Judith Butler nos esclarece…

O que se segue aqui são breves leituras e releituras de algumas colocações do pensamento do Judith Butler desde a entrevista Interrogando el mundo (2008) concedida a Juan Vicente Aliaga para a Exit Book. Colocações importantes da própria autora na medida em que elas nos alertam para certas confusões ou análises que têm circulado muito fortemente que insatisfatoriamente tem pregado, por exemplo, que a teoria queer age separadamente do feminismo e vice-versa, reduzido a noção de performatividade a uma performance de gênero, entre outros.

Judith Butler nos esclarece que a separação entre feminismo e teoria queer é sempre problemática, que a noção de performatividade de gênero não é uma simples performance, que deveriam existir outros modos alternativos de viver a vida sexual e que o corpo (sexo) não é unicamente a matéria, uma condição estática da "pessoa".

Judith Butler nos esclarece que a separação entre feminismo e teoria queer é sempre problemática, que a noção de performatividade de gênero não é uma simples performance, que deveriam existir outros modos alternativos de viver a vida sexual e que o corpo (sexo) não é unicamente a matéria, uma condição estática da “pessoa”.

01. A separação entre teoria queer e feminismo é problemática: Para Butler, é difícil pensar o feminismo sem a teoria queer e a teoria queer sem o feminismo, não existem limites de lutas nem de esforços teóricos. Assim, ela considera preocupante quando feministas não levam a sério teorias lesbianas, gays e queer, fazendo circular o mesmo heterossexismo que pretendem combater. É interessante aqui pensarmos no feminismo lésbico de Wittig como uma resposta ao regulamento hetero|sexista de até então, que excluía lésbicas e os transgêneros. Segundo Butler, se perguntamos a maior parte das feministas se elas estão comprometidas com a crítica ao heterossexismo, elas nos responderiam que sim, mas boa parte das feministas continuam defendo que sempre existiram homens e mulheres (e lembremos que Wittig fez uma crítica valiosa a essas categorias), que a relação entre esses “homens” e “mulheres” (que aliás poderíamos escrever “Homem” e “Mulher”) são uma relação entre dominador/dominante. Os termos aqui acabam por começar e encerrar a discussão, não possibilitando se pensar o gênero além dessa relação.

O feminismo não existe de uma lado e a teoria queer de outro, coloca a filósofa. Para ela

O feminismo não existe de uma lado e a teoria queer de outro, coloca a filósofa. Para ela não existem limites de lutas nem de esforços teóricos entre eles.

02. Há uma diferença entre performatividade e performance de gênero: O gênero não é simplesmente uma performance, um ato teatral que “alguém” simplesmente elege representar. Sem sombra de dúvidas, essa é uma diferença importante para compreender o pensamento de Judith e acredito que a maioria de nós já cometeu um “erro” por aqui. Boa parte da crítica apropriando da noção de performatividade, reduziu-a a uma performance de gênero. Bodies that matter é um esclarecimento a essa confusão. A performatividade, segundo a autora, é o processo global da constituição do gênero, da internalização das normas que se estilizam no corpo e criam um efeito de substância e criam um efeito de “eu” com gênero constante, a performance pode ser uma parte desse processo. Nesse sentido, a performatividade é um conceito que não é nem completamente determinado, nem radicalmente elegido, ela está fora dessa oposição. Butler nos diz que seu ponto de vista não é nenhuma dessas colocações: “ou o gênero está construído e não temos a dizer como vivemos o gênero ou o gênero é radicalmente elegido e podemos fazer o que queremos” (p. 55, tradução minha).

Judith Butler considera que os direitos matrimoniais homossexuais sejam importantes, mas ela sugere também que nós perguntemos: o casamento não deveria ser concedido a todos? A um número maior de duas pessoas que queiram se casar ou entre familiares, por exemplo. E ainda: Queremos estar incluídos apenas nas instituições que já existem? Que outros modos alternativos da vida sexual podemos criar?

Judith Butler considera que os direitos matrimoniais homossexuais sejam importantes, mas ela sugere também que nós perguntemos: o casamento não deveria ser concedido a todos? A um número maior de duas pessoas que queiram se casar ou entre familiares, por exemplo. E ainda: Queremos estar incluídos apenas nas instituições que já existem? Que outros modos alternativos da vida sexual podemos criar?

03. As conquistas matrimoniais do movimento gay são importantes, principalmente por reivindicar o matrimônio não como uma instituição heterossexual. Entretanto, para a autora, o movimento gay não deve se dedicar exclusivamente a concessão de direitos matrimoniais, uma vez que outros temas sexuais de caráter mais radical são deixados de lado e pensemos numa parte da clientela que são deixadas de lado porque não tem relação com as uniões maritais. Claramente, Butler defende que embora essa reivindicação seja importante, ela não deve ser a reivindicação central do movimento gay, e, ainda, mesmo que desconstruindo a instituição da “sagrada família”, os direitos matrimoniais reivindicados pelo movimento retornam a mesmo caráter individualista e da propriedade privada. Ela sugere que nós perguntemos se queremos estar somente incluídos nas instituições que já existem, se o matrimônio gay é um ato radical, o que acontece com as pessoas que estão tentando criar outros modos alternativos da vida sexual, se o casamento não deveria existir para todos, inclusive para um número maior de duas pessoas ou entre familiares.

04. Butler também nos disse que o sexo é um ideal regulatória, não apenas uma condição estática da “pessoa’ e isso parece ter causado muitas confusões, segundo Aliaga. Para Butler, a materialidade do corpo também está marcada por formações discursivas, isso significa, segundo a autora, que o mais material e indiscutível do nosso corpo está também elaborado e interpretado e, portanto estamos falando de construção. Essa, sem sombra de dúvidas, é uma grande sacada da autora ao problematizar a própria materialidade do corpo, já que se entendia, no interior dos estudos feministas, que o corpo era um meio passivo pela qual o gênero agia. Nesse sentido, para ela, o sexo não pode ser nunca uma unidade estática do corpo, mas, ao mesmo tempo material e discursivo, ele é produzido por práticas regulatórias reiterativas que elas próprias produzem performativamente o “sexo”.

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