Prazer, gozo, Slavoj Žižek: leitura abusada nº 2

nº 1

A pornografia é a ausência da pornografia: Deleuze e Guattari (1972) nos disse que o que há por toda parte, sem qualquer metáfora, são máquinas de máquinas, com suas ligações e conexões. O seio, por exemplo, é uma máquina que emite leite e a boca a máquina que se liga com ela, fluxo e corte. Nesse sentido, estou pensando como a pornografia é uma máquina, uma máquina abstrata, que nos atrai e que nos promete o prazer, ou melhor, para reformular a questão nos termos da reapropriação de Slavoj Žižek (2012) sobre Lacan, o gozo, tudo o que excede mortalmente. Assim, nossa “mão masturbatória”, outra máquina, se liga a pornografia e novamente: máquinas de fluxos e cortes, ligações e conexões. Também a máquina pornográfica poderia ela própria produzir o pênis, a vagina, a boca, o ânus, os gemidos, os “fuck me”, “oh, shit”, no sentido de que órgãos usar, que palavras usar, onde levar a boca, as mãos, os pés etc. Claramente, a pornografia é um dispositivo e, de fato, se lemos a Beatriz Preciado, concluímos que ela é uma tecnologia sexual, excluindo práticas, expressões e corpos que não se encaixam na “norma”.

No final das contas, a pornografia nos promete uma dádiva que não pode cumprir, aliás, a pornografia é mesmo essa falha: o que põe a mão masturbatória a funcionar é o vazio, o semblante que se tenta passar pelo gozo. Pornografia sim, mas sem sexualização — isto é o que nos é oferecido. Dessa forma, a pornografia, como nos escreve Žižek (2012, p. 57), é um exemplo da dessexualização do sexo, “ela promete oferecer ‘cada vez mais sexo’ mostrar tudo, mas o que nos dá é o vazio e a pseudossatisfação infinitamente reproduzidos, isto , mais e mais do real cru”. A pornografia, tecnologia de gênero, regula semioticamente (fluxos textuais, fluxos de representação, fluxos de gênero) a subjetividade do sujeito sexual, ou, antes o produz, suas zonas erógenas, como as usar, em que orifícios colocarem este ou aquele órgão, qual não usar de forma alguma. A pornografia é uma máquina que produz o vazio, a imitação do gozo no discurso da universidade. A pornografia é uma tecnologia que regula a potentia gaudendi, esvazia seu significado.

Žižek

Para Žižek, a pornografia nos “promete oferecer ‘cada vez mais sexo’ mostrar tudo, mas o que nos dá é o vazio e a pseudossatisfação infinitamente reproduzidos”.

Este mesmo esvaziamento, segundo Žižek, esteve presente nos distúrbios no Reino Unido em 2011 e entre os carros incendiados nos subúrbios de Paris em 2005, porque os manifestantes não tinham nenhuma mensagem para transmitir. Em termos marxistas, esses distúrbios, segundo o autor, são difíceis de serem concebidos sobre o signo de sujeito revolucionário em desenvolvimento, eles se voltam mais para o que Hegel entende como “populacho”, grupo de pessoas que estão fora do espaço social organizado, impedidas de participarem da produção social, exprimindo seu descontentamento apenas pela forma de explosões “irracionais”, violência destrutiva”, “negatividade abstrata”. “Dizem que os eventos de 1990”, continua o autor na página 59 sobre a desintegração dos regimes comunistas, “marcaram o fim da ideologia: chegamos ao fim da era dos grandes projetos ideológicos, cuja realização termina em catástrofes totalitárias, e entramos em uma nova era política racional, pragmática etc.”. “Contudo”, ele acrescenta, “se o insistente lugar-comum de que vivemos em uma era pós-ideológica tiver algum sentido, é aqui, nas violentas explosões que vem acontecendo, que esse sentido é perceptível. Os manifestantes não fazem nenhuma exigência particular: o que temos é um protesto de nível zero, um ato de protesto violento que não exige nada”.

Um ato de protesto violento que não exige nada… Estamos de frente de atos de violência desprovidos de sentido, retornando cada vez mais a “negatividade abstrata”, mas talvez, segundo o autor, essa seja uma verdade oculta no conceito de Hegel, porque quanto mais uma sociedade consegue formar um Estado racional bem organizado, mas ele tende para tal: violência (auto)destrutiva. Žižek nos argumenta que esse fato demanda por si própria uma interpretação da nossa condição político-ideológica, por julgar que muitas pessoas passam por dificuldades materiais piores, opressões físicas e ideológicas e conseguem pautar uma cartilha clara e se organizar como sujeitos políticos. Nesse sentido, o que se passa com esses “eus” que não tem um programa político? Nós vivemos em uma “sociedade de escolha” (a qual volta e meia voltamos a celebrá-la) quando a única alternativa que está disponível ao senso democrático imposto é uma ação cega? De que serve nossa “liberdade” nessa sociedade se a única escolha que nos resulta está entre as regras e a violência auto-destrutiva? Vivemos num mundo “sem mundo”: Žižek faz eco ao pensamento do filósofo Alain Badiou. E nesse mundo “sem mundo”, o protesto só pode assumir a violência desprovida de sentido.

Motins no Reino Unido (2011): segundo Žižek, os "manifestantes não fazem nenhuma exigência particular: o que temos é um protesto de nível zero, um ato de protesto violento que não exige nada".

Motins no Reino Unido (2011): segundo Žižek, os “manifestantes não fazem nenhuma exigência particular: o que temos é um protesto de nível zero, um ato de protesto violento que não exige nada”.

Segundo o autor, há de se considerar que nesses motins no Reino Unido os homens estão reduzidos a “feras naturais”, mas a “fera natural” historicamente específica, no nível zero da verdade capitalista sem significado, dessa forma, essa violência não pode ser explicada simplesmente pela pobreza e pela falta de perspectivas sociais, mas deve ser acrescentado, sobretudo, aquilo que Lacan batizou como “dispositivos-objetos” de consumo, aqueles que atraem a libido com a promessa do prazer excessivo, mas reproduzem apenas a própria falta, tal como a pornografia ou o “Stamina Training Unit”. Assim, a questão não é só discutir as condições objetivas desses motins e ignorar sua dimensão subjetiva, uma vez que a própria amotinação é desde o início fazer uma afirmação subjetiva, é colocar implicitamente como nós nos relacionamos como nossas condições objetivas, ou seja, como as subjetivamos.

A destotalização capitalista do significado leva os manifestastes a direcionarem sua violência contra eles próprios: segundo Žižek, os carros incendiados e as lojas saqueadas não pertencem a vizinhança rica, mas tudo ali foi adquirido com dificuldade pelo mesmo estrato de origem dos manifestantes. O ataque, portanto é um ataque direcionado a própria comunidade entre a não sociedade e a sociedade, entre aqueles que ainda têm êxito dentro do sistema e que são frustrados demais para prosseguir, atacando o outro pólo da própria comunidade. Embora os motins tenham um caráter de protesto genuíno, finaliza o autor, embora constituam uma resposta irônica à ideologia consumista de que “Você nos incita a consumir, mas ao mesmo tempo nos priva da possibilidade de fazê-lo apropriadamente — então aqui estamos nós, consumindo da única maneira que nos é permitida!”, eles exibem de forma palpável e dolorosa a força material da ideologia da “sociedade pós-ideológica”.

Há um perigo, segundo Žižek na violência desprovida de sentido: o de que a religião preencha o sentido e restabeleça o significado.

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