Linguagem e identidade: sistemas de diferenças

Me parece que para algumas pessoas pode ser extremamente difícil imaginar as identidades — étnicas, nacionais, de gênero, raciais — como socialmente produzidas e interdependente da diferença. Na verdade, as pessoas tendem a conceber a identidade como aquilo que elas são, suas características “lógicas” e “analíticas” e não como aquele campo que envolve complexas relações de poder. Aliás, como ato performativo, a identidade se passa por uma essência, um dado, um fato, uma classe natural do Ser, aquilo que alguém “é”.

Para Ferdinand de Saussure (1857 – 1913) a linguagem é, basicamente, um sistema de diferenças: não há nada intrínseco no signo que lhe remeta a “coisa” que reconhecemos como sendo aquele signo, mas um signo só adquire seu valor numa cadeia infinita de diferenças que “não são” aquele signo.

Vimos que aquilo que alguém “é” (“sou brasileiro”, “sou heterossexual”, “sou jovem”) é uma simplificação linguística que afirmam aquilo que esse alguém “não é” (“não sou argentino”, “não sou italiano”, “não sou homossexual”). Essas simplificações operam afirmando que “sou aquilo que você não é”, ou seja, uma série de negações que preciso fazer em nome da minha “identidade”, claramente marcadas pela diferença. Essa noção de imaginar a identidade como um jogo de diferenças, é claro, pode parecer absurda para alguns, mas diríamos a essas pessoas que o questionamento pós-estruturalista à identidade e a diferença têm um longa fundamentação que começa pelo próprio entendimento da linguagem como sistema de diferenças.

Tomaz Tadeu da Silva em A produção social da identidade e da diferença (2011) nos ajuda a acalentar essa discussão, começando pelo linguística suíço Ferdinand de Saussure, para quem os signos só podem ser entendidos numa cadeia de diferenciação linguística. Para Saussure, um signo, tanto em seu aspecto gráfico quanto fonético, não tem nenhum valor absoluto, não é isolado e não remete a “coisa” que supostamente está remetendo; para ele, o significado de um signo só faz sentido nessa cadeia de diferenciação que aquele signo não é. Usando o exemplo de Silva, o signo “vaca” só adquire seu significado na diferenciação linguística de que o próprio signo “não é porco”, “não é cavalo”, “não é galinha” — para Saussure não existe nada intrínseco ao signo que estabeleça o que conhecemos como “vaca”.

Silva (2011) também retoma o filósofo francês Jacques Derrida para nos dizer que a linguagem vacila, ela é uma estrutura instável. Derrida acredita que o signo é um sinal, uma marca, um traço que ocupa a posição de uma outra coisa, mas o signo em si nunca coincide com a coisa ou com o conceito — tudo é uma questão da metafísica da presença. A metafísica da presença é essa ilusão de se ver o signo como uma presença, de se ver o signo como o conceito como a coisa ou o conceito, no entanto, é justamente dessa ilusão que o signo precisa para funcionar.

Jacques Derrida (1930 – 2004) considera que o signo é um sinal, um traço que está no lugar de uma outra coisa, mas não coincide com a coisa em si. Nesse sentido, há sempre um adiamento do signo, o que faz da linguagem uma estrutura instável.

Assim, para Derrida, o signo sempre traz esse traço daquilo que ele substitui e também daquilo que ele não é; por exemplo, a afirmação “sou brasileiro” carrega em si o traço do outro, da diferença; logo: “A mesmidade (ou a identidade)”, como nos escreve Silva (2011, p. 79), “porta sempre o traço da outridade (diferença)”. Silva usa a consulta ao dicionário como um exemplo para entender a ideia de Derrida: pensem que quando consultamos uma palavra no dicionário, este nunca apresenta a “coisa” em si, mas uma série de outras palavras, outros signos; nesse sentido, vemos que a presença da “coisa” é indefinidamente adiada, ela nunca se concretiza.

Silva nos conclui que nessa impossibilidade da presença, um signo só se define não sendo um outro, marcado e existindo por essa diferença que existe em cada signo como traço, dessa forma, um signo é sempre caracterizado por esse adiamento da presença e pela diferença, duas características que constituem a différance. Após essas leituras, o autor nos mostra que, como governados pela estrutura da linguagem, dependemos de uma estrutura que balança, um estrutura que necessita desses dois processos e que por isso é sempre incerta, indeterminada e vacilante. É nesse sentido, que “ser brasileiro” tem de ser compreendido dentro de um processo de “produção simbólica e discursiva”, como nos diz o próprio Silva (2011), que “ser brasileiro” não possui nenhum referente natural ou fixo, mas que só tem sentido numa cadeia de significação formada pelas outras identidades nacionais, que tem o mesmo caráter.

Saussure, Derrida e as interpretações e teoria política de Silva, nos serve para contribuir na discussão da identidade e diferença, clareando como esses conceitos estão interligados. Saussure nos oferece uma crítica da linguagem como sistema de diferenças, assim como Derrida, que nos acrescenta que a linguagem “vacila”, é instável. Nesse ínterim, Silva nos faz compreende como a identidade, constituída no interior da linguagem, é marcada por esse jogo de diferenças e instabilidade, retificando que esses conceitos só podem ser entendidos num processo de produção simbólica e discursiva.

1 comentário
  1. Munhoz disse:

    Como sempre, um ótimo post, Lucas. Acho circunstancial esse trabalho de interpretação e popularização das “teorias pós-estruturalistas” que você fazem. Este texto em especial me lembrou um trabalho do Foucault, “As palavras e as coisas”, onde o autor defende a não-coincidência entre uma e outra, mas a possibilidade do signo se confundir com o significante se dá pelas instâncias normativas do poder-saber. A própria ideia de “homem” é abordada pelo filósofo como uma construção da modernidade que o capturou enquanto sujeito e objeto de um saber científico. Esse livro causa ainda muitas controvérsias e não poucas mal-entendidos entre os pesquisadores das humanidades. Cogita-se que Foucault passou o restante de sua carreira escrevendo livros apenas para explicar de maneira esquemática e exemplificada esse.

    Abraços!

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