Desigualdades de gênero e cor/raça na Educação Básica no Brasil

Democratizar a educação no Brasil significa prover dos meios necessários para que todos os grupos sociais, das suas mais variadas características e origens, tenham direito à escolarização. Para tanto, é necessário reconhecer quem enfrenta maiores obstáculos nesse processo e como isso compromete o pleno exercício desse direito.

Se, no passado, a educação escolar era um privilégio, no decorrer do último século ela foi se expandindo, procurando incorporar alunas e alunos de todas as regiões do país, de todas as cores, raças e etnias, e de todas as classes sociais. A universalização da educação foi um fenômeno marcante, mas ainda não se concretizou plenamente. Dentro do sistema educacional, milhões de crianças enfrentam diversas dificuldades: encaram a reprovação e evasão escolar, estão atrasadas na escola, sofrem com um ensino racista, sexista e etnocêntrico, entre outras.

Pelo gráfico abaixo, podemos notar que, considerando as variáveis sexo e cor/raça, o grupo social que mais se beneficiou na escola são as mulheres brancas. De fato, independentemente da sua região de origem, essas mulheres são o grupo que galgam os melhores níveis de escolaridade: elas estão menos defasadas, concluem em maior proporção a educação básica, alcançam em maior proporção o ensino superior etc. Porém, o seu bom desempenho escolar não se reflete diretamente no mercado de trabalho, assunto para outro texto.

Média dos anos de estudo da população de 10 anos ou mais, por sexo e cor/raça. (Fonte: PNAD 2009, baseado em Rosemberg & Madsen, 2011)

Na outra ponta, estão os homens negros. Há, na escola, tanto um problema racial, que remete à lamentável história de exploração escravagista no Brasil (assim como em muitos outros países) e o persistente racismo na sociedade, o qual também se articula a uma delicada questão social, de acesso à moradia, vulnerabilidade à violência, saneamento básico, inclusão social etc.

Porém, há uma desigualdade de gênero presente na escola, que lateja sutilmente (ou nem tanto) em praticamente todos os indicadores educacionais. É fato que, se no passado as mulheres possuíam um acesso restrito à educação escolar, com o passar do tempo elas foram as principais beneficiadas pela universalização do ensino. Essa tendência ficou conhecida como “reversão do hiato de gênero”. Hiato de gênero refere-se às disparidades entre meninas e meninos. Antes, favoreciam meninos; hoje, meninas. Por isso fala-se da sua reversão.

Proporção de estudantes ao longo dos anos do Ensino Fundamental de 9 anos e Ensino Médio (EM), por sexo. (Fonte: PNAD 2009)

O gráfico acima ilustra bem as dificuldades enfrentadas por meninos e meninas na escola. Se compararmos a proporção entre as crianças de cada sexo ao longo das séries do Ensino Fundamental (EF) de 9 anos, assim como do Ensino Médio (EM), veremos que há um cruzamento. Os meninos se concentram nas séries iniciais do EF, enquanto as meninas predominam do 7º ano em diante, permanecendo na frente até o ensino superior e pós-graduação, que não constam na figura.

Esse gráfico NÃO indica, ao contrário do que leituras equivocadas têm afirmado, que as meninas não estão sendo contempladas pela educação, como se elas não conseguissem acessar o Ensino Fundamental. O problema é outro: justamente por caminharem melhor na sua escolarização, as meninas passam pelo EF, seguem para o EM e concluem a Educação Básica. Já os meninos, por enfrentarem maiores dificuldades já no EF, ficam retidos e/ou defasados, o que faz com que, em proporção, sejam maioria nas séries iniciais.

Para compreender melhor como as desigualdades de gênero e cor/raça se transparecem na Educação brasileira, elaborei quatro textos que podem ser acessados abaixo, cada um deles se debruçando sobre um aspecto mais específico.

Clique no título dos subtópicos abaixo para acessar o seu respectivo texto:

Uma educação universalizada e democratizada deve lutar para levar a Educação, básica e superior, a todas e todos, de modo que grupos sociais, como os meninos e jovens negros, não enfrentem tantas dificuldades quanto têm enfrentado para atingir melhores índices de escolaridade.

Longevidade escolar: diz respeito à expectativa de conclusão de anos escolares, ou seja, quantos anos letivos cada criança ou jovem em média conclui. Neste indicador, as meninas concluem em média 7,7 anos, e os meninos 7,4. Entre brancos/as, 8,4; negros/as, 6,7. Aqui, as desigualdades de raça são marcantes e a “reversão do hiato de gênero” está muito evidente.

Alfabetização: em quase todas as faixas etárias, há maior proporção de meninos analfabetos que meninas, com exceção dos adultos com mais de 50 anos, reflexo do acesso restrito à educação pelas mulheres no passado. Com a variável cor/raça, fica evidente que negros/as são os/as mais prejudicados/as pelo analfabetismo. Com as gerações mais velhas, nas quais as disparidades são gritantes, fica visível o peso que a educação elitizada (e branca) teve e ainda tem sobre negros/as.

Frequência escolar: na Educação Básica, o acesso à escola é um dos indicadores que nos deixa mais otimista. Porém, no ensino superior a situação muda, pois o acesso de negros/as é sensivelmente menor que o de brancos/as. A despeito disso, esse indicador nos mostra o quanto uma educação universalizada pode favorecer a todas e todos.

Defasagem escolar: se eu digo que 28,9% das meninas de cor branca do Ensino Médio possuem alguma distorção série-idade, já é um dado assustador; mas é ainda mais assustador se revelarmos que metade dos jovens negros estão defasados nessa mesma etapa de ensino. Enquanto as meninas brancas estão mais bem distribuídas entre EF, EM e Graduação, os meninos negros se concentram no ensino fundamental, enquanto pequenina parcela, apenas 5,8%, consegue acessar alguma faculdade (o que não quer dizer que conseguirão concluir).

Com esses cinco artigos, contando com esse, esse blog espera ter contribuído para sintetizar e apresentar dados oficiais e atualizados, todos extraídos de fontes confiáveis indicadas nos seus respectivos textos e figuras, para pintar um panorama geral das desigualdades de gênero e cor/raça na Educação Básica no Brasil.

Discutir desigualdades sociais nas escolas brasileiras, reconhecendo a dimensão desse problema e suas tendências, é o primeiro passo para solucionar problemas que atingem milhões de crianças e jovens, com o intuito de promover uma Educação mais democratizada, universalizada e de melhor qualidade.

7 comentários
  1. Passei os olhos nesse artigo. Quero incorporá-lo aos meus textos de estudos, irei ler com atenção. É bem interessante lembrarmos as 3 revoluções educacionais citadas por J.Esteves e constatarmos que as consequências do processo de democratização da educação – não passou e nem passa – pela consideração da diversidade, pela superação da exclusão mas sim o deslocamento do foco que democratizar é matricular todos e todas em uma instituição de ensino.
    “Escolarizar todos os homens era condição para converter os servos em cidadãos, era condição para que esses cidadãos participassem do processo político, e, participando do processo político, eles consolidariam a ordem democrática, democracia burguesa, é óbvio, mas o papel político da escola estava aí muito claro (SAVIANI, 2009, p. 37).”
    A escolarização produz sem dúvida a marginalização e levantar as questões de “desigualdades de gênero e cor/raça na Educação Básica no Brasil” é trazer para a luz das reflexões o meu, o seu o nosso papel de cidadãos educadores.
    Muito bom!
    Grata
    Rosa Bertholini
    Pedagoga

  2. Adriano, você é fantástico! Amei o texto. Vou ler os outros cinco artigos em breve.

    Em alguns momentos, seu texto cruza bastante sobre o que tenho pensado/escrito a respeito da noção de interseccionalidades x “soma de desigualdades”. Acho que daria um bom artigo de retorno ao blog. Ainda posso? rsrs.

    Abraço e parabéns pelo texto.

    • Oi Matheus,

      É claro que pode, rs, mas os seus novos artigos vão passar pelo Poder Moderador, rs.

      Ah sim, a discussão de interseccionalidades está sempre como pano de fundo. Vou ler seu artigo com calma em breve.

      E obrigado por ter voltado!

      Abraços!

  3. Luiz Claudio disse:

    Olá Adriano, tudo bem ? Parabéns por seu artigo, ficou excelente. Você acha que a menor presença de homens na escola a partir do sétimo ano do ensino fundamental estaria relacionada com o trabalho infantil ? Moro no interior e na minha cidade vejo crianças e adolescentes que aparentam trabalhar o dia todo, como em carregamentos de frutas nas feiras, e em sua maioria são do sexo masculino.

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: