Primeiras reflexões: gênero, a tecnologia

Testo Yonqui (2008), capítulo 6, Tecnogénero: esquizofrenia, esquizofrenia. Beatriz Preciado nos oferece um maço mortífero, alucinógeno, de mega-teoria: tráfico esquizofrênico. Paranoicamente, cada capítulo são como pacotes pequenos, paquetes, como se diz em espanhol, de substâncias alucinógenas para além delas mesmas: nós sentimos, no final das contas, nos aplicando testosterona, como ela faz durante seu livro, “saindo pela cidade” mais forte. Mas, também se auto-administra, se coloca em xeque suas próprias teorias, aqueles lugares ocupados: essas substâncias despertam a esquizofrenia, a paranóia, a ansiedade, surtos psicóticos e tudo o que pode existir nesse sentido. É claro, só a esquizonálise deleuziana pode dar conta desse trabalho duro sobre o não-sentido, sobre aquelas zonas inapropriadas, como nos diz a concepção ronelliana, se é que podemos usar esse termo para referir as ideias de Avital Ronell. As observações que se seguem são frutos desse desequilíbrio, observações sobre os efeitos das substâncias abstratas entre as páginas 81 a 98 e, aliás, todos nós deveríamos nos perguntar, ou não sei se essa é uma pergunta do esquizofrênico, se os princípios alucinógenos das drogas não são paródias mal sucedidas do principio mega-terrorífico da Teoria. Em todo caso, as auto-administrações (que podem soar como voluntárias) abstratas da teoria colocam que a teoria é tudo, que o movimento do auto-administração excede o corpo, qualquer droga material: é necessário um Corpo sem Órgãos (CsO), um corpo paranóico, esquizo, drogado e masoquista¹.

#1: A categoria do gênero <gender> não pertence à agenda feminista, mas ao discurso biotecnológico do final dos anos quarenta, ela é filha da segunda Guerra Mundial. Susto, surto, deslocamento: que tipo de feminista eu sou? Esquizofrenia… Eu li a historicização de Scott, eu li Wittig para quem a agenda feminista faz o uso de gênero como categoria política… essa tragada bagunçou tudo! Eu tentarei me recuperar: O gênero é inventado na Segunda Guerra Mundial e comercializando durante a guerra fria, assim como a comida enlatada, a televisão, o cartão de crédito – o gênero também é uma dessas invenções, uma invenção high tech que se comercializa como comida gelada, ele entra pela boca, sale por el culo: o gênero funciona a toda momento, sem parar, ele respira, ele aquece, ele come, ele caga, ele fode². O gênero é uma tecnologia, uma das novas dinâmicas do tecnocapitalismo avançado: o gênero é tecnogênero. O gênero é tecnogênero… sim, claro, imaginem o Sr. John Money vomitando a noção de gênero em 1947 e desenvolvendo seus métodos com a plasticidade tecnológica da masculinidade e da feminilidade, fazendo uso dessa tecnologia variável (ao contrário do sexo), fácil de ser transferida, imitada, (re)produzida facilmente.

#2: Feminismo dos anos 70: o gênero é uma construção, o sexo é base material sob a qual ocorre essa construção. Natureza/cultura, sexo/gênero: ruínas circulares das políticas de gênero. Primeira ruína: o sexo é um dado imutável, uma base material, biológica, não uma construção. Segunda ruína: o gênero designa especialmente a diferença sócio-cultural e política das mulheres em uma sociedade e num momento históricos determinado. Callejón sin salida: essencialismo/construtivismo.

#3: De Lauretis lança uma chuva dourada sobre nós. Primeira esguichada: O sujeito “mulheres” do feminismo é engessado, a neutralidade e universalidade do termo “mulher” tanto produz quanto normaliza aquela clientela sob esse signo, ocultando tantas outras subjetividades, não coincidindo de fato com “as mulheres”. Para a autora, a teoria feminista tem de colocar em questão seus próprios termos e fundamentos. Segunda esguichada (mais forte, mais quente): Há que substituir “mulheres” por “gênero” e “opressão” por “tecnologias” − tecnologias de gênero. As tecnologias de gênero produzem sujeitos de enunciação e de ação, o cinema, por exemplo, é uma máquina de representação somática e o gênero é o efeito justamente de um sistema de significação, dos modos de produção e descodificação dos signos visuais regulados.

#4: O gênero só pode ser compreendido como aquilo que inaugura a emergência do novo regime fármaco|pornô|gráfico da sexualidade: ele não emerge no discurso político do feminismo, mas nos laboratórios do farmacopornismo, já que seu negócio são as tecnologias de produção de ficções somáticas, entre elas o gênero, a sexualidade e a raça. O Sr. Harry Benjamin, em plena guerra fria, aplica testosterona e estrógenos em um paciente que não se sentia sintonizado com seu gênero, nova dicotomia: bio/trans. Bio-homem/bio-mulher: pessoas que estão em sintonia com o sexo com foram designadas no nascimento, trans-homem/trans-mulher: aqueles que contestam essa designação. Essas cirurgias são procedimentos técnicos, protéticos, que dependem do reconhecimento visual, da produção performativa e do controle morfológico.

#5: Gênero é, portanto o que nos permite entender a aparição e desenvolvimento de uma série de técnicas farmacopornográficas de normalização e transformação do ser vivo, sendo necessário, em termos ontopolíticos, compreendê-lo como tecnogênero, isto é, como um conjunto de técnicas fotográficas, biotecnológicas, cirúrgicas, farmacológicas, cinematográficas ou cibernéticas que constituem performativamente a materialidade dos sexos. Assim, o regime farmacopornográfico não funciona sem um tráfico constante de biocódigos de gênero: fluxos de hormônios, silicone, digitais, textuais e representação, onde a normalização e a diferença dependem do controle, da re-apropriação e dos usos desses fluxos.

[Continua…]


¹ Para o Corpo sem Órgãos, ver Deleuze & Guattari (1996).

² “Isto funciona por toda a parte: umas vezes sem parar, outras descontinuamente. Isto respira, isto aquece, isto come. Isto caga, isto fode” (DELEUZE; GUATTARI, 1972, p. 7).

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