Crianças, o presente da nação

Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim. (SARAMAGO, José)

As campanhas eleitorais para presidência do Brasil, em 2010, destacavam três figuras: Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV), sendo que os dois primeiros foram para o segundo turno. Em propaganda eleitoral do candidato tucano, uma menina de uns seis anos de idade se aproxima do Serra e pergunta: “O que você vai fazer por nós?”, ao passo que ele responde, abraçando-a: “Por vocês, tudo, porque vocês são o futuro da nação”.

É fato que as crianças são, ao menos no discurso, educadas, cuidadas e protegidas para que o seu pleno desenvolvimento esteja garantido. A meta é principalmente produzir “bons” adultos, “bons” cidadãos. Confiamos nas crianças por acreditarmos que a nova geração, que virá purificada dos nossos erros e vícios, dará prosseguimento a um projeto de nação e de mundo ao qual não conseguimos concretizar. Os pequenos são a nossa redenção, em última análise. Não é à toa que as crianças são consideradas “o futuro da nação”.

Mas, espere lá, as crianças já não existem atualmente? Elas já não são, no seu próprio estado enquanto crianças, detentoras de direitos e passíveis de sofrer das mesmas mazelas que afligem as populações adultas: moradia inadequada, doenças infecciosas, ensino de baixa qualidade e subnutrição, para citar algumas?

Embora sejam tomadas como o “futuro da nação”, as crianças sempre existem porque a infância, enquanto uma categoria, é permanente. Seus direitos, aspirações e mazelas também.

Lembremos, como nos recorda Manuel Sarmento (2005), que a infância é uma categoria que independe de cada criança em si. As crianças nascem e, crescendo, passam para outras “fases” da vida: a juventude, a idade adulta e a velhice. Cada criança, individualmente, deixa de ser criança. Mas enquanto uns crescem, novas crianças vão surgindo, retroalimentando essa efêmera e ao mesmo tempo permanente geração.

Isso nos coloca a questão de que, independente do que fizermos com as crianças de uma determinada época, haverá sempre uma infância que, pensada na sua importância para o futuro, trará sempre sujeitos que vivem o presente.

Sem querer discordar do Serra – que no fundo só está reproduzindo uma ideia amplamente difundida – as crianças deveriam ser vistas antes na condição da infância que vivem na atualidade, do que no seu potencial para os adultos que serão. É necessário que haja espaços para elas e que as suas particularidades sejam respeitadas.

Com a desculpa de estarem sendo encaminhadas para uma “boa educação”, frequentemente as crianças devem ser calar diante de arbitrariedades feitas pelos adultos: são eles que detêm a autoridade sobre elas e, ao mesmo tempo, a autoridade de também legitimar o seu poder. Quem disse que os adultos sabem, mesmo, como educar uma criança, que estão de fato esclarecidos sobre o que é “melhor” para elas, que detêm experiência por já terem sido crianças?

Antes de serem o futuro, as crianças são o presente da nação. E é com essa atenção e cuidado que devemos olhar para as gerações que nos sucedem. Elas devem ter sua importância em si, para além de uma função dentro de um contrato entre gerações, o qual supostamente teríamos assinado; porém, como diz José Saramago em Ensaio sobre a lucidez (2004), um dia podemos nos questionar: quem assinou isso por mim?

3 comentários
  1. Oi Adriano, tudo bem?

    No livro de Hannah Arendt: Entre o passado e o futuro, a autora analisa a negação das crianças (imigrantes que vão para o EUA) de poderem atuar politicamente por serem inseridas em um mundo adultocêntrico.

    Ela cita que a condição humana tem como uma das suas finalidades: preparar uma geração nova para um mundo novo. O problema é que cabe a geração antiga, desempenhar essa importante função.

    Consequentemente, o mundo onde as crianças são introduzidas (estado de vir a ser) é um mundo velho, pois está em um constante devir, ou seja, é um lugar preexistente. Dessa forma para Arendt a educação desempenha um papel conservador, construído tanto pelos mortos (aqueles que passaram pelo mundo) quantos pelos vivos.

    Corroborando com o seu argumento, a educação tem que ser realizada pensando no futuro, mas através de sujeitos que vivenciam o presente. Não se deve privar as crianças e os jovens de buscar um futuro, mesmo que mantendo certas tradições ou o efetivo rompimento com elas, caso necessário.

    Dessa forma a educação é o ponto que decidimos se amamos o mundo para assumirmos responsabilidades (algo até um tanto sartriano) por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável caso não fosse à renovação de um mundo comum através da vinda dos novos jovens. Ou seja, parte aquilo que você cita na introdução desse artigo quanto à meta de produzir “bons” adultos, “bons” cidadãos, confiamos nas crianças por acreditarmos que a nova geração, que virá purificada dos nossos erros e vícios, dará prosseguimento a um projeto de nação e de mundo ao qual não conseguimos concretizar.

    Abraços.

    • Arrasou! Inã dando um show, ‘featuring’ Hannah Arendt, rs.

      Conheço superficialmente as ideias dessa grande pensadora. Por isso, aprendi bastante com esse seu texto. Eu até já tinha lido algo sobre ela dizer que a educação é eminentemente conservadora, mas você colocou tudo isso de uma forma bastante didática e instigante.

      Obrigado!

      Abraços!

  2. Valeu Adriano. O blog continua muito bom.

    Na medida do possível, vou tentar participar mais do blog.

    Abraços.

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