O humor na Berlinda

Ultimamente, tem pipocado com frequência algum caso em que uma piada foi transformada em um processo judicial. Os casos mais emblemáticos envolveram o comediante Rafinha Bastos: a piada sobre o estupro e a piada envolvendo a cantora Wanessa Camargo e seu filho. Junto com essas polêmicas, vem à tona uma discussão sobre os limites do humor e a fronteira entre a piada e a ofensa.

Programas humorísticos existem desde sempre. Porém, parece-me que dois acontecimentos foram marcantes para o tipo de humor que predomina hoje: a chegada da comédia stand up, um modelo importado dos EUA no qual o artista faz uma apresentação portando apenas um microfone, e as emissões televisivas no estilo Pânico na TV, que nos últimos anos passou a competir com o CQC; ambos se caracterizam por um humor de cunho jornalístico, às vezes apelativo, que insistentemente persegue figuras públicas, em especial as celebridades.

Rafinha Bastos, um dos principais artistasda comédia stand up: a polêmica marca muitas das suas piadas.

Rafinha Bastos, um dos principais artistas da comédia stand up: polêmicas marcam muitas das suas piadas.

Comediantes consagrados da televisão brasileira, como a equipe do Casseta & Planeta, perderam espaço para uma turma nova que inclui, além do Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Oscar Filho, Marco Luque, entre outros (inclusive o resgate do Marcelo Tas). O tom da comédia, e do riso, também mudou. Se antes predominava uma caricatura que, de tão caricata, parecia inofensiva sem deixar de ser engraçada, com a comédia stand up situações cotidianas são trazidas para o palco e, com elas, uma proximidade maior com a vida de cada um. A graça não está na composição dos personagens ou na cenografia, os quais inexistem, e sim no texto de autoria do próprio ator que ali encena.

Há limites para o humor? O humor ofensivo deve ser proibido? Quais critérios para um humor de qualidade? Essas são algumas das perguntas que pairam no ar e, a meu ver, todas elas são problemáticas. Em primeiro lugar, porque o humor carrega alguma maldade por natureza: o que é a caricatura senão o exagero dos defeitos de uma pessoa, grupo ou situação, ou mesmo o exagero das qualidades, tornando-as também defeitos. Não se faz humor sem que alguém pague o preço pela risada do público.

Laerte Coutinho, cartunista: defende que o preconceito é inerente ao humor, o que não isenta o artista de sua responsabilidade.

Laerte Coutinho, cartunista: defende que o preconceito é inerente ao humor, o que não isenta o artista de sua responsabilidade.

Esperar que o humor não seja ofensivo – ou, pior, que não seja ofensivo para um grupo em especial – é uma tentativa equivocada de moralizar o humor. Já dizia Goethe que embora a arte possa ter um efeito moral, exigir uma moralidade dela é simplesmente arruinar a obra de um artista. Em outras palavras, estaríamos diante de um aparelhamento do humor. Na verdade, ele é livre. E é justamente essa sua liberdade que é provocante e, por vezes, ofensiva.

Isso quer dizer que eu concorde com a famigerada piada do estupro? De jeito algum! Considero-a um humor de extremo mau gosto, apelativo, sequer engraçado. Espanta-me que haja gente que consome esse tipo de humor. Porém, não acredito que essas piadas devam ser proibidas (como se isso fosse possível), mas, ao jogá-las ao público, o artista deve ter responsabilidade. Há quem dará risada, sem dúvida. Por outro lado, há quem se sentirá lesionado a ponto de abrir um inquérito judicial. O artista deve estar preparado para receber o elogio e a crítica, os aplausos e as vaias, os contratos e os processos.

Hugo Possolo, ator e palhaço, acredita que o humorista não deve seguir seu trabalho apenas pelo sucesso das suas piadas.

Hugo Possolo, ator e palhaço, acredita que o humorista não deve seguir seu trabalho apenas pelo sucesso das suas piadas.

O fato de o humor ser livre não significa que o artista não deva refletir sobre quem vai rir da sua piada, como ressalta o cartunista Laerte. Se eu fosse humorista, não faria piada para dar gargalhadas aos machistas ou homofóbicos. Faria um esforço, ao contrário, para descontruir as “piadas prontas” que, baseadas em preconceitos, mantêm constrangimentos e opressões a grupos que são frequentemente vitimados na sociedade, não só pela discriminação, como também pelas risadas desse humor que se pretende mero entretenimento.

Considero um ultraje, assim, afirmar que “é só uma piada”. Uma piada reflete um ponto de vista, uma opinião ou ao menos um senso comum que é partilhado e, sobre o palco, mobilizado em troca de risos e dinheiro. Como bem observa Hugo Possolo, artista eminente do teatro paulistano: “Quem se curva demais diante do seu público, pode ficar de quatro para ele”. É a responsabilidade do artista que é, em primeira mão, chamada para o debate.

Por fim, deixo a indicação para assistirem ao documentário abaixo, intitulado O Riso dos Outros, dirigido por Pedro Arantes. Nele, vemos uma clara polarização entre os humoristas. Além de alguns humoristas já citados, contamos também com a presença de André Dahmer, Lola Aronovich, Jean Wyllys, Nanny People, entre outras pessoas interessantes. E que o humor não seja posto num altar e possa ser sempre debatido!

3 comentários
  1. Adriano,

    Essa questão do limite da piada era uma grande dúvida que eu tinha: o politicamente correto x humor ofensivo.

    Creio que o artigo, desconstruiu algumas concepções que tinha acerca do assunto. Em função disso já ganhei o dia. rs

    Depois eu quero ver aquele documentário. Deve ser bem interessante.

    No mais, parabéns pelo post. Está lindo!

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