O sexo e o gênero nos cursos de graduação

É notável a diferença de gênero existente entre os cursos de graduação, a qual se expressa tanto pelas desiguais proporções entre jovens do sexo feminino e masculino, quanto pelos símbolos que permeiam o exercício de cada tipo de profissão. Sabe-se que os cursos “de exatas” (matemática, física, engenharia etc) contam com presença masculina bastante expressiva, ao passo que cursos ligados à saúde (fisioterapia, terapia ocupacional etc) e a pedagogia são bastante feminilizados.

Além dessa constatação, é importante adentrar no cotidiano dos/as jovens que estudam em cursos como esses, a fim de entender como se dá o padrão descrito acima. É o caso do estudo de Maria Clara Lopes Saboya (2012), interessada na análise da inserção e vivência cotidiana das mulheres em cursos “de exatas” (no caso, engenharia elétrica e ciência da computação) de uma faculdade particular de São Paulo.

Mulher no ensino superior: obstáculos e dificuldades para se afirmar em carreiras “masculinas” – sem esquecer de um recorte racial que carateriza a Educação brasileira.

Compreender por que tão poucas mulheres adentram nesses cursos nos ajuda a entender as relações de gênero em seu sentido mais amplo. Aspectos como a discriminação de cunho sexista e o assédio sexual são recorrentes. Em salas preenchidas por garotos, muitas meninas são obrigadas a suportar assovios e cantadas quanto se levantam para ir ao banheiro, por exemplo.

No entanto, não são apenas os alunos que praticam tais atos – antes fosse! Infelizmente, o sexismo está institucionalizado, manifestado por atitudes discriminatórias por parte dos próprios docentes: ora acontecem situações onde o professor simplesmente ignora ou desvaloriza o conhecimento produzido por uma aluna, ora o professor questiona a capacidade dessas alunas de alcançarem as mesmas metas de aprendizagem que os alunos.

Isso decorre da permanente associação entre as competências exigidas em tais cursos e atributos supostamente masculinos: facilidade com cálculo, gosto pela matemática, noção espacial, raciocínio lógico. Tal axioma é sustentado, além do senso comum, pela própria ciência (representada aqui pela neurociência) que reafirma categoricamente as diferenças nos cérebros de mulheres e homens, em especial no corpo caloso e nos hemisférios cerebrais.

Digo, sem peso nenhum, que esse conhecimento “científico” é pura especulação. E das mais perigosas.

Determinadas habilidades são estimuladas ou esperadas para cada curso. Para todas elas, existem etiquetas de masculino ou feminino: o gênero marca os cursos e os próprios sujeitos.

Diferenças psicocognitivas entre homens e mulheres, inclusive nas suas preferências e capacidades, talvez até existam e possam ser mensuradas. Mas, em caso positivo, seriam muito mais consequência de um aprendizado que é psicossocial: meninas e meninos estão expostos/as, desde cedo, a distintos estímulos. Expectativas, incentivos, brinquedos, práticas – das mais sutis, inclusive – são construídas diferentemente sobre crianças e jovens em função de seu sexo, idade, origem, cor/raça etc. Caso contrário, não existiriam tantas exceções à regra. Embora exista a regra, e é aí que está o problema.

Neste sentido, é até esperado que meninos e meninas se interessem distintamente por determinados cursos de graduação: essas tendências se explicam por processos de identificação que aproximam ou distanciam os/as jovens dos perfis de masculinidades e feminilidades que se apresentam em cada curso. Habilidades como o cálculo, as relações afetivas e o “cuidado” mobilizam variados sentidos de gênero, seja nos cursos, seja nos próprios sujeitos.

Afirmar que mulheres são maioria nos cursos da área de saúde por uma simples questão de “preferência” ou de “vocação” é ignorar o que estaria levando a essa suposta preferência ou vocação. Não seriam as relações de gênero – desiguais por excelência – que rondam tais escolhas? Lembremos-nos que as disparidades de poder caracterizem esses processos (comparem a valorização profissional de uma enfermeira com a de um neurocirurgião), tal como discuti em outro texto.

Antes de ficarmos meramente contemplando uma distinção tão expressiva quanto a presença masculina e feminina no quadro de cursos de graduação brasileiros, nosso foco deve ser bem amplo: olhar para a educação (na escola, família e sociedade de modo geral) das crianças/jovens desde o início, entendendo a trajetória escolar de meninas e meninos ainda na Educação Básica, analisando os obstáculos e/ou incentivos durante a graduação e compreendendo como tais processos reverberam no mercado de trabalho. É esse contexto que nos permitirá entender o sexo e o gênero das escolhas acadêmicas e profissionais.

6 comentários
  1. sem falar nos professores que assediam alunas. e isso acontece independente da area.

    • Sem dúvida, Daniela.

      O que aponta para o problema da violência sexual que é tão difundido na sociedade. Neste texto, porém, tentei chamar a atenção para os cursos que são marcadamente feminilizados ou masculinizados. No caso das exatas, por exemplo, além das mulheres estarem mais sujeitas a esse tipo de violência, elas supostamente não deveriam estar fazendo tais cursos, pois até sua competência é posta em xeque.

      Obrigado pelo seu comentário,

      Abraços!

  2. Diego C disse:

    Meu Deus, é um gênio da neurociência! Quer dizer que não existem diferenças entre o cérebro de homens e mulheres? É tudo “especulação”? Inovador, Nobel da medicina pra você.

    • Oi Diego,
      Se você ler o parágrafo seguinte ao que eu falo da especulação, verá que eu mesmo faço ressalvas ao comentário. Porém, te desafio a encontrar estudos sérios que “atestem” diferenças. E mesmo que o façam, há críticas a serem feitas – uma delas eu mencionei no texto, de que o aprendizado modifica nosso cérebro. Autoras como Anne Fausto-Sterling têm feito estudos sérios sobre o assunto, mostrando o quanto que há de arbitrário nas conclusões da neurociência. E Raewyn Connell, na obra “Gender”, mostra que não há consenso quanto às diferenças encontradas na psicologia. Este é um campo bastante discutido.
      E já que mencionou o Nobel, talvez valha a pena retomar a injustiça contra Rosalind Franklin, que pioneiramente descreveu a dupla hélice de DNA e ficou de fora do Nobel, que laureou Watson, Crick e mais um cientista. Assim é fácil dizer que mulheres não têm aptidão à ciência em virtude de seu cérebro, não? Quer me mostrar que existem talvez diferenças? Então primeiro vamos nos esforçar para acabar com as desigualdades sociais. Se, mesmo assim, as tais diferenças forem provadas, aí eu posso voltar atrás. Enquanto isso, insisto que não há esforços efetivos para reduzir desigualdades porque a ideologia das “diferenças” é embasada pela própria ciência.
      Abraços!

      • Diego C disse:

        Ah tá, então homens e mulheres só são diferentes por razões culturais? Basta que atenuemos as “desigualdades sociais” para que as diferenças entre eles e elas desapareçam?
        Bem, então eu sugiro que você proponha um novo modelo de evolução em que os cérebros de machos e fêmeas não são moldados e selecionados de acordo com as funções que cada um destes grupos exerce. Seria um colosso: seleção natural abre exceção e segue o gender equality no caso da espécie Homo sapiens.

        Não se trata de “ideologia das diferenças”, uma vez que ideologia é um conjunto de ideias. Eu não estou falando de ideias, mas de fatos. É uma obviedade escandalosa: homens SÃO diferentes de mulheres. Em muitos e muitos aspectos. Inclusive nas habilidades, ora essa. Em todas as espécies é assim: machos têm uma função diferente da fêmea. Logo, o organismo dos dois é diferente e selecionado para cada uma destas funções. Por que com o homem seria diferente? Justificar essas diferenças apenas por estímulos sociais é se propor a refundar a biologia evolutiva.

        Taí mais uma chance pra Nobel, aproveita.

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