Literatura (d)e autoria feminina: questões introdutórias

Existe uma escrita peculiar que jorra das mãos das mulheres que poderíamos chamar de “escrita feminina”? Como essa escrita seria uma essência se a própria Mulher é, desde o inicio, uma construção social?

Literatura, Literatura feminina, autoria feminina, escrita feminina – parece problemático oferecer uma reflexão satisfatória sobre esse universo complexo. Certa vez, alguém me disse que Eufrásia Meneses (2005) de Ronaldo Correia de Brito é um conto escrito por um homem, com alma de mulher, o que parecia ter deixado a pessoa bastante empertigada. “Eufrásia Meneses”, como já estudamos nesse blog, é uma narração profunda e silenciosa que não emerge em nenhum momento na “superfície” do texto (um ultra e conflituoso monólogo interior, se é que podemos dizer assim), da mulher que dá nome ao conto. Seu “silêncio” chega até nós, nos detém, nos “interrompe” sem que possamos nos desviar dele – e eu gostaria, depois de uma série de leituras (que justamente estou fazendo em razão de um trabalho sobre esse conto) entre Butler, Levinas, Althusser e Foucault, de comparar esse “silêncio” ao discurso – nos mostrando como o próprio silêncio da narradora está atado a violência de gênero, a violência que sofre por parte do marido. Bem, voltando à colocação da pessoa, parecia difícil para ela entender como um homem poderia escrever como uma mulher, principalmente nessas situações pela qual o conto pode ser analisado, já que ele se colocou numa posição de uma mulher vítima das relações assimétricas de gênero, e, de um modo geral, num lugar psíquico feminino, escrevendo, verdadeiramente e sem possíveis diferenciações, como uma “mulher”.

Claramente, essa pessoa – que inclusive é amante da Literatura e uma crítica literária – presume (ou, pelo menos, presumiu até então) que exista uma “forma feminina” de escrever, uma “escrita feminina”, e, de outro lado, uma “escrita masculina”, no entanto, essas diferenciações se tornaram um tanto quanto confusas, pois ao se deparar com o conto do autor, a relação ontológica entre mulher e “escrita feminina” se viram desestabilizadas. Mas, me interessa essa “desestabilização” para pensar a relação ontológica e para promover uma discussão introdutória sobre Literatura (d)e autoria feminina. Eu gostaria de começar por Monique Wittig e um de seus artigos – “El punto de vista: ¿universal o particular?” – presente no livro El pensamiento heterosexual y otros ensayos (2006), para quem não existe escrita feminina. Inicialmente, Wittig nos propõe uma reflexão sobre o que consiste o “feminino” da “escrita feminina”, como poderíamos pensar esta prática através da Mulher, o produto de uma Mulher. A autora nos diz que a “Mulher” não pode ser associada a um tipo de escrita, a escrita feminina, porque ela é, desde o início, uma produção imaginária/fictícia e não uma realidade concreta, uma construção. Assim, afirmar que existe uma forma característica da Mulher escrever significa naturalizar uma espécie de escrita – a escrita feminina = escrita da Mulher – tal como a própria “Mulher” é naturalizada desde sempre. Nas palavras da autora: uma metáfora que oculta e nos impede de questionar a dominação masculina, a ficção do gênero, designado uma espécie de produção biológica particular da Mulher.

A Literatura de autoria feminina é uma resistência a ordem pela qual a escrita literária ficou restrita aos homens, excluindo as mulheres do cânone tradicional. Os resultados no interior dessa ordem são a continuação da retificação do poder pela escrita, a luta contra ele e uma escrita rumo a identidade.

De outro lado, a professora brasileira, pós-doutura em Letras, Lúcia Osana Zolin e seu artigo Literatura de autoria feminina (2003) contribui para nossa discussão esclarecendo que o cânone tradicional brasileiro até 1970 (e isso não quer dizer que ele não seja mais assim) é de ordem masculinista, impossibilitando a mulher de escrever, de poder participar do cânone literário. Lembremos, como nos lembra a autora, que o cânone é uma instituição que determina a literatura representativa, a ordem inteligível da Literatura de uma cultura, região, país, e que numa cultura patriarcal, a literatura de autoria feminina não aparece, não se torna visível. Nesse contexto, Zolin nos mostra como o feminismo e a Crítica Feminista dão visibilidade à mulher, promovendo a historicização da produção literária de autoria feminina para resgatar e reinterpretar como essa produção é por si só uma resistência ao que fundamenta o espaço da escrita falocêntrica, desmascarando e desestabilizando paradigmas, além de ter garantido a mulher um status quo e, em decorrência disso, um revisionismo crítico da literatura de autoria feminina. Assim, a desconstrução da Literatura baseada na ideologia que regula o cânone é a desconstrução mesma da ideologia, pois a partir daí se puderam criticar as narrativas centradas na figura do homem e as personagens femininas submissas e dependentes.

Observem como a Literatura de autoria feminina não é aqui uma forma peculiar de escrita literária, uma escrita feminina que tanto captaria quanto facultaria a velha ontologia da Mulher, mas a produção literária de mulheres num contexto masculinista que resiste a ideologia reguladora, desconstruindo-a ou não, mas o simples (não tão simples) fato de uma mulher escrever nesse contexto quebra o paradigma de que a Literatura é um espaço masculino. Desse modo, uma escritora pode muito bem retificar a ideologia à qual o feminismo busca colocar em xeque e essa fase, segundo Zolin (2003), é a fase feminina (feminist), onde se internaliza e retifica os padrões vigentes; outra fase é a feminista (feminist), onde, ao contrário da primeira, se contesta na escrita os padrões vigentes e se defende os direitos e os valores da minoria e por fim, temos a fase fêmea/mulher (female), caracterizada pela autodescoberta e identidade própria.

Nessa altura, me parece que uma questão que poderia surgir, e principalmente se lemos Eu não sou feminista (?), de Matheus França, que é a questão de necessariamente a fase feminista e fêmea forem feitas exclusivamente por mulheres, em outras palavras, pode parecer que essas ações política de crítica ao sistema hierárquico de gênero, do qual as mulheres são inferiorizadas, e a política da identidade feminista obviamente (ou não) são ações que só o “nós” mulheres podem realizar, isto é, nada de homens. Mas, se voltarmos ao caso de “Eufrásia Meneses”, há um “eu” masculino por trás do ato que supostamente “narra como uma mulher”, que nos interrompe com o discurso de uma mulher oprimida pelo marido; eu diria que se a fase feminina não é feita exclusivamente por homens, mas também por mulheres que internalizam e retificam a norma pela escrita, então as outras fases de suma ação política também não feitas exclusivamente por mulheres. Não faz sentido definir essas ações como ações feitas por mulheres, nós teríamos aqui uma mesma ontologia tal como “escrita feminina”, teríamos uma “ação feminina” que tanto faculta a inteligibilidade da Mulher como a clientela biológica a executar a ação.

2 comentários
  1. Oi, Lucas!

    Muito bom o seu texto. De verdade! E obrigado pela menção ao meu post anterior =D

    Sua discussão aqui está muito ligada a um texto que pretendo postar aqui, mas que por enquanto está só desenhado na minha cabeça: a questão das composições no “feminino” do Chico Buarque. Mas ainda não sei se tenho cacife pra discutir isso, rs. Bem que a gente podia pensar em escrever algo nesse sentido juntos, que tal?

    Abraços e parabéns de novo pelo texto!

  2. olá, gostaria de chamar atenção a um trecho do teu texto que me parece contraditório. Você cita as fases por que passa a literatura de autoria feminina no Brasil, citando Zolin; “Desse modo, uma escritora pode muito bem retificar a ideologia à qual o feminismo busca colocar em xeque e essa fase, segundo Zolin (2003), é a fase feminina (feminist), onde se internaliza e retifica os padrões vigentes; outra fase é a feminista (feminist), onde, ao contrário da primeira, se contesta na escrita os padrões vigentes e se defende os direitos e os valores da minoria…”
    A palavra retificar tem o sentido de corrigir, certo? Se a fase feminina (na verdade, feminine!) retifica os padrões vigentes, como a fase feminista pode ser o contrário da primeira?

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