O que esperar dos indignados e dos ocupas?

É fato que desde o ano passado assistimos a uma série de movimentos que, por razões distintas, tomaram as ruas em diferentes regiões do globo. O que não é certo, e sobre o qual pouco se pode prever, é o que resultará disso tudo. Serão apenas cócegas em um sistema capitalista com orientação neoliberal? Ou será que cairão por terra as características mais marcantes desse neoliberalismo delicioso? O capitalismo fica em pé ou cai também? Essas responsas virão com tempo. Talvez com muito tempo.

Desde 2011, manifestações na Espanha, os chamados Indignados, têm feito barulho. Mas, para o futuro, o que podemos esperar delas?

Desde 2011, manifestações na Espanha, os chamados Indignados, têm feito barulho. Mas, para o futuro, o que podemos esperar delas?

No texto anterior, contextualizamos os movimentos de ocupação de praças e tomadas das ruas que ganharam a atenção a partir de 2011. Entre eles, a greve estudantil chilena, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados da Espanha, além de outras mobilizações em massa, sobretudo no cenário de crise europeia. Em comum, esses movimentos independiam de partidos e sindicatos, faziam uso intenso da internet e, talvez com exceção de alguns conflitos no Oriente Médio, eram pacíficos por excelência.

Se as suas razões e motivações são distintas, poderíamos pensar, não haveria por que falar de todos os esses movimentos em um mesmo texto. Engana-se quem diz isso, no entanto, porque algumas tendências são compartilhadas. A que mais vem à vista é a importância que as redes virtuais têm ganhado na mobilização em massa, de pessoas. E quando digo “pessoas”, estou me referindo aos indivíduos mesmo, a grande maioria não partidarizada ou sindicalizada.

Nesse sentido, tanto o filósofo Vladimir Safatle, quanto o sociólogo Manuel Castells, afirmam, em uníssono, que estamos diante da morte do sistema partidário. Não é que ele esteja agonizando; já morreu. Bem diferente da época em que a utopia socialista girava em torno dos Partidos Comunistas, não? Na opinião desses pensadores, os partidos políticos já não congregam mais interesses coletivos, não são capazes de mobilizar massas, não dão as respostas que a população está procurando.

Vladimir Safatle, professor de filosofia, destaca que a estrutura partidária já morreu, mas ainda não sabemos o que a substituirá.

Vladimir Safatle, professor de filosofia, destaca que a estrutura partidária já morreu, mas ainda não sabemos o que a substituirá.

“A época em que nos mobilizávamos tendo em vista a estrutura partidária acabou, acabou radicalmente”, afirma categoricamente Safatle (2012, p. 55). “Podemos não saber o que vai acontecer no futuro, que tipo de organização política aparecerá, mas sabemos muito bem onde acontecimentos não ocorrerão. Com certeza não nas dinâmicas partidárias.”

Essa falta de crédito se dá por inúmeros motivos, os quais não poderei explorar aqui. Brevemente, um deles está relacionado ao fato de que ser um “político” (um representante do povo) é uma profissão, uma carreira a se seguir. Sendo uma profissão, funciona dentro de uma lógica própria. Para se manter no cargo, o político precisa ser eleito. Isso, por si só, já subverte parte do sentido do seu ofício. Além de fazer seu trabalho, ele terá que ficar de olho na eleição. Prevalece a lógica do poder pelo poder.

Já as milhares de pessoas que vão às ruas estão despidas da lógica do jogo político, o que torna suas reivindicações mais autênticas. Não é à toa que os “ocupas” defendem a horizontalidade: não há lideranças e tudo é decidido por consenso. Quem conhece um pouco da estrutura partidária sabe da falta de uniformidade que existe lá dentro: a diretória pensa uma coisa, a base defende outra. Não é preciso dizer quem dá a palavra final, né?

Frases de efeito, encenações, poesias etc, tudo isso faz parte das ricas e criativas mobilizações. Mas, para mudar, é necessário mais que isso. É preciso uma plataforma política. Esses movimentos serão capazes de atender tal demanda?

Frases de efeito, encenações, poesias etc, tudo isso faz parte das ricas e criativas mobilizações. Mas, para mudar, é necessário mais que isso. É preciso uma plataforma política. Esses movimentos serão capazes de atender tal demanda?

Talvez o maior desafio desses movimentos, segundo Giovanni Alves (2012), seja transformar todo esse ímpeto, essa vontade, essa paixão e, por que não, essa poesia, em uma plataforma política capaz de disputar, com força, o campo político. Para isso, é preciso ter bases sociais e políticas, pois não se efetua mudanças apenas com frases de efeito, por mais românticas que elas possam ser.

Questiona-se, assim, se esses movimentos serão capazes de, senão responder, ao menos preparar o terreno para que possamos responder a seguinte pergunta: o que substituirá a falência da estrutura partidária? As novas organizações, que ainda estamos por conhecer, derivarão dos indignados e dos ocupas? Ou, que ainda não seja para fundar uma estrutura nova, essas mobilizações terão densidade para influenciar na vida política (derrubar governos, refundar partidos, fortalecer lideranças)?

Correm-se muitos riscos. E o principal é o de não acontecer nada. No máximo, algumas reformas, mas nada que chegue perto das ideias que desafiaram o status quo no último ano. Essas inquietações não serão respondidas agora, mas espero que nos ajudem a dar um norte em nossa fome de mudança.

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