Prazer, gozo, Slavoj Žižek: leitura abusada nº 1

Prazer, gozo, gênero [o crepúsculo do (não-)entendimento]: Em primeiro lugar, acredito que seja necessário recordar que a potentia gaudendi ou força orgástica é um conceito elaborado pela filósofa Beatriz Preciado equivalente a “força de trabalho” na economia clássica, para explicar como a sexualidade e o corpo (excitável) irrompem no centro da ação política, se tornando objetos de uma nova gestão estatal e industrial a partir do século XIX. Para a autora, a potentia gaudendi é uma potência de excitação total de um corpo, a força mais abstrata e, ao mesmo tempo, a mais material de todas as forças de trabalho, ela não tem gênero, não é nem menininho nem menininha, não tem identidade sexual, não é hetero, nem homo, nem bi, ou qualquer outra entre A-Z, não conhece a diferença entre sujeito e objeto, como se no fundo da cena os dois pudessem ser independentes um do outro, tampouco a diferença em ser excitado, excitar ou excitar-com. Ainda, ela não coloca um órgão sobre o outro: um pênis não tem mais potentia do que uma vagina, o ânus, um olho, um dedo do pé, uma unha ou um fio de cabelo; ela é inerente a cada molécula viva, se estendendo no tempo e no espaço, a tudo e a todos, em todo lugar e a todo o momento.

Em segundo lugar, Slavoj Žižek nos diz entre as páginas 53 a 65 de seu O ano em sonhamos perigosamente (2012), que o gozo é aquilo que somos privados na nossa sociedade hedonista consumista: uma vida sem gozo; prazer sim, gozo não. Nesse sentido, o gênero (o sistema de gênero) não é uma privação do gozo (potentia gaudendi)? Gênero sim, mas sem potentia gaudendi. E que a linguagem não nos traia, este enunciado não representa o poder de um sujeito ou de sua vontade, um performativo, mas aquilo que a sociedade hedonista heteronormativa consumista nos impõe. Aqui, estamos plenamente justificados em fazer esse elo com a teoria radical de Preciado, pois se a categoria do gênero não é uma criação da agenda feminista, mas a constituição de um novo regime farmacopornográfico da sexualidade, a noção que faz aparecer e desenvolver uma série de técnicas farmacopornográficas de normalização e transformação do ser vivo, tecnogênero, e, além disso, a potentia gaudendi é altamente regulada pelas farmacopolíticas e pelo controle tecnopolítico. Reformulando a pergunta: o (tecno)gênero e suas produções heterossexuais e heterossexistas, relações assimétricas, zonas erógenas do corpo, pelas quais o próprio corpo desconhece força orgástica, não nos priva do gozo? O gênero, como a situação do trabalho na sociedade capitalista, é alienante? Que o gênero nos impede de nos realizarmos como tecnocorpo isto é verdade, então e novamente: o gênero nos priva do gozo?

Slavoj Žižek (1949 – ): instigante filósofo esloveno para quem em nossa sociedade hedonista consumista o gozo (aquilo que é excessivamente mortal ao prazer) é até solicitado e tolerado, desde que não ponha em risco nossa saúde física ou psíquica.

Depois de colocar questões tão importantes, parece insatisfatório não respondê-las, porque como diria Avital Ronell manter as coisas na estrutura tensional do aberto é sempre uma coisa absurda e louca, mas como ela, acredito que mais necessário. O gênero, como categoria em disputa, parece sempre um debate mesmo insatisfatório, no sentido em que nós não podemos oferecer uma teoria absoluta e por isso ele próprio nos demanda um trabalho incessante de explorar, cavucar, tende em mente que nunca se pode chegar ao Absoluto. Nesse sentido, falar de prazer e gozo e tentar relacioná-los aos debates em torno da farmacopornografia de Preciado, ou tentar fazê-las paralelamente a leitura de Žižek parecem importantes para esta empreitada do não-sentido.

Retomando a distinção em Lacan, Žižek (2012) nos esclarece que o prazer é moderado, regulado por uma medida, enquanto o gozo, pelo contrário, é aquilo que é excessivo mortalmente sobre o prazer, aquilo que não serve para nada. Como nós dissemos, na sociedade hedonista consumista, se presume que todos nós gozamos, quando, na verdade, isso não acontece, mas apenas na medida em que é uma estratégia dessa mesma sociedade, onde o gozo é privado de sua dimensão excessiva, seu excesso perturbador. O gozo, nesse sentido, é tolerado e até solicitado, mas na medida em que faça bem a saúde, não colocando nossa estabilidade física ou biológica em risco. As contradições irônicas que se seguem por essa estratégia são: chocolate sim, mas 0% gorduras; coca sim, mas diet; café sim, mas sem cafeína; cerveja sim, mas sem álcool; maionese sim, mas sem colesterol; sexo sim, mas seguro; vida sim, mas sem riscos etc. Nós estamos aqui, segundo o autor, no que Lacan chama de discurso da universidade, que se contrapõe ao discurso do mestre, uma vez que este vai até o fim em sua consumação, enquanto que o discurso da universidade regula os prazeres do consumista pelo conhecimento científico.

Žižek então esclarece que o princípio da sociedade hedonista consumista é prazer sem gozo: chocolate sim, mas 0% gorduras; coca sim, mas diet; café sim, mas sem cafeína; cerveja sim, mas sem álcool; maionese sim, mas sem colesterol; sexo sim, mas seguro; vida sim, mas sem riscos …

Assim, o gozo que se obtém do café sem cafeína é um semblante do gozo, não o seu real. Nos mesmos termos, o gênero não é um semblante do gozo, isto é, da potentia gaudendi, mas não o seu real? O gênero não é uma imitação do gozo, pois, assim, como segundo Žižek, existe uma imitação do gozo no discurso da universidade?

Para Žižek (2012), quando o pai, por exemplo, proibi as escapadas do filho, ele só não está fazendo vistas grossas a esse ato, como também o está tolerando discretamente, assim como a Igreja Católica faz aos casos de pedofilia. Também, contradizendo Hegel, aprendemos que a crítica lacaniana diz que é o escravo que o goza, não o senhor, já que, partindo uma anedota sobre Catarina, a Grande: informaram-na de que os escravos estavam roubando seu vinho e comida, ela sorri, porque ciente de que essas migalhas ou sobras que ela atirava aos escravos os perpetuavam em tal posição. Žižek nos diz que o escravo mantém a fantasia de que ele consegue as migalhas e o senhor goza em sua plenitude, quando, na verdade, o único gozo é do escravo.

O autor escreve na página 55: “É nesse sentido que o Pai, como agente da proibição/lei sustenta que o desejo/os prazeres: não existe acesso direto ao gozo, porque seu próprio espaço é aberto pela pelos vazios do olhar controlador do pai”. E continua: “A prova negativa desse papel constitutivo do Pai de forjar o espaço para um gozo viável é o impasse da permissividade de hoje, em que o mestre/especialista não proíbe o gozo, mas o impõe (‘sexo é saudável etc.), sabotando-o assim de maneira eficaz”. Os grifos são meus e de quem quiser se apropriar deles.

O gênero não está imposto, sabotando o gozo de maneira eficaz? Ele não está imposto como o próprio gozo? Como a própria potentia gaudendi?

nº 2

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: