Eu não sou feminista (?)

Ontem, dia 04 de outubro de 2012, tive uma interessante conversa sobre a presença de homens no movimento feminista. Tudo começou em um grupo de discussão sobre temáticas relacionadas ao feminismo, no Facebook. Em um dos tópicos, alguém recomendou a leitura do livro A Dominação Masculina, de Pierre Bourdieu. Comentei logo em seguida, dizendo que o texto era muito interessante, mas que seria importante problematizá-lo (por motivos que não são o foco deste texto). Sugeri, então, a leitura do texto O Sexo da Dominação, de Mariza Corrêa, que faz uma boa análise e crítica a essa obra do Bourdieu.

Acreditei que o debate seguiria de forma tranquila após isso. Qual não foi minha surpresa quando o comentário abaixo veio com o seguinte texto: “Eu CAGO para homens, especialmente heterossexuais, que tentam falar sobre mulheres”. Resolvi comprar a provocação. Minha intenção, de início, era problematizar essa fala. Afinal, por que homens não podem falar sobre mulheres? Existe um consenso dentro do movimento feminista a respeito disso? A fala acima me incomodou principalmente porque eu falo do lugar de um homem que apoia o movimento e se considera feminista. Não descreverei aqui o debate na íntegra, mas abordarei alguns pontos-chave da discussão.

E então: homens podem ser feministas ou não?

Começo falando sobre um argumento utilizado pela minha interlocutora para justificar a não-possibilidade de participação dos homens nos debates feministas. Segundo ela, “o opressor não pode falar pelo oprimido”. Nessa linha de pensamento, só mulheres podem falar sobre/por mulheres, só gays podem falar sobre/por gays, só negr@s podem falar sobre/por negr@s (segundo ela). Pois bem. Uma das perguntas que fiz foi: mas o que é mulher, então? Qual a definição da palavra “mulher”? Acredito que haja uma dificuldade muito grande de se colocar, em uma só categoria, todas as formas de vivenciar o “ser mulher”. A não ser que essa categoria seja definida de uma forma essencialista, ou seja, levando-se em consideração características biológicas e/ou intrínsecas de uma suposta biologia que define os sujeitos. E é complicado falar em essencialismos dentro de um movimento social que tem como uma de suas principais bandeiras a luta contra tais concepções. Por esse motivo, já acho complicado falar que “homem não pode falar sobre mulher”, uma vez que essas próprias categorias já são, em si, problemáticas: se eu não consigo definir de fato o que é mulher, mais complicado ainda é dizer que só mulher pode falar sobre mulher, não?

Em todo caso, vamos supor, por um momento, que realmente essa distinção drástica entre “homem” e “mulher” faz sentido. Ainda assim, fica difícil visualizar como homens não podem fazer parte de um movimento que, em sua grande maioria, luta contra desigualdades, mais especificamente contra desigualdades entre homens e mulheres. Se as mulheres historicamente lutam por direitos iguais em todas as instâncias da sociedade, não vejo muito sentido em falar, de forma agressiva, que homens não podem ajudar nas discussões e nas lutas. Acredito, ainda, que se existem homens que têm afinidade pelo feminismo, em muitos casos isso se deve a avanços sociais resultantes do próprio feminismo – por exemplo, uma relativa equidade de gênero em alguns espaços. Um exemplo claro e rápido disso é a possibilidade de homens poderem participar do Curso de Formação Feminista do Grupo Transas do Corpo, curso esse que pude ter o prazer de estar presente em sua primeira edição. O efeito disso, pelo menos até agora (e até onde pude sentir e perceber), foi de homens que deram suas contribuições, cada um à sua maneira, para o avanço do movimento.

“Nós apoiamos homens no feminismo”.

Penso que muito do que estou falando aqui vem sendo amplamente discutido, analisado e abordado nos demais textos deste blog. Por esse motivo, não vou me estender muito. Meu objetivo foi, antes de mais nada, relatar uma experiência pessoal que, muito embora tenha acontecido em um contexto bastante particular, revela debates que estão no bojo do movimento há tempos e que devem ser, sim, discutidos. Meu post, nesse sentido, é político.

Acredito no poder das alianças. Muito mais do que brigar para reiterar discursos essencialistas que separam radicalmente homens e mulheres em dois grupos distintos e dicotômicos, entendo que, num contexto de profunda efervescência do conservadorismo e da caretice, como é o caso brasileiro – e de outros contextos em todo o mundo –, precisamos criar alianças entre pessoas que estão preocupadas em criar uma realidade distinta, mais justa e igualitária – e, portanto, menos (bem menos!) imbecil – e lutar pelo fim de desigualdades, especialmente as de gênero. E tudo isso é bem diferente de um discurso dito por quem está menos preocupado com mudanças e avanços do que com elencar diferenças entre homens e mulheres. Nesse sentido, posso afirmar, com toda a certeza: sim, eu me considero feminista!

14 comentários
  1. Oi Matheus!
    Acho que assim como você, eu tenha chegado a um feminismo acadêmico a partir de um feminismo militante, e também já me deparei com esse tipo de situação, que nos traz um desconforto mesmo. Afinal, todas as pessoas querem ser reconhecidas pelas coisas massas que fazem, né? Mas já para começar a alfinetar, remeto a uma frase que esteve num cartaz em alguma edição das marcha das vadias aqui: “Não se sinta o máximo, por fazer o mínimo”.
    Não acredito que seja necessariamente esse o caso, mas é algo a se refletir.
    Para começar a mesma crítica que várias feministas afzem ao Bordieu acho que a gente pode trazer para nossas vidas: em que medida nós (homens) ao falarmos das mulheres e do feminismo não estamos nos apropriando dos saberes e lutas dessas mulheres e transferindo para nossa própria valorização (mesmo q não intencionalmente)? Tinha uma revista aqui na UnB inclusive, coordenada pela Profª tânia navarro, que proibia a citação de Bordieu nos artigos enviados, justamente porque ele de fato disse por ele mesmo várias coisas que as feministas francesas já diziam a muito tempo. O que eu achei muito massa: Afinal, a gente não concorda que ele fez coisas palhas, oras vamos minimizar as cagadas então, né?
    É realmente bem palha quando qualquer pessoa em qualquer situação chega armada para defender suas posições, principalmente quando é contra a gente, sentimos que a discussão tá sendo injusta. Mas depois de bastante tempo dedicado a estudar o feminismo, e a vivenciar ( o que teve peso infinitamente maior – e nunca deixarei de ser grato as amigas/colegas feministas por terem me ensinado tanto), a través das várias colegas e amigas femisnistas, eu tendo a acreditar cada vez mais que a condição feminina é tão escrota que a raiva é totalmente legitima.
    Em várias rodas de conversas, – para dar um exemplo condutor do argumento -, e atividades feministas que participei e participo aqui no DF sempre rola a decisão de ser algo aberto ou fechado a presença de homens, e tenho opitado por se a posição tomada coletivamente foi a de ser fechada apenas para as mulheres, a única coisa que posso fazer e me retirar, e isso não é nada demais, é o mínimo de respeito que se pode ter, né. E faço isso pq entendo perfeitamente a legitimidade desse ato. É claro que é muito chato e inconivente eu ficar escutando o pq minha presença alí não é devida, inclusive por argumentados dados por amigas MUITO queridas (já aconteceu com você? É horrível!). Mas alí não é meu espaço de fala, nem de argumentação, apenas de aceitar a decisão coletivas daquelas mulheres.
    É claro que algumas mulheres vão se opor, vão achar que os homens tem que participar, e isso só responde sua pergunta: não, não existe feminismo, mas feminismos.
    O que não exime os caras de responsabilidade, né? Afinal, suponhamos que numa atividade coletiva 9 de 10 meninas acham que devo ficar, e apenas 1 acha que devo sair, qual meu posicionamento frente a isso? Não quero ser um cara que causará desconforto para uma mina, mesmo que seja apenas uma. Ela sabe o porque a minha presença por ser incomoda, e não quero, não posso ou devo achar legitimo incomodar nem um pouco uma mina, AINDA MAIS num espaço feminista, né?
    Isso porque penso cotidiamente o quanto nossa existência incomoda as minas. Parece meio louco, né? Pois é, o feminismo tá aí é pra incomodar mesmo. Rs. Mesmo a gente se dizendo feminista, a gente NUNCA ou em escala muito menor será vítima de abuso sexual, terá medo de ser estuprado na noite, a gente provavelmente ganhará o emprego de uma mina, o que a gente fala na sala é mais reconhecido, enfim, não preciso te explicar os privilégios que temos na sociedade simplesmente por sermos caras. Reconhecer privilégios é o primeiro passo para uma militância em qualquer espaço que seja, né?
    Ao andar pela noite numa rua deserta, já parou para pensar que a mulher que vem pelo outro sentido da rua pode estar com muito medo de ser violentada por você? A existência dos homens inflige medo e sofrimento a muitas mulheres! Isso é muito triste!
    É por isso que entendo quando você relativiza o que é ser mulher, mas lembre-se de não deixar de colocar o pé na realidade: a gente continua cara, a gente continua com MUUUUIIIITOS privilégios.
    As mulheres lutam por igualdade, é verdade. Então tá na hora dos caras calarem a boca, pararem de falar pelas mulheres quando ela podem falar por si mesmas. A gente (caras) está há muito séculos falando por elas, sobre o corpo delas, sobre os desejos delas, sobre os sonhos delas etc, se uma mulher diz que caga pro que um cara fala sobre feminismo e mulheres, eu tendo cada vez mais a achar que ela tem direito a isso.
    Enfim, desculpa a resposta longa, mas eu já pensei muito a respeito do lugar dos caras no feminismo, e isso não foi fácil, várias amigas tiveram que apontar o dedo pra mim dizendo que tava fazendo merda. E sempre penso o desgaste que elas tem ao fazerem isso, podiam estar gastando energia com outras coisas, e não tendo que ensinar a um amigo a não continuar a silenciar as mulheres, é justamente por isso que me importei tanto em tentar te convencer disso, pq é papel dos caras saberem onde estão e se fazem algo que incomoda as mulheres ou não. Enfim, forte abraços!
    :*

    ps. Aqui na UnB a gente criou um coletivo chamado Meninos Discutem Gênero, justamente como um espaço dos caras para falaram sobre seus lugares e condições nas relações sociais de gênero e no feminismo sem encherem o saco das minas! rs

    • Oi, Rodolfo!

      Primeiramente, é um prazer ler um comentário seu aqui no blog. E, mais do que isso, ler um comentário tão grande e consistente quanto o seu.

      Mas vamos lá: não sei se o objetivo da discussão era fazer com que eu fosse reconhecido por algo massa que eu faça ou tenha feito, sabe? Mais do que destacar a minha atuação em algum segmento militante, a ideia aqui era tentar entender por que alguém diria que “caga por homens que querem falar por mulheres”. Caso contrário, seria melhor ter feito um relato biográfico, né?. Mas acho que, de forma geral, você entendeu meu ponto.

      Também de forma geral, eu meio que discordo de você, rs. De fato, sei que nós, “homens”, temos privilégios. E não ignoro (nem pretendo ignorar) nada disso. Questões relacionadas ao trabalho, aos direitos sexuais, ao estupro, etc. Conheço o debate e dou muito valor a essas questões. Em momento algum, e eu espero não ter passado essa imagem, disse que estes pontos devam ser desconsiderados.

      Sim, existem vários feminismos. E, com certeza, tenho sido formado por um feminismo que não toma por base a “diferença sexual” como premissa acadêmica, militante, existencial, ou qualquer coisa que o valha. Como o Adriano (um dos autores e criador deste blog) me disse há alguns dias atrás: os homens são constitutivos dos feminismos da atualidade. É um retrocesso muito grande, em um grupo de mulheres onde somente 10% delas não aceitam homens (como foi o exemplo citado por você), o homem ter que se retirar. É aquela histórica cena de mulheres que se retiram do espaço público para que os homens possam conversar no seu “clube do bolinha”, só que ao contrário.

      Você fala em “vivência do feminismo” e da importância da mesma para você. Cara, as mulheres feministas têm passado, cada vez mais fortemente, por um processo de subjetivação diferenciado nos útlimos anos. Alguns homens têm se interessado SIM pela bandeira feminista. QUAL O PROBLEMA DISSO? Esse discurso de que os homens estão silenciando mulheres ao fazer isso é, na minha opinião, muito vitimista e pouco tem a dizer da realidade.

      Eu percebo um feminismo muito cego dessas meninas que “cagam” para homens feministas. Veja só: na polêmica toda que me motivou a escrever este ensaio, uma das garotas que estava debatendo comigo, em determinado momento, me disse: “ah, sai daqui, cara. pára com esse papo machinho”. Ela nunca tinha ao menos falado comigo! E ela muito menos queria saber dos meus argumentos, não queria saber de que lugar eu estava falando: eu, na visão dela, era simplesmente um “machinho” querendo impor meus argumentos e minha voz sobre ela(s). Isso me ofendeu muito, sim. Se de fato algumas mulheres não aceitam homens no feminismo, tudo bem. Farei do mesmo modo que eu fiz durante o debate: aceitarei a opinião delas, direi que entendo o seu lado, e as convidarei para debater em outros espaços, como por exemplo o grupo de estudos do Ser-Tão, que aceita homens no debate, só pra variar um pouco e perceber que as coisas são um pouco mais relativas.

      Não vou aceitar que me digam que não posso ser feminista simplesmente pelo fato de ter um pênis entre as pernas. Se uma mulher passa por mim em uma rua escura e sente medo de mim, significa que algo está muito errado. Mas não está errado só no meu corpo, e sim na cabeça de todos nós que reafirmam que todos os homens são monstros de um lado e mulheres são vítimas, de outro. E eu não consigo ver como mudar essa realidade reafirmando a diferença sexual como pré-requisito do ativismo feminista. Estou, de verdade, interessado em construir uma realidade diferente – não em nome das mulheres feministas, mas COM elas, e acho que isso faz toda a diferença.

      Enfim, gostei muito da sua opinião. Mas realmente acho esse discurso um pouco complicado. Como eu falei algumas vezes: a ideia é procurar a igualdade, e não consolidar ainda mais as diferenças, seja no âmbito público, seja (e especialmente) no privado.

      É mais ou menos isso =)

  2. Matheus, estou de acordo com você, e achei sua resposta fantástica!

    Os feminismos nos trazem aportes para pensar muitos questões importantes da atualidade, assim como no passado. E isso certamente gera espaços de formação para mulheres e para homens. Penso que a iniciativa dos estudantes UnB é muito válida, de promover um coletivo voltado para os meninos (o que não quer dizer que precise impedir a presença de mulheres, mas não sei sobre seu funcionamento, talvez o Rodolfo possa esclarecer). Mas, meninos, vamos ser sensatos: se sou feminista, se me sinto à vontade de, na minha condição de menino e independente da minha sexualidade (que não está em jogo aqui!), me considerar feminista, devo creditar isso à luta de muitas mulheres feministas.

    Nossa formação é feminista, apesar de sermos meninos. É só ver quem nós lemos e citamos: Scott, Butler, Connell, Preciado, hooks, Wittig, Nicholson, Thorne. Todas, sem exceção, mulheres. Todas feministas. Então acho incômodo quando alguma feminista se refere a mim como se eu estivesse trazendo “um olhar masculino”. Em termos de referêncial teórico, sou uma mulher feminista!

    Mas quem discorda de mim pode argumentar que eu não vivo a “experiência de ser mulher”. É evidente que existem desigualdades e privilégios na sociedade que prejudicam as mulheres. Uma mulher, quer queira quer não, corre riscos, ao andar na rua de noite como vocês mesmo disseram. Ninguém aqui está negando isso. Só acho que está na hora de superarmos esse mantra do “feminismo da diferença” e abandonarmos a crença de que a experiência de ser mulher lhe trará alguma subjetividade diferenciada, mais autêntica, mais política, mais legítima.

    É fato, e creio que com vocês também, que sou mais feminista que muitas amigas minhas. E não é porque elas supostamente sejam “alienadas” ou “enganadas” – como algumas das mais radicais afirmariam -, mas é simplesmente porque a consciência política do sujeito não deriva da presença ou não de uma vagina. Tem uma construção social, que é lapidada mesmo, na crítica ao machismo, ao sexismo. Sendo uma formação, ela está disponível tanto para meninas quanto para meninos. Por que excluí-los, ou melhor, nos excluirmos disso?

    E outra que o feminismo traz subsídios para se pensar muita coisa, além dos temas clássicos como a representação política e a violência doméstica. Vamos discutir, por exemplo, criminalidade e desempenho escolar. Por que são os meninos que fracassam mais na escola? Por que são os homens que matam mais e que morrem mais? Por que, apesar dos privilégios, são os homens que tem uma expectativa de vida menor na sociedade? Será que não existe uma questão de gênero aí?

    Usando o exemplo do Rodolfo, da mulher que sente medo do homem na rua. Como o Matheus disse, tem uma coisa errada aí. E como mudaremos isso? Conscientizando a mulher e deixando de lado o homem? Se existe uma mulher que sofre perigo de estupro, existe um homem que oferece o perigo do estupro. E como mudar esse homem? Como alterar as relações de gênero? Ao contrário do que as feministas radicais defenderam – elas, que em grande parte prestaram um desserviço ao feminismo, e não sou eu que afirmo, são as próprias feministas – pintavam a sociedade como uma guerra de sexos. Não estamos diante de uma guerra de sexos!

    Eu não quero ser o homem opressor, o homem de privilégios. Quem vai ser capaz de me mudar enquanto homem senão o feminismo?

    Por ora, é isso.

    Obrigado pelo comentário de vocês dois!

    Estou adorando o debate! Parabéns pelo texto novamente, Matheus.

    Abraços!

  3. Pessoal, vou tentar ser mais sintético, por preguiça mesmo: Matheus você começou dizendo que a idéia não é ser reconhecido por coisas massas que tenha feito. Eu volto a dizer é sim, e é o mesmo caso do Bordieu: o bixo mega popularizou num livrinho bem fininho, barato, traduzido em várias linguas uma discussão bem massa de gênero e que introduziu a maioria de nós nesse debate. Nesse sentido um ótimo serviço ao feminismo; mas relembrando do esquema ‘plágio’ (pra ser sintético mesmo) foi um deserviço e não fez nada muito deifernte que a maioria dos machos escrotos: usar das mulheres.
    Isso só pra gente ter um reconhecimento dos egos mesmos: eu acho que tô mudando o mundo e quero ser reconhecido, oras (se ainda não faz sentido, favor colocar na cota do leoninismo sem fronteiras).
    Quanto ao “É aquela histórica cena de mulheres que se retiram do espaço público para que os homens possam conversar no seu “clube do bolinha”, só que ao contrário” Não, não é: Não existem machismo ao contrário, racismo ao contrário, heterofobia e todas essas ladainhas, é respeito: o feminismo que tenho lidado diz sobre as vivências pessoas e muito particulares das mulheres. Se em um espaço feminista (não estou falando de uma palestra ou de uma aula, estou falando de feminismo militante, que a gente faz sentado na rua, no parque comendo coisas e falando sobre nossas vidas – que é o feminismo que mais me atrai e me forma) e uma mina se diz incomodada coma presença de um homem (que sou eu) o minimo que posso fazer é me retirar.
    Adriano, respeito muito as pessoas acadêmicas e a formação que temos nos textos, mas a dissônancia entre o q eu tô falando e o que percebo que é o arguemento de vocês é que: o que eu uso para dar sentido as minhas práticas enquanto homem pró-feminista é a vivência de feminismo militante, e não os textos.
    Nesse sentido se um coletivo de mulheres feministas dizem para os homens pararem de se chamarem de feministas por sentirem que essa é uma apropriação indevida, a unica coisa que eu tenho a dizer é: “Beleza, você sugere algum nome melhor?” E o que geralmente vem é: “Diga-se pró-feminista, apoiador do feminismo, assim eu me sinto melhor”, e eu só posso e devo concordar.
    Por esse rótulo eu não sou legitimo de disputa.
    Sobre o feminismo radical é justamente esse que eu tenho contado, esse que boto fé, e muito me sinto feliz ao ouvir as frases de protestos das feministas que tanto gosto que insistem em dizer que são feministas radicais sim, e que o feminismo não veio para passar a mão na cabeça dos caras, nem estar a seu serviço, o feminismo veio para incomodar, só acho uma pena a gente ainda usar dessa forma de denuncia (que o movimento é radical por isso inválido ou que oferece deserviço), se é apenas o mais do mesmo.
    Desculpe o tom mais ácido dessa mensagem, mas é que isso diz muito sobre coisas muito importantes para mim, e por fim só tenho um único, singelo e rasteiro argumento: O movimento feminista é das mulheres, sobre as mulheres, se ELAS estão me dizendo para ‘calar a boca’ (em sentido metaforico) é pq faz sentido.
    Por fim, socializando um dos primeiros textos que tivemos no coletivo Meninos Discutem Gênero: http://gafeminista.blogspot.com.br/2009/06/cale-boca-ou-como-agir-melhor-em.html, e só p ressaltar que ficou esse nome meio abobado e meio obvio pq a gente optou por não se chamar de ‘meninos feministas’, e sim em caras que discutiam as relações de gênero, pq achamos muito pretencioso e soberbo a primeira opção.
    Enfim, eu vou me retirar da discussão e sei que este é chato, tosco e desleal, mas não me sinto bem, de verdade em continuar dando minha opinião sobre um movimento que me diz respeito (lógico, o feminismo está ai para revolucionar a todxs – esse não é impasse), mas que não cabe a mim dar suas diretrizes, linahs de frente ou opinião.
    Forte abraço!
    ps. não reli, deve tá cheio de erro.bjs

  4. ps.Sobre o “O movimento feminista é das mulheres, sobre as mulheres,” eu sei que o feminismo tem abraçado cada vez mais coisas: anti-capitalismo, anti-racismo, sexualidades, indetidades de gênero, anti-especifismo, liberdade de corpos e etc. mas aqui sim faço uma defesa da essência: se relativizar o feminismo a ponto de legitimar os caras as falarem sobre as mulheres ai só acho que a gente tá voltando a fazer tudo do jeito q sempre foi feito.

    • Ok, Rodolfo. Vou respeitar sua decisão de se retirar da discussão =)

      Acho que, no final das contas, esses debates só me fazem ter a certeza de que o “consenso” é uma utopia. E o melhor, na minha opinião, foi poder discutir com você de forma coerente. Você deve saber que não é todo dia que a gente pode ter uma chance dessas, rs. As pessoas às vezes são um pouco insensatas.

      Em resumo, eu queria deixar minha impressão de todo o debate: acho que toda a conversa só confirmou aquela noção de feminismoS, no plural. As abordagem e os argumentos são diferentes e cada um faz sentido no universo dos discursos e dos sujeitos que os proferem. E é bom conhecer outras ideias =)

      Abraços a tod@s!

  5. Matheus,

    Seu texto é ótimo e minha alegria foi poder identificar-me com ele do início ao fim. E qual não é minha surpresa quando você menciona as atividades do Transas do Corpo — participei, também, do curso de formação feminista, mas em sua segunda edição (recentemente finalizada). Em meio à multiplicidade típica que tais ajuntamentos constroem, tive dissabores em encontrar opiniões (minoritárias e adstritas a defensoras que se contariam nos dedos, reitero) profundamente hostis e essencialistas.
    Nosso primeiro encontro foi marcado pelo embate. E exatamente da manifestação desse pensamento em tantos latente exsurgiu a possibilidade de desmanchá-lo, destruí-lo. Saímos todas mais esclarecidas e com concepções verdadeiramente purificadas no fogo político da igualdade.
    Como movimento que luta pela efetivação da dignidade humana, o(s) feminismo(s) — é essa minha visão — não pode se dar ao luxo de negar coalizões, zonas de contato, aberturas. Não se trata de dominar um espaço “feminino” (tampouco o julgo possível), mas supor correta uma segregação estreme (aqui é lugar de mulher, lá é lugar de homem) é, também a meu ver, permitir grassar um pensamento pernicioso — a sugestão indireta de uma inversão de papéis que não rompe o frame que enquadra e alimenta a desigualdade.
    Do princípio ao fim, feminismo é-me uma metáfora de igualdade, metáfora mais refinada que os velhos jargões tão envergonhados pelo seu mau uso — “humanismo”, “liberalismo”, etc. Sua potência libertadora ainda parece, no mais, intacta. E a ela me apego.

    Em todo caso, volto a elogiar sua clarividência.

    Abraços,

    (ironicamente)
    Mateus.

  6. Excelente Texto! Chega a ser emocionante!

    Antes de tudo, devo me apresentar. Meu nome é Marcus Valerio XR, e embora já tenha me considerado feminista, uma série de situações e fatores, inclusive similares ao citado neste texto, me obrigaram a abandonar esse rótulo, embora eu continue me considerando feminista num sentido praticamente único, e quase totalmente avesso ao da maior parte dos feminismos em evidência na atualidade.

    Achei sua sensibilidade muito parecida com a que tive em http://blogueirasfeministas.com/2013/04/homens-pro-feministas-aliados-nao-protagonistas/ , onde discuti com o autor, outro homem, exatamente a problemática de excluir homens de espaços feministas que no entanto pretendem desconstruir gênero, o que, a meu ver, nada mais do que afirma e solidifica exatamente o que se pretendia desconstruir.

    Infelizmente quando a coisa ia esquentar, o autor fechou os comentários. Aliás detesto essa política do http://blogueirasfeministas.com de fechar o espaço de participação, como se não bastasse censurarem a maioria dos meus comentários, deixando apenas os elogiosos ou meramente técnicos. E garanto que jamais foram desrespeitosos ou agressivos.

    Enfim, quero acrescentar que descobri esse blog hoje, e estou realmente fascinado com a qualidade dos textos. Nunca tinha visto uma série de posts sobre gênero tão boa, definitivamente, o que já vi de melhor na web brasileira.

    Os 3 autores estão de parabéns.

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br

  7. Wescley disse:

    Tenho uma “amiga de facebook” que é totalmente contra o feminismo. E ainda apoia ideais fascistas. No começo combati suas ideias, mas deixei de lado, como causa perdida. Quanto ao texto, muito bem escrito, tenho simpatia pelo movimento feminista. Até então não tinha pensado nessa situação onde um defensor pudesse ser hostilizado por ser homem. É complicado.

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