Uma problematização introdutória ao discurso cultural majoritário

Como preservar a cultura do Outro? Como resgatá-la? Como executar certos movimentos, se a apropriação, representação e captura do Outro é desde o início impossível?

Preservar a cultura de um povo. Resgatá-la. Tê-la as nossas mãos sempre que possível. Usá-la quando necessário em nome do “indestrutível”. Poderíamos catalogar todas as culturas da outridade e marchamos rumo à paz cultural. Mas, lembremos que Judith Butler (2011) nos disse que o humano não pode ser representado, porque na representação, algo do “humano” sempre é perdido pela captura da imagem. Logo, a representação é sempre a não representação, um tipo de contradição performativa da linguagem que nunca se realiza plenamente, porque há sempre uma zona inapropriada do humano. Paranoicamente, ocorre sempre uma perda na representação-apropriação do Outro que parece encaminhar alguns discursos culturais, como os que iniciamos aqui, para, dando um tom irônico ao texto, o “ralo da cozinha”: o Outro não pode ser apropriado, representado, preservado, assistido. Lembremos também que Avital Ronell, num momento de sua fala para o documentário Examined Life (2008), seguindo a Derrida, nos disse que no momento em que nos sentimentos seguros que conhecemos Outro, então estamos prontos para matá-lo; se realizamos um movimento político em razão do Outro e nos sentimos conscientemente bem com isso, então não somos seres responsáveis. O Outro excede tudo, o entendimento, a apropriação, a representação: o Outro diz a nós mesmos que somos tão Outro quanto ele.

Assim, não, não, não podemos (para usar a mesma gramática ontológica) preservar a cultura do Outro, tê-la intacta, catalogá-las. Gostaria de destacar Fragmentos do discurso cultural: por uma análise crítica do discurso sobre a cultura no Brasil (2007), Durval Muniz de Albuquerque Júnior como um trabalho provocativo nesse sentido da desconstrução dos discursos em torno da cultura. A começar pela noção de resgate, o autor nos esclarece que muitas pessoas tem se alimentado com a promessa de resgatar a cultura do Outro através do congelamento da cultura em si em meios digitais que perdurarão para sempre. As pessoas aqui, consideravelmente situadas – agentes da cultura, produtor cultural etc. – realizam essas novas formas de muscologizar e folclorizar as produções culturais populares e dos povos em geral, operando sob a lógica tradicional da “identidade”, pela qual, “eu”, como pertencente a um determinado grupo, sou idêntico a “tu”, também pertencente ao mesmo grupo e que nossas ações culturais se mantêm intactas no tempo.

A ideia de resgate”, escreve Albuquerque Jr. (2007, p. 15-16), “traz embutido o mito da pureza das origens, de um tempo onde o acontecimento era idêntico a si mesmo, em que o evento é semelhança absoluta, identidade consigo mesmo, quando isto não existe no campo cultural ou em qualquer aspecto das práticas humanas, onde qualquer evento, mesmo trazendo repetições, é marcado pela criação, pela invenção, pelo deslocamento de sentidos e significados”. Isso é a tradição, marcada por sua solidez, por seu estado original palpável, que depois, em algum momento, seria afetada por uma ação externa, como a globalização, e hoje recuperada por “nós”.

Para o professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior, o discurso cultural majoritário, sobretudo no Brasil, tem feito uso recorrente de conceitos que não parecem necessitar de explicação por tão óbvios e aceitos que são.

Como sugere o autor, não existe algo “tradicional” desde sempre e as tradições são sempre invenções humanas (históricas), naturalizadas, passíveis de modificação,até internas, sem que haja um monstro de fora para transformá-la, destruí-la. O que caracteriza a produção cultural, continua o autor na página 16, “sempre foi as misturas, os hibridismos, as mestiçagens, as dominações, as hegemonias, as trocas, as antropofagias, as relações enfim. O que chamamos de cultura […] é na verdade um conjunto múltiplo e multidirecional de fluxos de sentido, de matérias e formas de expressão que circulam permanentemente, que nunca respeitaram fronteiras, que sempre carregam em si a potência do diferente, do inventivo, da irrupção, do acasalamento”.

Nesse sentido, a preservação da cultura nunca acontece de fato, se entendemos “preservar” como congelar para sempre todo o conjunto de práticas coerentes que formam determinada cultura. Albuquerque Jr. (2007) nos esclarece que é na re-significação que os patrimônios sobrevivem, mas nunca no congelamento; observando que a preservação de um patrimônio histórico, baseado nessa velha ideia, acaba-se por perder, tornando-se uma ruína física, como no caso de uma estátua. Mas, quando algum objeto, prática, ato cultural é novamente investido de significados, ele torna a circular, difere-se, não se torna idêntico a si mesmo, perdura.

Para o autor, a lógica tradicional da identidade aqui faz presumir toda essa série de conceitos que são tomados como tão óbvios e aceitos, retomando a noções como origem, naturalidade das identidades, resgate e preservação cultural, mas que, no entanto, as identidades, e essa é uma perspectiva muito defendida nesse blog, não são originais, elas são sempre o resultado de fabricações sociais e históricas.

2 comentários
  1. Olá Lucas, acompanho os posts de vocês, são sempre muito bem elaborados.
    Me interesso pela Judith Butler, você sabe indicar onde consigo encontrar algo para baixar ou em PDF?

  2. Legal o post! Bem interessante essa sua abordagem sobre o discurso majoritário.

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