Quem é a “nova direita”?

Já faz algumas décadas que se discute o que seria uma “nova direita”. Católicos ortodoxos, militares golpistas, monarquistas ultrapassados… tudo isso é a “velha direita”, já meio careta, capenga e broxa. Do ponto de vista político, um fiasco. Esses, mesmo dando um golpe aqui ou acolá, não podiam ser considerados a “nova direita”; o título não lhes cabia. Passou-se adiante.

A presidenta Dilma e sua proximidade com Kátia Abreu (PSD), um dos maiores nomes entre os ruralistas: a “velha direita” articulada à “nova”.

Depois, com a crise dos anos 70, surgiu uma classe de capitalistas globais daquelas… Eram os tais “neoliberais”: privatizando empresas, flexibilizando direitos, contabilizando gestões. Esses se tornaram grandes candidatos a ocupar o cargo da “nova direita”. Mas, no fundo, eles nada mais eram do que os antigos liberais conservadores, só que ocupando as bolsas e não mais as fábricas. Pois, eles não eram tão “novos” assim.

Em seguida, falou-se do crescimento mundial do evangelismo como uma espécie de “neopentecostalismo” conservador. Eles foram ganhando os cristãos e as bancadas e se tornaram entraves a conquistas sociais no Brasil e em outros países. Multiplicaram-se como outrora fizeram as filiais do McDonalds. Mas, o que eram eles além de uma repaginação do fundamentalismo? Não, eles não podiam ser a “nova direita”.

Posteriormente, com a atual crise, veio à tona os “neonazistas”. Aparentemente mortos, com exceção de alguns maníacos por aí, eles criaram partidos e dominaram bairros, ganharam a Europa como um tabuleiro de War. A xenofobia aumentou e eles se orgulharam de mostrar a versão atualizada do “Heil Hitler”, além de suas inconfundíveis carecas. Mas, peraí, eles só se baseavam no passado. É claro que não podiam ser a “nova direita”!

A aliança política entre Haddad e Maluf, acompanhados por Lula: quando a ganância eleitoreira desconstrói programas e ideologias políticas.

A “nova direita”, portanto, não vai ser nada que é “neo”: neoliberal, neopentecostal, neofascista. Porque o “neo” é simplesmente um update do que já foi velho. O velho não pode ser o novo, obviamente! Assim, novamente me pergunto: quem é a “nova direita”?

Se é que podemos falar de uma “nova direita” no Brasil – a polêmica não é se é de direita, e sim se é nova –, ela é sem dúvida o PT e toda a corja da “antiga esquerda” que se sindicalizou, que se articulou a movimentos, que promoveu grandes greves (e comprometimentos maiores ainda) e que hoje está cumprindo à risca as agendas mais conservadoras, dignas dos melhores direitistas. A “velha direita” não precisa fazer nada, porque a “nova” já a superou. Hoje, os tucanos agradecem, o Maluf se gaba, o centrão se atiça, os empresários dão risada, os fundamentalistas se ajoelham, os ruralistas invejam: nunca a direita conseguiu ir tão longe sem ter que, antes, dar um golpe de estado.

Quando a postura “nova” de Dilma Roussef a faz ser elogiada e reverenciada nos meios da “velha direita”. Aqui, destaca-se que uma “ex-marxista” está à frente de uma máquina empresarial.

E por que estamos diante de uma “nova direita”, se ela está tão atolada de velhos vícios? Ela é “nova” porque, como ‘nunca antes na história desse país’, articulou a essa cartilha conservadora um discurso absolutamente modernizador, social, desenvolvimentista e, quando não, de “esquerda”. Entidades como MST, CUT, UNE, LGBT, feministas etc, foram sendo engolidos: viraram secretarias, poliram suas campanhas, ilustraram seus palanques, ganharam adesivos. Em retorno, poucos avanços na diversidade sexual, retrocessos na educação, nada de reforma agrária, ameaças às pautas das mulheres, entre outras.

Na prática, a “nova direita”, amiga de todas as (ou de pelo menos todas as maiores) forças dominantes e mesmo as contradominantes tem feito aquilo que nenhuma “velha direita” jamais conseguiu fazer: o progressivo desmonte de um Estado de direito com amplo consenso popular.

As dúvidas que permanecem são: Assistiremos de camarote a esse crescimento? Continuaremos a reiterar velhas escolhas por “falta de opção”? Permaneceremos dando nosso suor por um projeto de poder claramente conservador, para não dizer reacionário? Até que ponto vamos engolir que as decepções com nossos governantes são “casos isolados”? Por quanto mais vamos esperar o que não vem e nos contentaremos com o pouco que nos é dado? O fato é que a hegemonia nunca esteve tão à flor da pele e está na hora de refazer nossos caminhos e perspectivas.

5 comentários
  1. serge disse:

    um belo artigo!
    fico feliz em ler algo que desafiar meu intelecto e me obriga a pensar. fico com receios em aceitar esses adjetivos “novos…” quando se trata de política. o que é essa “nova direita”? não seria ela apenas a “nova esquerda” que surgiu na inglaterra da mente de antony giddens e que tony blair representou durante seus dois governos? giddens conceitualizou uma “terceira via”, lema do novo trabalismo (new laborism) com caras de reformistas modernizadora, desenvolvimentista também. no brasil, as ideologias nunca são o que deveriam ser de fato: lembre-se das “ideias fora do lugar”, do liberalismo brasileiro que nunca foi um verdadeiro liberalismo. então me pergunto se essa “nova direita” não é apenas uma esquerda deformada?
    o PT seria essa “nova direita”? o PT é um partido como outro com várias correntes e tendências. uns tendem mais à direita, outros mais à esquerda e outros se acomodam no centro. o Brasil passa por momentos de grandes transformações e talvez por isso ele pareça perdido em meios a discursos conservadores, etc. mas o PT ainda defende um ideal de esquerda: a igualdade, ou melhor, a diminuição das desigualdades. os métodos são às vezes anti-democráticos (mensalão, Cachoeira, etc). mas lembre-se de Robert Michels: os partidos políticos são organizações que buscam antes de tudo aumenta sua capacidades de adesão, seu eleitorado…a cooptação é técnico que os partidos sempre usaram, mas isso faz parte das mazelas da democracia (não sei o que você sugere ao afirmar que “o brasil deve refazer seus caminhos e perspectivas”?). na Alemanha, a aliança entre sindicatos e donos de empresas é institucionalizado (é a chamada cogestão, símbolo do “modelo alemão”. em outros lugares, alguns críticos chamariam isso de cooptação, comprometimentos como você chamou…).

    não posso negligenciar um elemento importante que citou no artigo, e aí devo concordar contigo (e coloquei isso em meu artigo ” da nova ordem mundial à governança global dos mercados”, que é a formação de uma elite global, financeira que faz a democracia refém de seus caprichos em toda parte. neste aspecto fico na dúdida sobre os verdadeiros caminhos do PT e suas verdadeiras intenções…

    http://peacefulworld-peacefulworld.blogspot.com.br/2012/08/da-nova-ordem-mundial-governanca-global.html

    o tema é muito bom, não tenho espaço para continuar refletindo, mas parabenizo o autor pelo texto…

    abraços…

    • Oi Serge,

      Obrigado pelo valioso comentário!

      Creio que você está certo em muitos pontos. Não sou amigável às definições como “nova direita”. Repare que o tempo todo no texto essa expressão aparece entre áspas, porque não me sinto confortável com ela, e fiz questão de enfatizar “Se é que podemos falar de uma ‘nova direita’ no Brasil – a polêmica não é se é de direita, e sim se é nova”. No entanto, esse texto que escrevi não é uma análise política de profundidade. Existe uma grande ‘licença poética’ no texto, pois me permiti a ser mais coloquial, mais enfático e, por isso, menos preciso. No entanto, só de ter provocado uma reflexão sobre o PT, creio que meu objetivo foi atingido.

      Não sei se colocaria a política dessa “nova direita” como exatamente aquilo que Anthony Giddens postulou com sua ‘terceira via’. Talvez sim e de fato estejamos corretos ao dizer que o PT incorpora essa “social-democracia renovada”. Não sei se a definição seria tão precisa, porém. Creio sim que essa “nova direita” seja uma esquerda deformada. Acho que essa deformação da esquerda ficou clara no texto. A verdade é que não há nenhuma alternativa de esquerda viável no Brasil atualmente, pois a mais forte delas tem se mostrado conservadora. Penso em numerosos exemplos que tem desiludido a mim, e a muitos outros, de que os ideias de esquerda do PT possam se concretizar em política e em um projeto de poder minimamente decente para um esquerdista como eu. O que tenho visto é que não. E foi esse descontentamento que quis passar no texto.

      Não posso, e aqui que está a ruptura do texto, continuar creditando esse projeto petista (talvez tenha sido um equívoco meu, mas tomei PT como a Dilma e a Lula, a despeito das tendências do partido). E quando digo “refazer nossos caminhos e perspectivas”, não estou me referindo ao Brasil. Estou me referindo a todos aqueles que colocam a si mesmo as questões que aparecem no final do texto. A mim, e a todos que foram se desiludindo com o PT, cabe refazer perspectivas. Talvez essas perspectivas não sejam simplesmente “mudar de partido”. Tenho me convencido cada vez mais de uma mudança fora da estrutura partidária, e o blog jornalístico “Outras Palavras” tem me mostrado alternativas.

      Sobre essa elite global, estou de acordo. Fato é que o PT nada faz para se contrapor a isso. Como diz um amigo: se o Lula é o pai dos pobres, ele também é a mãe dos ricos. Preferi ser radical e romper de vez com essa lógica. Meu voto não cai mais para o PT, nem se for para evitar que um tucano ganhe.

      Agradeço novamente,

      Abraços,

      Adriano

  2. serge disse:

    reparei nos aspas, e também notei sua licença poética no texto…tenho vários amigos que acreditam firmemente numa forma de organização comunitária, baseado no modelo do MST, etc.

    • Hum… talvez eu não esteja pensando em uma forma definitiva de organização. Acredito que a talvez a mudança venha de fora da estrutura para alterá-la. Quero que sejam mudadas a organização social do trabalho, as concepções liberais de indivíduo, liberdade e igualdade etc. Votando, creio que não se muda. Mas acho importante mudar a “estrutura”, para além de se organizar comunitariamente.

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