Sobre os rostos que a mídia nos oferece: uma questão entre representação e humanização

O rosto de Osama Bin Laden em tempos midiatizados: o rosto do terror. Observem como o rosto está personificado pela ideia que ele busca representar.

Gostaria de começar com um rosto humano que, claramente, a mídia tem nos remetido essa semana: o rosto de Osama Bin Laden. Sabemos que há 11 anos, no dia 11 de setembro, os Estados Unidos receberam uma série de ataques de quatro aviões que colocaram abaixo as torres gêmeas do World Trade Center e o Pentágono, ceifando, sobretudo, vidas. Para as investigações norte-americanas, os responsáveis por esses atentados foram a Al-Qaeda e Osama Bin Laden (líder e fundador da própria organização) e a face desse último ocupou nossas televisões, jornais e revistas: a face do mal, do terror, da guerra – e num sentido estritamente derridiano, deveríamos nos perguntar quem vem antes de quem, Bin Laden ou o terror? Com a Guerra do Terror, os Estados Unidos iniciam uma invasão ao Afeganistão para encontrar esses responsáveis e para derrubar o regime talibã que lhe deram apoio. O principio estadunidense nessa empreitada é lutar contra o “terrorismo” e essa guerra nos oferece uma miríade de rostos “heróicos”, contribuindo para o eufórico sentimento nacionalista.

Mas, observemos também outras faces representadas pela mídia. Primeiro, o confronto entre um grupo de estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e a polícia, no ano passado: o movimento grevista e a posse da reitoria em busca de visualizar as reivindicações, entre as quais estavam o pedido de renúncia do então reitor, João Grandino Rodas, e o fim da aliança entre a Polícia Militar e a universidade. Para que desocupassem a reitoria, assim como o prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi realizada uma ação com 400 policiais, da qual a mídia nos ofereceu, hegemonicamente, faces de estudantes “bagunceiros”, “drogados”, em contraponto a faces policiais garantidoras da “ordem pública”. Assim, essas faces chegam aos nossos olhos de maneira precisa: as imagens dos estudantes são a própria “desordem” e a dos policias, da “manutenção”, do “controle”. A mídia nos submeteu imagens de estudantes sendo levados pela polícia, na qual o “bem” acaba com o “mal”, o “herói” com o “vilão”, retificando o lugar da polícia, como suas estrelinhas vitoriosas no peito, e aqueles que vão contra ela. O mesmo princípio aqui pode ser visto na ação da Cracolândia.

Onde estão estampadas as faces dos professores das mais de 50 universidades federais que entraram em greve neste ano? Não é curioso que certos rostos sejam representados e outros não? Como podemos relacionar a representação com a humanização ou desumanização?

Contrariamente, vejamos que, apesar dos movimentos grevistas de mais de 50 universidades federais nesse ano, com algumas chegando a um período máximo de greve em suas histórias, essas faces não surgiram nos nossos meios de comunicação, ao menos em massa. As faces desses professores não estão em parte alguma, elas não estão representadas, enquanto que as faces da USP se tornaram uma fonte de exploração, quase pornográfica. Uma vez ou outras, podemos nos remeter a notícias que dizem que não sei quanto mil alunos estão sem aulas e se o enunciado aqui se transformasse numa face humana, essa face certamente seria uma face de alguém explorado, triste, prejudicada pela “greve”. Outras faces humanas, como as das pessoas sendo expulsas de suas casas na desocupação do Pinheirinho, também não são representadas pela mídia ou são mal representadas[*].

O que acontece com essas faces? Qual o papel da mídia nessa representação ou não-representação? Como essas faces chegam até nós? E que tipo de contatos estabelecemos ou deixamos de estabelecer com elas? No artigo Vida Precária (2011), Judith Butler nos oferece uma leitura do conceito de “rosto”, descrito pelo filósofo Emmanuel Levinas, refletindo sobre a relação com o Outro e a representação do mesmo em tempos midiatizados. Em primeiro lugar, Levinas nos disse que o rosto do Outro, isto é, aquelas pessoas cuja vida estão marcada pela precariedade, nos impõem uma questão ética, ele faz uma reivindicação sobre nós, uma demanda moral que não solicitamos, mas também não podemos evitar.

Para o filósofo francês Emmanuel Levinas (1906 – 1995), o rosto é que nos mantêm moralmente vinculado ao Outro, é forma pela qual esse Outro nos faz uma demanda ética, uma série de reivindicações. Mas, o rosto aqui não é propriamente um “rosto humano”, ele não pode ser traduzido a uma prescrição linguística; ao contrário, o rosto é uma vocalização sem palavras do sofrimento e da precariedade.

Levinas citado por Butler (2011, p. 16) nos ensina que “o rosto é o outro que me pede para que não o deixe morrer só, como se o deixar seria se tornar cúmplice de sua morte. Portanto, o rosto diz a mim: não matarás”, no entanto, o rosto não diz no mesmo sentido que a boca fala, ele não pode ser traduzido a uma prescrição lingüística; a questão é: o que ele significa é expresso pelo mandamento “não matarás”. “Na relação com o rosto”, continua o autor, “eu sou exposto como um usurpador do lugar do outro”, porque minha “relação ética de amor pelo outro está enraizada no fato de que o eu não pode sobreviver sozinho, não pode encontrar sentido apenas em sua própria existência no mundo… Expor a mim mesmo à vulnerabilidade do rosto é colocar meu direito ontológico de existir em questão. Em ética, o direito do outro em existir tem primazia sobre o meu, uma primazia condensada no decreto ético: Não matarás, não colocarás em risco a vida do outro”.

Assim, o rosto em Levinas não é propriamente dito um rosto humano, ele não fala, não pode ser reduzido à boca, é um tipo de vocalização sem palavras, de sons agonizantes. Além disso, é através do rosto do Outro, que se dirige a nós sem que possamos evitá-lo, que nos mantêm moralmente vinculados a esse Outro, porque nós nos identificamos com a própria precariedade e entender o rosto, como nos escreve Butler (2011, p. 19), “quer dizer acordar para aquilo que é precário em outra vida ou, antes, àquilo que é precário à vida em si mesma”.

É nesse sentido, que Judith Butler nos chama a atenção para os rostos da mídia, o rosto levinasiano e a problemática em torno da humanização; seguindo a autora, observemos que pessoas podem representar ou fazer representar a si próprias parecem terem mais chances de serem humanizados, enquanto que aquelas que estão longe desse patamar correm o risco de serem mal representadas (desumanizadas) ou, mesmo, não serem representadas. Nós começamos com alguns rostos, rostos concretos, para sermos específicos, rostos precisamente humanos expostos pela mídia e como (significado) esses rostos chegam até nós. O rosto de estudante “maconheiro” e “bagunceiro” sendo “colocado em seu lugar” chega até nós pela televisão, por exemplo, mas nós devemos nos perguntar se esse “rosto” nos oferece a possibilidade do rosto levinasiano, se esse rosto nos lança uma demanda ética da qual não podemos escapar, uma demanda totalmente vinculante. Onde está a precariedade desses rostos? Onde está a precariedade dos rostos de professores que vão trabalhar em situações impossíveis de infra-estrutura? Como podemos compreender a precariedade de vida dos professores quando a mídia diz que eles receberam 45% de reajuste salarial, sendo que os 45% só serão alcançados quando o atual plano de carreira for alterado? Ou, antes mesmo, como podemos ser captados pelo rosto dos professores, sendo que a mídia nos oferece um rosto de pessoas que só lutam por altos reajustes salariais?

Judith Butler nos oferece uma crítica valiosa sobre a representação do Outro em tempos midiatizados. Em primeiro lugar, a representação do humano, para a autora, é sempre uma ação falha, porque ocorre uma perda do humano no própria ato de representação. Em segundo lugar, a representação midiática do Outro impede nossa identificação com o rosto, no sentido levinasiano, porque a própria mídia nos oferece um rosto manobrado no interior de políticas representacionais.

Butler (2011) nos chama a atenção para os rostos de afegãs sem burcas nas páginas do New York Times e como esses rostos eram exibidos orgulhosamente, como um sinal do sucesso da democracia, no entanto, esses rostos captam o sucesso estadunidense do progresso cultural como o “melhor dos possíveis” e deslocam o rosto levinasiano: nós não identificamos com qualquer vocalização sem palavras, lamento ou agonia da precariedade dessas vidas. A produção do rosto é uma das diferentes maneiras em que a vida a violência pode ocorrer e a autora reclama para que pensemos nisso, para esses retratos da mídia que são manobrados: o rosto de Bin Laden como o rosto do terror, o rosto de Arafat como o rosto do engano e o rosto de Hussein como o rosto da tirania contemporânea.

A mídia deslocou ou ocultou o rosto e sua demanda ética, como nos esclarece a autora, nós não nos identificamos ou somos capturados por ele, mas pelo contrário, fazemos uma ação de dentro para fora, somos nós que capturamos e evisceramos as imagens à mão. No caso das imagens exemplificadas por Butler (2011, p. 26), ela nos diz: “elas ou representam o triunfo americano ou promovem um incitamento ao triunfo militar americano no futuro. Elas são os despojos da guerra ou são os alvos da guerra”. Esses rostos midiáticos mascaram o rosto, no sentido que encontramos em Levinas, eles são simplesmente uma personificação política que deve ser a própria ideia que ele representa, uma espécie de suplemento, no sentido derridiano: o rosto do mal, o rosto do terror, o rosto do triunfo cultural, o rosto do triunfo militar etc.

A leitura de Butler sobre Levinas nos ajuda a compreender que algo falha quando o humano é capturado pela imagem, porque ele não pode ser capturado pela representação, não pode ser representado e, assim, não nos identificamos com o que é representado, mas também com o que é irrepresentável. Ainda, para Butler (2011, p. 31-32): “Não é possível, nas condições contemporâneas de representação, escutar o clamor agonizante ou ser compelido ou chamado à responsabilidade pelo rosto”.

Encerrando nosso texto, gostaria que pudéssemos nos atentar para essa questão da representação, humanização e desumanização em tempos midiáticos, como esse debate entre o rosto levinasiano e rosto estampados em nossos jornais, revistas, televisões, eles estão a favor de alguma política representacional que impede nossa vinculação ética com o Outro, que o deixa de representar ou estampa um rosto pelo qual entramos em euforia, mas deixamos de perceber a violência por trás do rosto do “herói”. Aliás, o próprio rosto produzido é uma das maneiras pelas quais a violência pode ocorrer, porque esses rostos estão manobrados e se seguimos Judith Butler, eles são invariavelmente tendenciosos.


[*] Sugiro as leituras dos textos: USP, estudantes, policiais e o reitor e Uma violência policial autorizada, estimulada e sancionada; ambos de autoria de Adriano Senkevics para esse blog. Gostaria de deixar meu apreço por esses textos e como eles me ajudaram a ter uma visão crítica sobre esses acontecimentos; e gostaria também de esclarecer que minha atenção quanto a esse contraste específico entre a mídia, a greve da USP no ano passado e a greve das universidades federais nesse ano, foi incitada por um comentário do autor.

1 comentário
  1. Oi Lucas,

    Adorei o texto! Você está mandando cada vez melhor nessas discussões de teorias pós-estruturalistas, em especial da linguagem. Manda ver no Derrida, Foucault, Deleuza. Mete as caras na Butler. Be happy! rs Cê sabe que não é a praia onde eu nado, mas acho que tem tudo a ver com os seus interesses. Estou gostando, continue estudando e lendo como tem feito!

    Sua análise foi bastante interessante, em especial os primeiros parágrafos onde, sem os aportes teóricos que surgem depois no texto, você se arrisca a discutir Bin Laden, USP, grevistas das federais. Agradeço pela citação a minha pessoa. Fico muito grato de saber que aqueles dois textos lhe foram úteis. Bacana!

    Parabéns pelo texto! (só cuidado para não pesar a mão nos termos acadêmicos. Para quem não é minimamente entendido, termos como “derridiano” podem parecer obscuros. Valeria, na primeira aparição deste termo, um parêntese indicando “relativo ao linguista Jacques Derrida”, se é que ele é linguista…).

    Abraços!

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