada.

Ouvi dizer que toda família tem um segredo. No caso da minha, apesar das incessantes buscas, só constatei o óbvio: Vó Ceição não amava vô Rufino. Chegava a ser constrangedor ouvi-la considerar que feiúra era uma coisa que seus filhos herdaram dele. Gargalhava dizendo que da sua parte não tinha gente feia. Menina romântica e sem mais o que imaginar, eu passava horas ciscando sobre essa história de amor que talhou sem experimentar queijo com goiabada e que pra mal dos pecados, atravessou seis décadas. Olhava pra cara do seu Zé e realmente achava-o feio mesmo. Mas hoje percebo que era justamente sua negritude que minha avó atacava e, portanto, tive que dar um passo atrás e dois adiante pra então discordar dela, gabada de sua beleza cabocla. Continuando minha busca, ouvi dizer que no garimpo meu avô nunca achou pedra que prestasse, então, é provável que vó Ceição perdera a fé em dias de fartura e nesse homem de falsas promessas. Por fim, eu soube ainda, que seu Zé era um anjo para os da rua e um demônio para os de casa. Não poupava a força do braço sobre os seus. Constituir família nos modos da ignorância devia parecer correto só na cabeça dele. Acho que Ceição Angélica só amaria João Rufino se ela não tivesse sangue nas veias.

Apesar dos pesares, e por ser fã do agradecimento, devo reconhecer que desse garimpeiro herdei o gosto de catar histórias preciosas. Os ventos têm mudado e estou entendendo que não preciso procurar riqueza apenas na direção do Norte, conforme me ensinou meu avô. Aprendi que tem também muito tesouro pra’s bandas do Sul.

Hoje relendo o testamento do meu velho, percebi que o bichinho da utopia que ele trazia aninhado em seu coração, achou lugar no meu. Foi ele que me deu a esperança de melhores momentos. Do contrário não teria graça nenhuma entrar na roda. E valeu a pena. Mas pra isso, tive que demolir meu castelo de infância e construir outro sobre novo firmamento epistemológico. E entendendo a cor do testamento do meu avô, é que tenho encontrado função nobre no Reino.

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Viviane Angélica Silva é mineira nascida na cidade de Nova Lima. É graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente é mestranda do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP).

1 comentário
  1. gilmar barbosa aparecido disse:

    muito já foi feito, mais muito mas precisa ser feito, só depende de todos nos, para fazer valer as lei, e continuar cobrando dos nossos governantes

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