Entre indignados e ocupas: o início de uma década de protestos e revoluções?

Há aproximadamente um ano, escrevi um texto sugerindo que estaríamos vivendo o início de uma “década quente”. Sabe-se que o grande risco de fazer previsões é que elas costumam ser falseadas, geralmente em curto prazo. Não foi o que aconteceu até agora. Tudo indica que, em 2012, continuamos o processo iniciado no ano anterior: a eclosão de movimentos de protestos, por razões distintas, em várias regiões do globo, conforme sintetizado no pequeno livro Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012), de autoria múltipla.

Primavera Árabe: intensos protestos têm derrubado regimes autoritários de diversos países, mas as disputas políticas perduram.

Primavera Árabe: intensos protestos têm derrubado regimes autoritários de diversos países, mas as disputas políticas perduram.

Começou em 2011, no norte da África, com a derrubada de regimes autoritários: Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen. Atualmente, perduram os conflitos na Síria, que já causaram a morte de milhares de civis. A Primavera Árabe, que de longe não é um mar de rosas, ainda não acabou. Senão os conflitos, ao menos as disputas políticas em torno dos possíveis novos governos tendem a continuar.

Com o aprofundamento da crise iniciada em 2008 – que muitos arriscam dizer se tratar de uma crise estrutural do capitalismo –, ondas de protestos tomaram também a Europa, em especial a Espanha, Portugal e Grécia. No primeiro, assistimos às manifestações dos Indignados, que continuaram tomando as ruas este ano. A fase de instabilidade econômica pela qual a Europa tem passado se refletiu no cenário político, o que levou ao poder governos de extrema direita.

Ruas e praças são tomadas na Espanha pelos indignados: variados setores da população insatisfeitos com a aplicação das 'medidas de austeridade'

Ruas e praças são tomadas na Espanha pelos indignados: variados setores da população insatisfeitos com a aplicação das ‘medidas de austeridade’

Ainda, a imposição das “medidas de austeridade” pela troika (União Europeia, FMI e Banco Europeu) não tem sido aceita pela população dos países europeus, pois quem paga a conta dos bancos é o próprio povo, a custa de gastos sociais minimizados. A Islândia, nação que sequer integra a União Europeia, foi mais radical: desde 2008, o país tem passado por uma revolução, que levou à nacionalização dos bancos, redação de uma nova constituição e a rejeição, via referendo, de que a população arcasse com as contas da crise – acabou que os responsáveis tiveram que pagar por ela (sim, banqueiros foram encarcerados!).

Desde o ano passado, também testemunhamos uma greve no sistema educacional chileno, liderada pelos próprios estudantes, que se estendeu posteriormente aos demais setores do país e fez a popularidade do presidente Sebastian Piñera minguar. Pela bandeira da educação pública e gratuita a todas/os, os chilenos, no fundo, questionavam as bases políticas e econômicas que, desde o governo de Pinochet, se instauraram no país.

Occupy Wall Street: acampamentos nas ruas de Nova York (e posteriormente nos demais estados) em protesto ao capitalismo e à ganância corporativa.

Occupy Wall Street: acampamentos nas ruas de Nova York (e posteriormente nos demais estados) em protesto ao capitalismo e à ganância corporativa.

Não poderia deixar de mencionar o movimento Occupy Wall Street, os acampamentos que tomaram inicialmente as ruas de Nova York e se difundiram amplamente por outras cidades do país. Além de protestos, os manifestantes – usando o lema de “Nós somos os 99%” – conseguiram mobilizar até algumas greves. Os “ocupas” inspiraram protestos em outras regiões do globo e, juntos, realizaram alguns dias de protestos globais (como em 15 de outubro de 2011).

No Brasil, esses movimentos ainda não chegaram com força. No entanto, nunca é ruim lembrar que mobilizações aconteceram, e foram reprimidas. É o caso dos protestos contra o aumento da tarifa de ônibus em Teresina (PI) e da Marcha da Maconha em São Paulo. Neste mesmo estado, assistimos à entrada da tropa de choque na Universidade de São Paulo para reprimir uma mobilização estudantil. Nem durante o regime militar tamanho aparato militar fora invocado para “resolver” um protesto.

Protestos chilenos por uma educação gratuita e de qualidade, uma pauta que remete a uma conjuntura muito mais ampla do país.

Protestos chilenos por uma educação gratuita e de qualidade, uma pauta que remete a uma conjuntura muito mais ampla do país.

O que esses movimentos, tão diversos em suas motivações, têm em comum? Todos eles, em alguma medida, dependeram de redes sociais como o Facebook e Twitter para serem organizados e divulgados. Ferramentas da internet como jornais alternativos e blogs, com efeito, são importantes para se democratizarem as fontes de informações e, assim, alimentarem a rede com informações que não são de interesse das empresas da comunicação. É o caso dos protestos contra o presidente reeleito no Irã em 2009, os quais faziam uso da internet para informar ao mundo o que estava acontecendo.

Se a internet não fosse uma ferramenta perigosa, tanto para corporações quanto para governos, a China não teria proibido, por exemplo, menções à praça Tahir, principal palco dos protestos egípcios, revelando uma atitude no mínimo patológica para o século em que vivemos.

O pequeno livro Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas sintetiza esses variados movimentos e apontam suas tendências.

O pequeno livro Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012) sintetiza esses variados movimentos e apontam suas tendências.

Outro ponto em comum é que esses protestos ocorreram independentemente de partidos políticos, sindicatos e organizações. Mesmo que esses estejam presentes, não foram eles os protagonistas. O papel principal foi desempenhado pela própria população: jovens empregados, operários precários, estudantes de graduação endividados, trabalhadores desempregados, os quais em conjunto constituem o chamado precariado. No fundo, é a expressiva parcela do povo que sofre com os reajustes globais caracterizados pela atual fase do regime capitalista, marcada pela aplicação das cartilhas neoliberais, que intensificam as desigualdades sociais.

Por último, mas não menos importante, esses movimentos – talvez com exceção dos conflitos civis no Oriente Médio – são caracterizados pelo pacifismo. São mobilizações bastante voltadas para a conscientização e a defesa de valores para a promoção da igualdade e justiça social, sem deixar de lado pautas concretas. Acusam os ocupas de serem sonhadores, mas isto é uma falácia. Não se reduz a isso, mas é claro que a dimensão da utopia está sempre presente, pois se não há um horizonte de emancipação, não há por que sair às ruas, acampar em praças, ocupar universidades.

Contudo, mesmo as grandes mudanças tomam tempo e ocorrem em etapas. No próximo texto, discutiremos alguns dos desafios para que essas reivindicações se concretizem e o que se espera, afinal, ao cabo disso tudo, o que nenhuma previsão será capaz de dizer. Quero acreditar que o primeiro passo já foi dado e que estaremos vivendo, ao longo dessa década, um cenário mundial de intensas disputas e numerosos resultados.

“Se não nos deixar-nos sonhar, não os deixaremos dormir.” (lema dos Indignados, Espanha)

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