O que são as crianças para nós?

Fala-se, basicamente, da existência de três fases da vida: a infância, a idade adulta e a velhice. Entre elas, podemos acrescentar fases intermediárias, como a pequena infância, a adolescência e a juventude. Mas, vamos nos ater às três mencionadas anteriormente. Além do critério etário, há outras qualidades que as diferenciam, como a relação que essas fases da vida estabelecem com o mundo do trabalho.

Ainda, poderíamos pensar quais outras características marcam cada fase da vida e, em especial, a infância. O que são as crianças? Elas são autônomas e sabem se cuidar ou precisam de proteção o tempo todo? Elas são boas por natureza ou devem ser vigiadas? Elas são um adulto em miniatura ou se encontram em fase de desenvolvimento? Todos esses aspectos influenciam na forma como nos relacionamos com as crianças e na escolha de qual educação queremos oferecer a elas.

Qual é a concepção de infância mais forte atualmente?

Há várias concepções distintas para a infância – muitas vezes contraditórias – que projetam diferentes imagens para as crianças. Podemos resumir cinco concepções de infância, com base em James, Jenks e Prout (1998):

– A criança má: é uma noção de infância, resume Manuel Sarmento (2007), baseada na ideia do “pecado original”, que aproxima as crianças de uma maldade para a qual o ser humano tenderia a ir. Ou seja, pelo fato das crianças nascerem despidas das normas e regras das sociedades adultas, existiria certo receio de que as crianças pudessem desafiar essas mesmas normas. A anarquia delas deveria ser controlada. Tal ideia encontra ressonância na teoria de Thomas Hobbes. Nessa concepção, a criança é um ente que deve ser educado, “socializado” ou, quando não, reprimido.

– A criança inocente: contrária à visão anterior, esta preconiza que as crianças são inocentes, “puras” e boas por natureza. É baseada em um mito romântico da bondade e da pureza. Elas nasceriam distantes da maldade das sociedades adultas e por isso deveriam ser vistas como o “futuro do planeta”. A referência, aqui, é a noção de “bom selvagem” do Jean-Jacques Rousseau, de que é recheado de bondade o indivíduo que vive distante da sociedade e próximo à natureza.

– A criança imanente: tal concepção é base para o famoso conceito da tabula rasa, atribuído a John Locke. Isto quer dizer que a criança é uma superfície vazia, em branco, na qual podemos colocar o que quisermos. Nela, podem ser inscritas a razão e a virtude, como também a maldade e o caos. Vai depender se a sociedade será capaz de conduzir as crianças à ordem. Elas, as crianças, estão aí para serem “moldadas”.

As crianças são autônomas e sabem se cuidar ou precisam de proteção o tempo todo? Elas são boas por natureza ou devem ser vigiadas? Elas são um adulto em miniatura ou se encontram em fase de desenvolvimento?

– A criança naturalmente desenvolvida: é a ideia de que as crianças são seres que se desenvolvem em estágios. Independente da cultura na qual elas estão inseridas, elas são vistas primeiro como seres naturais, antes de sociais, em processo de maturação. Essa é a base para a psicologia do desenvolvimento de Jean Piaget. Esse conhecimento pode ser mensurado, compreendido e deduzido para cada criança. Com base em alguns modelos, poderíamos predizer o desenvolvimento de todas as crianças.

– A criança inconsciente: já essa concepção se assenta na psicanálise de Sigmund Freud. Aqui, o desenvolvimento do comportamento humano é creditado ao conflito de relações na idade infantil, em especial com as figuras materna e paterna. Certos comportamentos “desviantes” são imputados a vivências e traumas infantis, que teriam penetrado no inconsciente da criança e permanecido lá até a fase adulta, influenciando no adulto que hoje se tem.

Essas imagens da infância convivem na nossa sociedade, inclusive se contradizendo o tempo todo. Aceitamos tanto a ideia de que as crianças se encontram em um processo natural de desenvolvimento físico e cognitivo, quanto à noção psicanalítica de buscar na infância as respostas para o presente. Ao mesmo tempo, se uma criança comete um crime, nos assustamos por que “era apenas uma criança!”, entendendo que tal maldade não cabe no seu pequeno corpo. Enfim, muitos exemplos são possíveis.

É importante questionar qual é o lugar a que estamos destinando a infância. Será que é um olhar hierarquizado, de cima para baixo? Será que a margem para mudanças?

Mas o que todas essas visões têm em comum são três aspectos: em primeiro lugar, partem de uma noção abstrata da infância, pois a criança é vista antes como uma entidade singular do que como uma categoria social construída, tal como discutimos em outro texto. É válido ressaltar que nenhuma dessas concepções, com exceção das duas últimas (e ainda com ressalvas), teve como base alguma pesquisa ou estudo. Não há base para afirmar se as crianças são boas, más, imanentes ou que quer que seja de forma tão convicta e assertiva.

Em segundo lugar, desconsideram o contexto social enquanto produtor de condições para a existência e formação das crianças. Todas as cinco imagens da infância acima pretendem dizer o que são as crianças de todo o mundo, independente da sua época, origem, cultura ou sociedade.

Por último, mas não menos importante, são concepções que enxergam a criança na sua relação com o que elas vão se tornar, com o que elas vão ser, e não com o que elas são. A preocupação é sempre com o mundo adulto, seja pela sua bondade/maldade natural, sua capacidade de ser moldada, seu desenvolvimento ou seu inconsciente. A criança em si perde seu estatuto. Ela se torna apenas um capítulo – e um capítulo introdutório – na vida do adulto que dela vai surgir.

Está na hora, no entanto, de olharmos para as crianças enquanto tais e valorizar sua própria condição. Para isso, precisamos entender as crianças dentro do seu contexto e assumir que para responder a pergunta “o que são as crianças?” é necessário fazer escolhas. Pois elas são, antes de tudo, uma categoria social e política dotadas de sua própria história. Para que rumo vai essa história, cabe a toda a sociedade responder.

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: