“E dá-lhe ritalina!”: sobre a medicalização da infância

As escolas públicas brasileiras convivem com o chamado “fracasso escolar” (problemas de aprendizado, analfabetismo, indisciplina etc) desde a sua origem. Não é à toa que a Educação é um tradicional foco de atenção de pesquisas da sociologia, psicologia e outras disciplinas, e não só no Brasil. A questão é a que se atribuem os obstáculos na escolarização (ANGELLUCCI et al, 2004). Uma das vertentes atribui às próprias crianças, em função de supostos transtornos de aprendizagem, a grande causa do problema.

O medicamento Ritalina, nome comercial da droga metilfenidato, tem ganhado as prateleiras de muitas escolas públicas. Em 2009, foram 2 milhões de caixas distribuídas pelas escolas às crianças diagnosticadas como portadoras de TDAH.

Não é de hoje que a medicalização da infância existe. Foi nos últimos anos, entretanto, que esse problema alcançou patamares insustentáveis. Hoje, o Brasil é o segundo maior consumidor mundial dos psicotrópicos chamados metilfenidatos (conhecidos como “Conserta” ou “Ritalina”), prescritos para as crianças diagnosticadas como portadoras do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). De 71 mil caixas desse medicamento distribuídas pelas escolas em 2000, passamos para 2 milhões em 2009, segundo dados da Carta Capital na matéria A droga da obediência.

Para compreender esse fenômeno, é necessário olharmos brevemente para o processo de medicalização da infância e essa tendência, bastante atualizada, de patologizar as dificuldades durante o processo de escolarização. Tal como temos discutido reiteradamente neste blog, padrões “desviantes”, que questionam condutas hegemônicas ou normalizadas, seja lá em que âmbito, são usualmente transformados em doença. Foi assim com a homossexualidade, com os casamentos inter-raciais, com as feministas, e está sendo assim com as crianças “que não aprendem”. Com apenas um diferencial: não aprender é quase uma regra.

Na psicologia, desde Alfred Binet com suas “escalas de inteligência” até Lourenço Filho defendendo a ideia de que a psicomotricidade antecede o desenvolvimento da inteligência, passando pela psicanálise e os “problemas emocionais” derivados das relações familiares, sobretudo nas famílias ditas “desestruturadas”, sempre existiu um arsenal de patologização. O destino da criança ora estava selado, por questões naturais, ora era justificado em relações lineares de causa-efeito, no qual fenômenos complexos eram reduzidos a poucas asserções.

A pediatra Maria Aparecida Moysés: diagnosticar crianças como vítimas de “transtornos de aprendizagem”, da forma indiscriminada como tem sido feita, é um modo de desviar o foco do contexto social e político que produz as dificuldades na escolarização.

É o caso do diagnóstico crescente de crianças portadoras de TDAH e até mesmo de dislexia. A pediatra Maria Aparecida Moysés, crítica ferrenha à tal medicalização, afirma que patologizar a criança é um modo de desviar o foco do problema: desconsidera-se a situação e o contexto no qual os problemas de aprendizagens são desenvolvidos. Em outras palavras, dão-se uns remédios para as crianças de modo a compensar uma escola que lhe é entregue aos cacos, tentando forçar as crianças a se adaptarem a uma realidade que, esta sim, é doente.

Neste sentido, a psicóloga Jane Cotrim, em palestra proferida na UFMT em novembro deste ano, defende que esse fenômeno de medicalização nada mais é do que um ocultamento político, ao se transformar discussões políticas e sociais em biológicas.

Se a criança possui “déficit de atenção”, em primeiro lugar deveríamos nos perguntar em que condições esse “déficit” se manifesta. Falta-lhe atenção no quê? Talvez a criança não atente mesmo a uma aula ou a uma escola que se apresenta a ela, da hora de entrada à hora de saída, como desestimulante. Lembrando que atenção à aula e às atividades e responsabilidade para com os deveres e obrigações, isto é, cumprir o “papel de aluno” que a escola espera de cada criança, também é uma etapa a ser aprendida. Esse processo deve ocorrer dentro da escola, na própria escolarização da criança, e não por meio da receita de um medicamento tarja preta.

Não se fazem transformações sociais e políticas com o uso de emplastos. Reconhecer isso é o primeiro passo para mudar atitudes em prol de uma escola – e de uma sociedade de modo geral – mais humana, mais gente, mais criança e, portanto, menos doente.

12 comentários
  1. Ivan Monticelli disse:

    Lamentável que existam organizações e profissionais de saúde que divulgam, mitos inverdades e desinformação psicofóbica. Não aceitar a existência do TDAH que é reconhecido no mundo inteiro e mesmo no Brasil pela Anvisa. Doença grave que infelicita milhões de pessoas no mundo inteiro, inclusive em países ditos “evoluídos” e ditos pobres sem acesso a escola e meios de comunicação. Mantendo a triste média de 3 a 5% das crianças e passando aos adultos em 50% dos casos Façam as contas e vejam quantos milhões de brasileiros estão sem diagnóstico ou sub diagnosticados. Estes articulistas opinam sem conhecimento, não tendo sequer uma publicação aceita pela comunidade internacional.

    • Ivan Monticelli,

      Não tenho publicação no assunto mesmo, mas escrevo com base em artigos de pessoas respestáveis no assunto, como a profa. pediatra Maria Aparecida Moysés. Logo, o meu texto possui fundamento, sim. Você pode discordar e isso é seu direito. Mas dizer que é puro “achismo” não se aplica. Existe toda uma luta, seja de pesquisadores, de educadores e mesmo de órgãos públicos (secretarias de educação, conselhos de pediatria) reivindicando o fim da medicalização indiscriminada das crianças.

      Ninguém está dizendo que os transtornos de aprendizagem não existem. Acho ótimo que eles sejam reconhecidos no Brasil e pela Anvisa, isso mostra que existe um esforço para, ao menos, tratar tais transtornos de forma séria e científica. O que não vem sendo o caso. Repare que na sua fala você escreve muito bem qual é a prevalência da doença na população adulta ou infantil, mas em nenhum momento dá brecha para se discutir por que as pessoas são disgnosticadas com TDAH, por exemplo.

      Seria meramente uma questão orgânica, biológica, à parte das condições de vida e do contexto do sujeito? Duvido. É sabido que o estilo de vida das cidades, por exemplo, tem levado a maiores incidências de ansiedade, nervosismo, depressão. Antes de patologizar as pessoas, deveríamos patologizar aspectos da vida social urbana e contemporânea que nos fazem ansiosos, depressivos, nervosos. Por que muitos professores adoecem? Por que muitos profissionais liberais vivem à beira de um ataque de nervos? Qualidade de vida pode ser medida simplesmente pelo grau de saúde atingida com ajuda de medicamentos?

      Meu olhar é para o social, e não para o indivíduo, e por isso mantenho a opinião defendida no texto.

      Agradeço pelo comentário.

      Abraços!

  2. Estou com o Ivan! É impressionante o desrespeito que alguns pseudointelectuais querem tratar de um assunto que não conhecem. Seria interessante se colocassem sobre o preconceito que existe a respeito de vários transtornos como TOD, DDA, TDAH,.. e antes de qualquer suposta informação, pergunte a um desses portadores o que é a RITALINA e qual a transformação que um simples medicamento fez à sua qualidade de vida. O tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção (com ou sem) Hiperatividade quem determina é o PACIENTE!!! Não será um psicólogo que colocará o melhor tratamento, nem um psiquiatra ou neurologista. Cada portador tratará de reconhecer e identificar o seu MELHOR! PAREM DE INVERDADES, PAREM DE GERAR PRECONCEITO!!!

    • Mirelly Lisbôa,

      É evidente que é o paciente que, em última análise, optará pelo tratamento ou não, pesando os efeitos que um medicamento tarja preta o trará com relação aos sintomas do seu transtorno (ou do seu suposto transtorno, diga-se de passagem). Mas estamos falando de um diagnóstico indiscriminado e irresponsável sobre crianças! Crianças de 6, 7, 8 anos, que tem dificuldade para aprender (ou seria a escola que tem dificuldade em ensinar?), estão sendo medicalizadas com a ritalina. Qual é a escolha que essas crianças têm? As famílias sabem o que é melhor para elas? Os médicos sabem o que é melhor para as crianças e para as famílias? Se considerarmos a influência das condições de vida e do contexto social, a situação se complexifica bastante, não?

      Não interessa a “mudança que ela traria na vida das pessoas”. Seria uma baita mudança também se as crianças fossem alocadas em salas de aulas com boa infraestrutura, em turmas menores, com professores bem remunerados e satisfeitos com a sua carreira e condições de trabalho. Certamente isso criaria um ambiente de aprendizagem que provavelmente dispensaria a ritalina. Se, mesmo assim, houver crianças com “transtorno de aprendizagem”, que essas sejam tratadas, com acompanhamento psicológico, psicopedagógico e eventualmente a dosagem de remédios. Não recuso essa possibilidade. A questão, denunciada por órgãos públicos, educadores e pesquisadores, é que a ritalina está tomando a linha de frente, substituindo um debate mais profundo sobre as causas das dificuldades de aprendizagem em determinados contextos.

      Agradeço pelo comentário,

      Abraços!

  3. Munhoz disse:

    Olá, Adriano. Vejo que seu texto causou rebuliço. O que é muito comum, já que boa parte dos cientistas “naturais e exatos” se colocam numa condição de superioridade às áreas de humanidades e ciências sociais, que questionam alguns fundamentos que não tem nada de “naturais”. Concordo com boa parte do seu texto e com algum conhecimento de causa, já que escrevi um artigo sobre a medicalização do ensino no qual faço uma revisão de bibliográfica e mapeio o contexto histórico de eclosão e de atualidade. Para minha surpresa, grande parte das minhas fontes de discussão eram médicos, psicólogos e pedagogos. Um ou dois textos eram da Moysés, que já sofreu represália na comunidade cientifica por trazer o tema ao debate numa perspectiva social e problematizadora. Como você bem salientou, a questão não é defender a inexistência de distúrbios como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, a dislexia, a dislelia, porém questionar a imensidade de diagnósticos feitos de uma hora para outra que se enquadram nesse conjunto de doenças que, por acaso, está gerando milhões para a indústria farmacêutica e para as clínicas de tratamento – olha a caixa de marimbondos que estamos mexendo quando tocamos no tópico. Nos documentos pesquisados não era o paciente que fazia o diagnóstico, às vezes eram os próprios professores que acusavam o menino de (até) seis/sete anos de indisciplina causada por problemas psicológicos. Veja que absurdo! Outra coisa interessante de perceber é que a culpa da indisciplina e do atraso escolar sempre caia na vítima; nunca na Escola, no professor, no currículo, no sistema de ensino. Por que será? Vai ver é porque está tudo perfeito e somos cegos de não enxergar. Ironias a parte, parabéns pelo texto corajoso!

    Há braços!

    • Munhoz, obrigado pelas contribuições!

      Bom saber que você, que certamente entende mais do assunto que eu, aprovou o texto, rs. Não sabia que a Cida Moysés tinha sofrido represálias. É, de fato, as ciências naturais/biológicas tendem a se considerar mais “ciência” que as socias/humanas. Sou da área de biológicas e lá nós ostentávamos esse estatuto de Ciência. Talvez em decorrência, nunca fazíamos um debate muito politizado sobre o que está por trás da ciência ou sobre seus efeitos.

      Agradeço pelo comentário!

      Há (outros) braços!

  4. Caro Adriano,

    Quando analisamos a quantidade de diagnósticos, principalmente nos últimos anos, de pessoas portadoras do TDAH/DDA, é realmente preocupante a situação. Isso porque o diagnóstico é estritamente clínico, e assim sendo, qualquer pessoa pode chegar a um Psiquiatra ou Neurologista relatando sintomas próprios deste distúrbio quando na verdade o intuito é outro. Há pessoas que fazem uso da Ritalina por ela ser um estimulante, ativador de dopamina, neurotransmissor indispensável quando falamos de atenção e motivação.

    O problema é que o distúrbio existe, e muita gente está sem diagnóstico ou não o aceita por conta dessas discussões acerca da necessidade ou não da medicação. Para ilustrar melhor, há alguns anos, quando a depressão não era reconhecida pela sociedade médica como doença, muitos a encaravam como “frescura”, devido a falta de informação e consequentemente a resistência a medicação e veja quantas pessoas morreram (principalmente os portadores de transtorno bipolar), em virtude dessa crença!

    Falo isso porque além de portadora da síndrome, sou estudante de Neurociências e afirmo que para os verdadeiros portadores, nenhuma sala de aula confortável, professor bem treinado e Terapia Cognitivo Comportamental é suficiente para combater este mal. São apenas ferramentas de apoio, mas nem de perto combatem o desequilíbrio químico apresentado.

    Assim, embora acreditando que há um forte problema social, não enxergado por nossas autoridades no que tange a adequação do ambiente educacional a condições dignas de aprendizagem, cumulado com outros fatores (familiares/sociais), acredito que as discussões devem ser abalizadas, sopesadas, pois os leitores alvo são também o objeto do imbróglio e, caso o uso da medicação passe a ser encarada como desnecessários por pessoas que deveriam fazer uso dela, teremos sérios problemas sociais, quiçá irreparáveis!

    Abraços!!!

    • Oi Ana Paula,

      Agradeço muitíssimo pelo seu comentário, bastante ponderado, por sinal. Creio que o seu argumento reforça o que venho falando nessa discussão: os distúrbios existem e afetam, sim, muitas pessoas. Nunca me propus a negar a existência dessas doenças. Mas, como você mesmo disse, “para os verdadeiros portadores”… É aqui que entra a questão. As milhares de crianças que receberam as 2 milhões de caixas de ritalina pela escola eram “verdadeiras portadoras”? A síndrome pode ser precisamente diagnosticada? O que se leva em conta? Que déficit de atenção a criança supostamente tem?

      Essas questões são essenciais para desvelarmos ou não a arbitrariedade médica. A medicina, assim como qualquer ciência, não é uma forma neutra de produção de conhecimento objetivo, sério e a serviço da sociedade. A ciência também reproduz pressupostos e preconceitos, haja vista que a homossexualidade foi por séculos entendida como uma doença, simplesmente porque a medicina não aceitava (e não só a medicina, evidentemente) que duas pessoas do mesmo sexo pudessem se amar, ter atração entre si etc.

      Agora, estou de acordo com você que o caminho não é negar a medicina. A meu ver, deve ser feita uma leitura crítica dela, quando as prescrições médicas forem devidamente fundamentadas. É um direito de todos os cidadãos entender o porquê de tomar tal remédio. Com as crianças, o que tem ocorrido é o oposto. E isso não sou eu que digo, são movimentos e pressões vindas pelos próprios psicólogos.

      Abraços!

  5. Reneyla disse:

    Adriano
    olha que absurdo .o meu filho sofre a anos com dificuldade de comportamento e a 2 anos faz o uso de ritalina e na escola q ele esta atualmente ele e o primeiro aluno com tdah e tdo.e quando os pais de crianças que dào problemas na ecola e tem dificuldade de aprender eles nao fizeram a rematricula deles e deram um papel com o nome do medico
    ,endereço e telefpone e falaram que primeiro e pra levarem la e depois vao ver se eles .permaneceram na escola.achei um absurdo

    • Pois é, Reneyla, esses absurdos acontecem. Por essas e outras que existem movimentos até de psicólogos pela desmedicalização da infância. Não é para fingir que tais distúrbios não existam, mas coibir os excessos.
      Obrigado pelo seu comentário!

  6. Adriano,

    Achei excelente o seu texto. Acredito que, quem dele discorda, não deve tê-lo entendido. Em momento algum você questionou a existência dos transtornos comportamentais. O alvo de seu questionamento foram os “diagnósticos”, muitas vezes preciptados, errôneos e excessivas urgências medicamentosas. Os transtornos, de forma geral, têm uma linha divisória bastante ínfima e, se não houver um estudo aprofundado de cada caso, possivelmente incorre-se em erro, levando o pseudoportador à ingestão de medicamentos sem nescessidade. Em contrapartida,na suspeição, é preciso levar em consideração, no momento de uma anamnese, que o sistema educacional está ultrapassado e defasado e não atende ou desperta o interesse dos educandos, podendo gerar, assim, déficites na aprendizagem que, não necessariamente, estejam relacionados a qualquer transtorno ou patologia. Sou uma estudiosa do TDAH e mãe de uma portadora. O diagnóstico de minha filha,com seis anos na época, hoje adulta, demorou quase dois anos para ser concluído, pois a investigação, é preciso que se diga, foi embasada em muito mais que um simples questionário respondido pela família e por professores. A equipe multidisciplinar que a atendia deixou a meu critério o uso ou não de medicamento. Como neurocientista, portanto conhecedora dos efeitos do uso de psicotrópicos, não consenti na administração de metifenidato (a famosa Ritalina). É evidente que essa é uma escolha da família e ou do paciente que, na certeza de um diagnóstico, fruto de estudo detalhado, deve optar pela melhor forma individual de tratamento. Entretanto,é preciso que se diga que, todo e qualquer medicamento, deve ser utilizado com parcimônia e consciência de sua ação bem como de seus efeitos colaterais.

    • Oi Solange,

      Agradeço muito pelo seu comentário. Você sintetizou bem o que pretendi expor no texto. A sua escolha em escrever “diagnósticos” entre parênteses é bastante acertada. Um diagnóstico de um transtorno como esse não é tão simples quanto tem acontecido. Temos que considerar, ainda, que estamos fornecendo medicamentos tarja preta para as crianças. Você mesmo, depois de dois anos de exames, decidiu não medicar sua filha, sabendo dos efeitos do remédio. É uma questão muito delicada. Mas todos deveriam concordar que 2 milhões de caixas de metilfenidatos sendo distribuídas em escolas públicas é no mínimo um absurdo.

      Abraços!

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: