Educação Sexual: fala-se de tudo, menos dos prazeres!

A sexualidade, de alguma forma, entra na escola. Se não pela via institucional, ela certamente faz parte das relações que estudantes constroem entre si, para dizer o mínimo. Apesar dessa presença quase que inevitável do tema, é certo que falar de sexo continua sendo, em parte, um tabu. Nas escolas, existem iniciativas institucionais de discuti-la, em especial na disciplina de “Educação Sexual”, que muitas vezes ganha outros nomes como “Orientação Sexual” ou até “Orientação Educacional”.

Venho discutindo, nesse blog, algumas formas que se encontram de mascarar as discussões sobre sexualidade, dando a ela novas aparências que não correspondem ao que efetivamente se vê ou se vive. É o caso, por exemplo, das representações dos bichos nos desenhos animados (clique aqui), nas quais as genitálias são ocultadas – talvez por serem consideradas vulgares, talvez pelo medo da “sexualização precoce”, ou talvez por puro recalque. Mas, na escola, como a sexualidade é tratada?

Educação Sexual: um tema que tem entrado na escola, mas carregando muitos dos tabus da sociedade.

Diversos estudos apontam um despreparo, por parte dos educadores, para lidar com o tema, em especial quando a diversidade sexual é trazida à tona (JUNQUEIRA, 2009). Esse despreparo, no fundo, reflete uma lacuna da própria sociedade que, ao puxar a sexualidade para uma questão privada, se exime de pautá-la na esfera pública. É nesse espaço, porém, que a sexualidade se constrói, se preenche de tabus, se discursa e, por que não, se ensina/aprende.

Documentos oficiais, como os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (BRASIL, 1997), descrevem e sugerem formas de se trabalhar com a Educação Sexual. Nos PCN, consta um tema transversal identificado como “Orientação Sexual” dividido em três blocos: (1) corpo humano, (2) relações de gênero e (3) prevenção às doenças sexualmente transmissíveis/AIDS.

Parece uma abordagem completa, dentro do que estamos acostumados a ouvir falar sobre o tema, mas pesquisa de Claudia Vianna e Sandra Unbehaum (2006) mostra que o eixo das “relações de gênero” é deficitário, caindo no discurso genérico sobre direitos e valores sem encampar um debate profundo sobre a construção social do feminino e do masculino, e que o foco do documento – bem como da Educação Sexual como um todo, poderíamos deduzir – se restringe ao patológico, no bojo da saúde sexual e reprodutiva.

Representação da anatomia interna da genitália feminina: são com essas imagens que devemos nos contentar. O resto atenta ao pudor.

“Ao associar a sexualidade fundamentalmente com a saúde”, afirmam as autoras, “isso favorece, mesmo não desejando, uma abordagem restrita à prevenção e à doença” (VIANNA & UNBEHAUM, 2006, p. 420). Trocando em miúdos, ao falar de sexo, a tendência seria abordar unicamente as doenças sexualmente transmissíveis (DST) e a gravidez na adolescência.

Ora, sem descartar a importância desses temas, é importante problematizá-los. Em primeiro lugar, porque “gravidez na adolescência” é uma expressão simpática. Na realidade, ela é mais conhecida como “gravidez precoce” ou “gravidez indesejada”. A pergunta é: precoce/indesejada para quem, segundo quais parâmetros? Se é verdade que muitas meninas engravidam cedo, sem ter como sustentar a si ou a seu bebê, é essencial primeiro entender o contexto e as motivações para a gravidez (mesmo que acidental), antes de atribuir uma etiqueta tão pejorativa à gravidez e ao feto.

Além disso, há de se destacar a impressão de que sexo se resume a doenças e riscos. Fala-se do risco de adquirir alguma daquelas moléstias nojentas que produzem líquido fedido, do risco de contrair AIDS, do risco da gravidez, entre outras expressões consagradas: ejaculação precoce, impotência, dores, sangue da menstruação, corrimentos. Sabemos mais nomes de problemas do que de posições sexuais, sem dúvida. As partes íntimas, por sua vez, são estudadas por dentro, do ponto de vista anatômico. Imagem de um pênis? Raramente. De um pênis ereto? Jamais! E de vagina? Imagina!

Raramente a Educação Sexual vai muito além do caráter preventivo, discutindo os prazeres do sexo, sobretudo em relações fora do padrão heteronormativo, a dois, com parceiro fixo.

O ato sexual é tratado como um bicho-papão, disposto a pegar “os desavisados” ou “os irresponsáveis”. Não se fala em nenhum momento dos prazeres do sexo. O orgasmo, por exemplo, é o que se está para descobrir. Parece que existe a tentativa de nos socializarmos para uma “vida sexual perfeita”, se cumprirmos a cartilha e aceitarmos algumas condições (no caso, relações heterossexuais, com parceiro fixo e somente a dois), sendo que a própria falta de vontade ou interesse no sexo – a assexualidade – é sequer levada em conta. O destino, sem dúvida, é o sexo. Mas o sexo seguro. E hétero, e comportado, e fiel, e limpinho…

Também pudera, em uma época no qual se luta tanto para simplesmente distribuir preservativos na escola, é esperado que os maiores dogmas e tabus recaiam sobre o sexo e a sexualidade. Defendo que, enquanto a sexualidade ainda for tratada com tantos dedos, ela dificilmente será exercida com maior naturalidade pelas pessoas, seja para ter a tal vida sexual prescrita, seja para poder se experimentar e se permitir ao prazer, ou mesmo para negar o sexo, se for o caso. Antes de qualquer coisa, para se ter “sexo seguro”, é preciso estar seguro sobre o sexo.

3 comentários
  1. Cai por acaso sobre seu blog, digitando ‘educação, genero, raça’ no Google; achei fantastico! Com pessoal não so da metropolis de SP, mas também de Goias! Um design limpo e muito atractivo, e sobre tudo ensaios muito bem escritos com informação clara e incisiva. Parabens!

    • Oi David,

      Obrigado! Acho que você é a primeira pessoa a elogiar o design do blog, rs. Que na verdade é um layout padrão do site, não criamos nada. Que bom que gostou do blog.
      Vou dar uma chegada no seu site também.

      Um abraço!

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