Sentido e ética numa caminhada com Avital Ronell

“Então, você pode me escutar bem?” — ela pergunta a Astra Taylor e num primeiro momento somos levados a acreditar que a dona dessa voz é quem dirige o documentário Examined Life. Avital Ronell surge diante de nós com seu “pensamento profundamente original e facilmente mediatizável […] seu look, a escolha de objetos incongruentes de reflexão, sua ligação com Derrida […] Heidegger”, bem como nos diz Jérémie Marjorel em Avital Ronell: french conexion (2011), um raríssimo artigo em português, traduzido por Elvio Cotrim, que nos faz uma apresentação do pensamento autêntico e instigante da autora.

Avital Ronell (1952 – ): pensadora instigante, para quem nós temos sidos alimentados pela gratificação do sentido e que, portanto, ele é algo que todos nós queremos. No entanto, para Ronell há algo da própria estrutura inapropriado, de onde temos que trabalhar muito.

A primeira coisa que eu penso ou que sou demandado a pensar quando escuto a voz de Ronell (sua fala e ideias) é a questão de como dirigir um texto acadêmico ou avaliar por quais meios nós obrigatoriamente dirigimos um texto acadêmico, em outras palavras, eu penso como o ócio de lidar com um objeto (e é claro, um objeto incongruente de reflexão) e a pessoalidade estão fora de cogitação da “escrita científica”, se é que podemos usar esse termo. Esse encaminhamento demandado por Ronell certamente tem a ver com uma caminhada: ela caminha e seu pensamento chega até “nós” de forma lenta e deslumbrante. Aliás, seguindo a Heidegger, Ronell nos diz que ele abandonou a filosofia para se dedicar a “pensar”, uma vez que a própria filosofia era muito institucional, ligada ao conhecimento e aos resultados. Para Heidegger nós estamos no caminho (methodos) e esse caminho não pode levar a parte alguma.

“Pensar”, estar no caminho, não chegar à parte alguma: o objetivo da filosofia é o sentido? Ronell nos ensina que para as pessoas é muito difícil deixar as coisas na estrutura tensional do aberto, do não sentido, isto porque nós sempre estamos à procura de um significante transcendental: Deus, a nação etc. Todos nós queremos algo como o sentido. Mas, Ronell nos chama a atenção para um grupo de cachorros brincando: por que reduzi-los ao sentido? Há uma erupção que emerge dessa brincadeira ou briga, seja lá o que for, que não pode ser compreendido ou explicado, apropriado pela nossa significação, porque, desde o início, essa erupção faz parte dessa contingência do ser. Mas, é claro, diante da busca incessante do sentido, deixar as coisas em aberto, admitir que nós não podemos apropriar do sentido das estruturas, que não a entendemos, é sempre menos satisfatório, mais frustrante e para a autora, mais necessário.

[||Pause||] Algumas pessoas poderiam perguntar se o não-sentido, isto é, o ato de admitir que há sempre algo radicalmente inapropriado na própria estrutura, não seria sempre uma forma de atribuir sentido mesmo a coisa-em-si. O mesmo ocorre quando dizemos que o gênero é uma construção e não uma essência, ouvimos alguém dizer que quando afirmamos que o gênero é do social, estamos, desde sempre, colocado uma nova essência. Também com Butler, ao lutar contra o argumento de que não “há”um “eu” por trás do ato, isto é contra a ontologia, mas ao dizer que “há” uma matriz de gênero, “há” um exterior constitutivo, ela acaba por usar a mesma gramática ontológica. Claramente, essas são contradições performativas da linguagem, mas que partem de um pós-estruturalismo, onde se parte da própria estrutura para renegá-la, ou ainda, como nos ensina Butler, usar da própria gramática ontológica para fazer circular outros discursos, abusar deles, uma espécie de “contra-discurso”, na teoria foucaultiana. [►Play►]

Cães brincando: por que reduzi-los ao sentido? Por que não supor que exista uma erupção que emerge dessa brincadeira que não pode ser compreendida ou explicada, apropriada pela nossa significação? Porque não compreendê-la, desde o início, como parte integrante da contingência do ser.

Astra pergunta a Ronell como nós podemos nos comportar eticamente se não há um sentido único. Para ela, o não-sentido nos demanda um trabalho (e, aliás, muito trabalho) mega-ético. Observem que é muito fácil viver pelo sentido do que pelo não-sentido, é muito mais fácil seguir um conjunto de regra (os 10 mandamentos de Deus, os mandamentos da Igreja, os mandamentos do Estado, os mandamentos da Escola), do estar num estado paranóico de não saber por onde se guiar. No final das contas, as regras nos garantem uma boa consciência, nos garantem que é assim que devemos agir e não de uma outra forma, dessa forma, nós nunca estamos paranóicos, ansiosos, esquizofrênicos (ou em estado piores do que esses). Para Ronell, a ansiedade é o estado da ética por excelência, é o não sentido que nos guia para a “ética além da ética”, para usar um termo encontrado em Derrida. E é retomando Derrida que Ronell nos esclarece que se nos sentimos honoráveis, com a consciência tranqüila (para usar seu exemplo: “oh, dei cinco dólares a esse indigente, sou genial, sou bom, sou responsável” por nossas ações, então não somos seres tão éticos.

Para Derrida, o ser responsável é aquele que sabe que nunca é suficientemente responsável, que nunca está muito preocupado com o Outro. Porque o Outro, como nos diz Ronell, sobrepassa tanto que não pode ser capturado, entendido ou reduzido, nesse sentido, se não há um sentido último, mantemos uma relação sem relação, que, por sua vez, é o relacionamento ético, já que no momento em que se presume conhecer o Outro ou captar o Outro, estamos pronto para matá-lo. Assim, não podemos compreender essa alteridade, não podemos violar o Outro com nosso sentido do entendimento porque somos tão Outro quanto ele: temos de deixá-lo viver.

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