Desempenho brasileiro no PISA: como estamos indo e que lição tiramos?

Nesses tempos de avaliações educacionais em larga escala, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) tem ganhado destaque na imprensa e nas conversas entre educadores. Os discursos retratam sempre o pior cenário possível: que o Brasil figura, senão em último, nas piores posições internacionais e que a nossa educação é, perdoem-me a indiscrição, um lixo.

Na realidade, essa pintura catastrófica esconde um debate muito mais profícuo que poderíamos desenvolver se olhássemos para nada mais, nada menos, que os dados; ou melhor: os dados do próprio PISA. É para esse ponto que Sergei Soares e Paulo Nascimento (2012), pesquisadores do IPEA, estão olhando, trazendo-nos conclusões bastante valiosas.

Antes de avançar, é necessário contextualizarmos o PISA. Este exame, promovido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), é aplicado a cada três anos, tendo início em 2000. Atualmente, são cobrados conteúdos de leitura, matemática e ciências, obedecendo à Teoria de Resposta ao Item, desenhada para permitir comparações entre diferentes provas. O exame é aplicado a jovens com 15 anos já completos e que estejam frequentando pelo menos o 7º ano em uma instituição formal de ensino.

Desde a primeira aplicação, o Brasil participou. E desde então temos visto uma melhoria nas notas médias do nosso país. Dos 368 pontos obtidos no primeiro ano, passamos para 401 na quarta edição do programa, como podemos observar no gráfico abaixo.

Crescimento das médias brasileiras no PISA entre 2000 e 2009. (Fonte: OCDE, s.d., extraído de Soares & Nascimento, 2012)

O mais curioso é que esse crescimento foi acompanhado de um universo cada vez maior de jovens de 15 anos que prestaram o exame. Se em 2000 62% dos jovens nessa faixa etária estavam aptos a fazer o PISA, nove anos depois passamos para 79%. Isso nos mostra que qualidade não é necessariamente incompatível com quantidade. Mais jovens prestando o exame, o que inclui provavelmente uma maior diversidade, e mesmo assim nossas médias têm crescido.

[Temos que ser criteriosos, no entanto, pois os autores apontam que essa tendência não se repete com outros testes em larga escala, por motivos que não poderei desenvolver aqui.]

Ainda, é válido ressaltar que a progressão continuada – política tão criticada atualmente e vista como obstáculo à melhoria da educação – tem apresentado resultados positivos, ao menos no que diz respeito ao PISA. Explicando melhor: mesmo reduzindo a reprovação escolar (que é um dos aspectos dessa política, mas a que ela definitivamente não se resume), nossas médias têm crescido. Não é a reprovação, que fique claro, que garante um bom ensino ou um bom aprendizado.

E no conjunto dos países, como nós temos ido? Embora o PISA tenha sido aplicado na sua última edição a 66 nações, é melhor compararmos o Brasil apenas no conjunto dos 31 países que prestaram o exame desde o início (pois países mais recentes podem ter notas distorcidas por outras razões). No gráfico abaixo, podemos comparar nosso desempenho.

Notas médias das aplicações do PISA em 2000 e 2009. (Fonte: OCDE, s.d., extraído de Soares & Nascimento, 2012)

De fato, de 2000 para cá, ocupamos a posição de lanterninha, apesar de nossos avanços, que só não superam os passos dados por Luxemburgo. Praticamente metade dos países tiveram desempenhos inferiores ao inicial, enquanto a outra metade melhorou. Embora ainda estejamos atrás, é importante analisar os dados com seriedade e não com mania de catástrofe.

Acrescento, por final, que nossos avanços tem sido maiores em matemática. Não só as médias brasileiras têm crescido, como também as desigualdades entre os jovens de pior desempenho e os de melhor desempenho estão diminuindo. Nem preciso dizer que ainda há muito a ser feito, em especial nas áreas de leitura e ciências.

PISA, o exame promovida pela OCDE desde 2000 – e contando com a participação brasileira desde então.

Que lição fica de tudo isso? Em primeiro lugar, é importante colocar o PISA no seu devido lugar. Avaliações educacionais em larga escala até colocam um pé dentro da escola, mas que deve ser sempre problematizado. O que os dados do PISA nos informam sobre nossa realidade? Como melhorá-la? Quais são nossos problemas educacionais? Essas são respostas que um exame como esse não dá. Depende do esforço de nossos educadores, representantes, pesquisadores e formuladores de políticas educacionais.

Contudo, o que Soares e Nascimento (2012) fazem, ao analisar os resultados do PISA, é uma defesa apaixonada de uma educação que seja, ao mesmo tempo, de qualidade e acessível para todas/os. Qualidade não existe sem democracia. Educar, no contexto do ensino formal, significa que a totalidade de crianças e jovens esteja na escola e que estejam aprendendo, crescendo e se desenvolvendo. Uma noção de qualidade que é pensada para poucos é, no fundo, apenas mais um privilégio.

É por isso que devemos tomar os resultados do PISA como animadores: eles nos mostram que, caminhando em vista da maior inclusão de estudantes, acompanhada do fim de vícios intoxicantes como a cultura da reprovação escolar, podemos trazer ganhos significativos para a Educação do país. Isso depende de um esforço conjunto da sociedade brasileira, sendo o PISA apenas um indicador, mas não o nosso norte e nem a nossa meta.

5 comentários
    • Oi Claudia,

      Agradeço pelo toque, mas acho que há um equívoco. O gráfico que eu peguei foi extraído diretamente do artigo do Soares e Nascimento. E os dados que eles passaram eram até 2009, pois até o momento não se tinha os dados do PISA 2012. Então o estudo deles leva em conta a evolução nas médias brasileiras entre 2000 e 2009. O que você apontou mostra um declínio entre 2009 e 2012. Precisaria checar esses dados (obrigado pelo link), mas de toda a forma a discussão deles está baseada em uma melhoria que se vê na década passada e, portanto, as conclusões se mantêm. Valeria a pena, sim, refletir sobre um eventual declínio a partir de 2009, levando em conta o tamanho da amostra etc.

      Obrigado pelo comentário.

      Abraços

      • Cláudia,
        A média foi 401, a Leitura, um dos itens considerados, foi 412…
        Acredito que estamos comparando MÉDIAS…
        Um abraço

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