Segundas reflexões: (tecno)gênero, a regulação técnica do gozo

[Parte 1]

As notas que se seguem são a continuação de aplicações da teoria de Beatriz Preciado nas veias: notas da esquizofrenia, da paranóia e da ansiedade.

#6: Beatriz Preciado na cama com Slavoj Žižek. Sim, eu os coloquei, eu os li aleatoriamente, eu participei dessa orgia. Antes de tudo, Žižek me saudou: “Bem vindo ao deserto da pós-ideologia”[¹] e um novo entendimento me foi aberto sobre a potentia gaudendi. Nesse momento fuck, ele me disse que a estratégia básica do hedonismo consumista é privar o gozo de sua dimensão excessiva, porque o gozo, ao contrário do prazer, é ele próprio aquilo que excede mortalmente o prazer, aquilo que não serva para nada; o prazer não, o prazer é altamente regulado, moderado. Aliás, o gozo pode até ser solicitado, mas que não ameace nossa estabilidade psíquica ou biológica: coca-cola sim, mas diet, café sim, mas sem açúcar, cerveja sim, mas sem álcool e por aí vai… Mas, Preciado também me falou sobre a potentia gaudendi e eu gostaria de retornar as minhas conclusões[²] e dizer: gênero, sexo, sexualidade, sim, mas sem potentia gaudendi, sem excitação total e abstrata de um tecnocorpo. O gênero, o sexo e a sexualidade são una pérdida, uma falta, dispositivos que prometem produzir prazer excessivo, mas que produzem apenas o vazio. Gênero sim, mas sem potentia gaudendi: isto é a imposição do regime farmacopornográfico, da mesma forma que Žižek coloca que o gozo descafeinado não é seu real, mas apenas seu semblante, o gênero sem potentia gaudendi é um semblante do gozo, não o seu real, uma imitação e regulação a favor do tecnocapitalismo de uma força que não tem gênero, não tem identidade sexual, não privilegia um órgão sobre o outro. O gênero é um esvaziamento do sentido, uma violência, uma regulação. E esta é uma orgia necessária.

#7: Gênero: dispositivo abstrato de subjetivação técnica. Como semblante do gozo em marcha para a farmacopornografia, o gênero, como nos mega-goza Preciado na página 88 de seu Testo Yonqui, “se pega, se corta, se desloca, se cita, se imita, se traga, se injeta, se enxerta, se digitaliza, se copia, se desenha, se compra, se vende, se modifica, se hipoteca, se transfere, se download, se aplica, se transcreve, se falsifica, se executa, se certifica, se permuta, se dosifica, se administra, se extrai, se contrai, se subtrai, se nega, se renega, se trai, muda”. O gênero são os fluxos de gênero, a circulação de biocódigos de gênero, sem os quais o regime farmacopornográfico não pode funcionar, já que a normalização e a diferença dependem do controle, reapropriação e do uso desses fluxos de gênero.

#8: Náusea kristeviana. “Sou um homem”, “sou uma mulher”, “sou heterossexual”, “sou homossexual” são estados subjetivos possibilitados pela ficção somaticopolítica do gênero, do controle dos fluxos de gênero que nos são oferecidos, das tecnologias que domesticam nossos corpos: farmacopolíticas. As tecnologias de gênero desenvolvem um saber interior, percepções sensoriais que tomam a forma de afetos, desejos, identidades etc., produzem um “eu” sexual consciente (“sou…”).

#9: Prótese política viva: esse é o objetivo das tecnologias farmacopornográficas. Somos corpos dóceis produzidos, nossa potentia gaudendi está regulada e a serviço da produção do capital. Nesse sentido, a programação de gênero é uma tecnologia que instala a ordem: um indivíduo = um copo = um sexo = um gênero = uma sexualidade (o que Judith Butler chama da ordem de sexo/gênero/desejo), produzindo corpos com identidades fixas e que se passam como essência.


[¹] ŽIŽEK, Slavoj. Bem vindo ao deserto da pós-ideologia. In: ______. O ano em que sonhamos perigosamente. São Paulo: Boitempo, 2012.

[²] Os textos sobre potentia guadendi: aqui e aqui.

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