Trabalhando com a noção de interseccionalidades

O debate sobre a noção de interseccionalidades vem sendo feito já há alguns anos dentro da teoria feminista. Pretendo trazer, aqui, algumas considerações sobre a temática, tentando interseccioná-la com alguns exemplos práticos. Adriana Piscitelli (2008) nos conta, ao realizar um estudo sobre migrantes brasileiras – ou a feminização da migração brasileira –, que as categorias de articulação, ou interseccionalidades, surgiram em um contexto de crítica às primeiras formulações do conceito de gênero, no bojo da chamada Segunda Onda do feminismo.

Como trabalhar com o conceito de gênero considerando que ele opera juntamente com vários outros marcadores sociais da diferença de forma articulada?

Tais conceituações, que inicialmente buscavam localizar a origem da subordinação universal das mulheres, ou a essência da dominação masculina, especialmente dentro das linhas radicais ou socialistas do feminismo, foram criticadas mais à frente, já no final dos anos 80 e durante toda a década de 90. É nesse contexto que vão surgir novas formulações sobre o conceito de gênero, (re)trabalhado por autoras como Joan Scott, Marylin Strathern, Donna Haraway, Judith Butler, entre outras. Essas autoras repensaram o conceito de gênero como ele fora trabalhado até então. Para ler um pouco mais sobre este assunto, leia o post O conceito de gênero por seis autoras feministas. De qualquer maneira, o mais importante aqui é frisar que é “no bojo desse movimento, na procura de categorias analíticas alternativas, [que] surge a formulação dos conceitos categorias de articulação e/ou interseccionalidades” (Piscitelli, 2008, p. 266).

Mas o que é a tal noção de interseccionalidade? Segundo Piscitelli (2008), “a proposta de trabalho com essas categorias é oferecer ferramentas analíticas para apreender a articulação de múltiplas diferenças e desigualdades” (p. 266). Ou seja: trabalhar com uma perspectiva interseccional é, em primeiro lugar, não mais tentar apreender ou analisar a realidade através de um ou outro conceito isoladamente, como é o que se tentava fazer a partir do conceito de gênero; em segundo lugar, é pensar categorias de classificação dos sujeitos de forma relacional e articulada. Vamos pensar a seguinte situação: por um motivo qualquer, você conhece uma mulher negra lésbica. Nesse caso, podemos dizer, de forma bastante simplificada, que três marcadores sociais da diferença são acionados: o “gênero” (mulher), a “sexualidade” (lésbica) e a “racialidade” (negra); se somássemos todas as desigualdades (de gênero, de orientação sexual e de raça), o resultado seria uma mulher que sofre “subordinações” várias, por diversos motivos, durante toda sua vida, pelo simples fato de ser triplamente “inferior”, “subalterna”, “diferente” (ou qualquer outra categoria que o valha), como se uma subordinação “puxasse”, necessariamente, a outra. Mas será que a coisa é tão simples assim? A “soma de desigualdades” parece ser uma estratégia de análise limitada. Uma mulher-lésbica-negra, a meu ver – e baseando-me na noção de interseccionalidades – não necessariamente sofrerá “opressão” por ser mulher E lésbica E negra, sempre, e ao mesmo tempo. Sobrepor todas essas diferenças como se uma complementasse a outra simplifica e reduz uma possível interpretação da realidade social.

Segundo Anne McClintock (foto), as experiências vivenciadas por meio dessas categorias não são dissociadas uma das outras, e muito menos podem ser combinadas como se fossem um “lego”. Por esse motivo, devemos pensá-las como categorias articuladas, que existem de forma relacional e contextual.

Seguindo as palavras de Anne McKlintock (1995), teórica das interseccionalidades, as experiências vivenciadas por meio dessas categorias não são dissociadas uma das outras, e muito menos podem ser combinadas como se fossem um “lego”. Por esse motivo, devemos pensá-las como categorias articuladas, que existem de forma relacional e contextual. Se formos pensar, por exemplo, em uma Associação de Mulheres Lésbicas Negras, talvez os marcadores de gênero, sexualidade e raça no exemplo acima sejam elementos de empoderamento do sujeito aqui analisado, o que vai de encontro com o cansativo discurso de vitimização das minorias. Vale lembrar, a tempo, que o exemplo utilizado aqui é “meramente ilustrativo”. Seria impossível – também partindo da noção de interseccionalidades – realizar uma análise tendo como base somente três marcadores, afinal nós, sujeitos, e as comunidades e sociedades que constituimos, somos compostas/os por diversos outros componentes, ou diversas “categorias de diferenciação”.

A partir do uso das interseccionalidades, portanto, é possível vislumbrar uma maior capacidade de agência (possibilidade de ação do sujeito). Piscitelli (2008) afirma, nesse sentido, que “as categorias de diferenciação não são idênticas entre sim, mas existem em relações, íntimas, recíprocas e contraditórias. Nas encruzilhadas dessas contradições é possível encontrar estratégias para a mudança (…). Ao analisar as categorias articuladas, McKlintock explora políticas de agência diversificadas, que envolvem coerção, negociação, cumplicidade, recusa, mimesis, compromisso e revolta” (p. 268).

O debate é muito mais rico e amplo. Sugiro, para quem se interessar, Avtar Brah (2006) como leitura complementar para (começar a) aprofundar o conhecimento neste campo. Enfim, após essa pequena pincelada nos estudos sobre interseccionalidades, seria interessante entrar na discussão sobre formulação e implementação de políticas públicas pensadas a partir dessa perspectiva. Entretanto, por uma questão de espaço, essa discussão ficará para uma próxima oportunidade.

1 comentário
  1. lucimari Siqueira disse:

    Gostei bastante do texto me ajudou a compreender um pouco mais sobre interseccionalidades.

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