Mulheres no poder: faz alguma diferença?

No mundo, somos sete bilhões. É garantido que aproximadamente metade pertença ao sexo feminino. Elas, porém, compõem apenas 17,5% de todos os parlamentares, segundo Connell (2009). A baixa representação de mulheres é no mínimo sintomática de uma ordem de gênero que historicamente excluiu as mulheres das esferas de poder, sobretudo públicas. Aumentar a participação das mulheres na vida política é, sem dúvida, um passo essencial para a construção da democracia. Mas é válido nos perguntarmos: no fundo, elas fazem alguma diferença?

Engana-se quem acredita que a presença feminina no poder constituirá, por si só, um pontapé para as mudanças. Ser mulher não significa ser comprometida com causas sociais, estar implicada em uma agenda de transformação, adotar uma postura de esquerda ou, muito menos, ser feminista. Uma mulher no poder pode reproduzir, em todos os pormenores, exatamente o mesmo poder “masculino” que tanto alija a humanidade. Esse poder corrupto, autoritário e destrutivo sob muitos aspectos.

Margaret Thatcher (1925-), ex-primeira ministra do Reino Unido, foi uma liderança forte, uma "dama de ferro", mas que pouco atuou em prol de causas sociais. É um exemplo de liderança feminista? Evidentemente, não.

Margaret Thatcher (1925-), ex-primeira ministra do Reino Unido, foi uma liderança forte, uma “dama de ferro”, mas que pouco atuou em prol de causas sociais. É um exemplo de liderança feminista? Evidentemente, não.

Exemplos não faltam, a menos que se considere um avanço ter uma Margareth Thatcher no poder – que muitos erroneamente consideram “feminista”. Justo ela, a Dama de Ferro, ex-primeira ministra do Reino Unido, que aplicou a cartilha neoliberal, contribuiu para o desmonte do Estado de Bem Estar social, reprimiu severamente as greves operárias e, para os mais chegados à imagem maternal da mulher, cortou a distribuição gratuita de leite para as crianças na escola.

Infelizmente, Thatcher não está sozinha. Hoje, o troféu da “mulher mais poderosa do mundo” vai para Angela Merkel, defensora da aplicação das “medidas de austeridade” na Europa. E há poucos anos presenciamos a atuação de Condoleezza Rice, uma mulher negra que, à frente do governo Bush, esteve diretamente relacionada à invasão do Iraque em 2003. Isso sem mencionar a ultraconservadora Sarah Palin nos Estados Unidos. E, aqui, o que falar da Dilma Rousseff?

Essa noção – um pouco ingênua, mas bastante conservadora – de que as mulheres teriam um algo maternal, uma delicadeza própria, um carinho que lhes é seu, e que tais características configurariam um exercício de poder mais atento às demandas sociais, parte de uma imagem completamente essencialista das mulheres. Primeiro, porque pressupõe que toda mulher compartilha dessa feminilidade, o que é falso. Segundo, porque a política, ou pelo menos o campo político tal como está estruturado, não é lugar para “mamãezinhas”. Lá, para conquistar respeito e se fortalecer politicamente, em algum grau essas mulheres serão verdadeiros “homens de saias”.

Não é o que está inscrito no corpo - no caso, o sexo feminino - que garantirá uma postura feminista. Depende muito mais da consciência política, da agenda e do que está no horizonte daquele grupo ou indivíduo.

Não é o que está inscrito no corpo – no caso, o sexo feminino – que garantirá uma postura feminista. Depende muito mais da consciência política, da agenda e do que está no horizonte daquele grupo ou indivíduo.

Se a forma como o poder é exercido não for questionada, uma mulher a mais, uma mulher a menos, não fará diferença alguma. E isso revela, na verdade, uma postura ambivalente das vertentes mais liberais do feminismo, a saber: a denúncia de um poder que é opressor e sexista a fim de reivindicar, em resposta, o exercício desse mesmo poder (hooks, 2000). Se isto for considerado um avanço, então não sei para onde queremos caminhar.

Dirão, então, que o objetivo de ter mais mulheres no poder é aumentar a representatividade. Pergunto: alguém é capaz de representar alguém? A Dilma, por exemplo, representa todas as mulheres do Brasil? Pode até representar várias, mas provavelmente não as indígenas da tribo Guarani-Kaiowá. Mulheres, há muitas; uma mulher negra, heterossexual, nordestina, estará “representando” uma mulher branca, lésbica, sulista?

Essa representação política não vai depender do que está inscrito no corpo de cada uma. Caso contrário, cairíamos na lógica da auto-representação, na qual cada “diferença” (sexo, etnia, idade, religião etc) deve se representar como tal, o que é inviável do ponto de vista político-jurídico (PIERUCCI, 1999). Em alguma medida, será necessário abstrair das particularidades de cada mulher. Não se representa “a mulher”, porque não existe “a mulher”, existem as mulheres: negras, brancas, indígenas, imigrantes, transexuais, lésbicas, católicas, operárias, burguesas etc, e tudo isso muitas vezes misturado.

A eleição de Dilma Rousseff representou, até agora, um avanço ou retrocesso, um progresso ou um regresso? Dilma, por ser mulher e por ter tido um histórico de atuação na esquerda, pode ainda ser considerada uma líder de esquerda ou, na melhor das hipóteses, uma mulher feminista?

A eleição de Dilma Rousseff representou, até agora, um avanço ou retrocesso, um progresso ou um regresso? Dilma, por ser mulher e por ter tido um histórico de atuação na esquerda, pode ainda ser considerada uma líder de esquerda ou, na melhor das hipóteses, uma mulher feminista?

Se ao colocar uma mulher no poder estamos esperando que ela atenda às nossas expectativas feministas, o mínimo que devemos cobrar dela é uma atuação feminista – o que parece óbvio, e é! Não é o seu sexo que vai definir a que ela serve. É a sua consciência política, sua ideologia, sua postura, sua maneira de agir, seu comprometimento, sua coerência. Tudo aquilo que desejamos de qualquer outro cidadão que almeje cargos políticos.

Até podemos esperar que, por ser mulher, ela esteja mais sintonizada com causas femininas. Não é à toa que elegemos gays, lésbicas ou trans para lutar pela causa LGBT, negros/as para militar pela questão racial, imigrantes para brigar pelos seus direitos e assim por diante. Não é por acaso que a maioria das feministas seja mulheres, ou que a maior parte das pessoas que lutam por uma cidade mais acessível tenha alguma proximidade com deficientes físicos. A experiência, nesses casos, tem um papel de peso – ou ao menos é nisso que queremos acreditar. Só não podemos torná-la irredutível, transformando-a numa essência daquele sujeito.

O que faz com que existam mulheres fortes, corajosas e combativas – que alçaram ou não posições oficiais de poder – certamente não depende apenas da presença de um corpo feminino. Se elas farão ou não diferença, dentro do que entendemos como avanços sociais e políticos, caberá a outros fatores que não os seus ovários. Depende não só do contexto no qual elas se inserem, como também de qual agenda está no seu horizonte. E que todas as mulheres feministas, obtendo ou não resultados, sirvam de inspiração para novas mulheres e homens, pois fazer a diferença depende sempre de um esforço coletivo.

6 comentários
  1. eu só discordo numa coisa: a representatividade figurativa, numérica, sei lá, faz diferença sim, ao servir de modelo, ao mostrar para as mulheres que elas podem ambicionar aquele cargo, e aos homens que aquele ali também é lugar de mulher. a thatcher pode ter mil defeitos, concordo, mas tenho certeza de que, de alguma forma, ela contribuiu para que meninas (brancas e de classe media, é verdade) crescessem com a noção de que estar no poder é algo possível. idem para as outras governantes citadas. elas nao sao feministas, mas nao posso concordar que tanto faz se é homem ou mulher, q nao faz diferença.

    e também acho que quando a mídia e os militantes de esquerda se dedicam tanto a surrar a única governante do país, enquanto enalteciam a gestão anterior q era muito parecida, é algo sintomático. e nem falo dos diversos xingamentos claramente sexistas sobre a presidenta (gorda, lesbica, feia, velha, mal comida, homem de saias), mas a simples cobrança excessiva, como se ela tivesse o dever de dar o exemplo, de ser melhor q os homens q a antecederam, de nao poder falhar, de nao poder ser humana. ora, quantos homens q foram pessimos gestores ja nao tivemos? dezenas. a inglaterra e a alemanha idem. nao é estranho que a bitch mais famosa do mundo seja a thatcher? q ela seja o judas preferido da esquerda, o icone neoliberal a ser malhado? quer dizer entao q os outros caras do partido dela foram “menos piores”? eu nao acredito nisso.

    a sarah palin é tao escrota quanto os outros republicanos q concorreram com ela, um pior q o outro, fica ate dificil decidir quem é o pior. mas quem foi que apanhou mais? qual nome ficou mais famoso negativamente? quem ganhou mais caricaturas e cobertura negativa da midia? ela e a hilary foram alvo de chacota para os homens rirem. a propria insistencia em compara-las (*cat fight*) é desrespeitosa pq nao eram duas mulheres competindo entre elas, elas estavam competindo com os outros candidatos, todos homens

    • Maria Luiza, adorei o seu comentário, pra começo de conversa. Rico, bem fundamentado, respeitoso, enfim, tudo que eu quero numa crítica favorável ou contra a minha opinião.

      Estou de acordo, sem dúvida, de que a presença de mulheres no poder pode servir de inspiração, de referência simbólica, para outras. Esse é um dos motivos de eu defender as cotas raciais: ver os negros tomando postos de poder, ainda que isso não signifique uma mudança estrutural do sistema. Só tomar cuidado – e sei que não é seu caso – para não reduzir isso num horizonte liberal, incapaz de enxergar adiante. Como se o problema fosse o “preconceito”, assim, descolado, a mera referência negativa, os símbolos que não favorecem as mulheres no poder. Enfim, todas/os sabemos que é mais que isso.

      Porém, o que essa referência simbólica terá, como resultado, no exercício de poder da mulher que alçou tal cargo é que é mais questionável. O que você colocou se aplica às outras mulheres, aquelas que não estão no poder, mas, a meu ver, não é crucial para a atuação de uma determinada mulher num cargo político.

      E, não sei, não vejo tal cobrança excessiva por parte dos militantes de esquerda. Vejo-os ridicularizando tantos homens no poder também. Ignoro os machistas que criticavam a Dilma ou a Hilary, até porque não os consideraria de esquerda. Mas, quantas críticas já não chovem sobre FHC (inclusive como ícone neoliberal brasileiro), Bush, Obama, Hitler, Mussolini, Stálin, Mao, Tony Blair, Sarkozy. Todos homens. A meu ver, a malhação é forte sobre eles, assim como o é sobre mulheres como Merkel, Thatcher e Palin. Eu, particularmente, adoro tirar sarro dos republicanos estadunidenses, em sua maioria, homens.

      Agora, sobre falhar, ser humana. Ué, ninguém aqui está considerando que um(a) governante vai fazer milagre. Como explicitei no texto, dependa da conjuntura, do contexto etc. Mas, é perfeitamente possível criticar uma primeira ministra como a Thatcher, que não foi simplesmente uma mulher “que errou”, mas uma pessoa pouco comprometida com causas sociais ‘a priori’. Posso falar mal do Sarkozy, se quiser, mas nesse texto meu foco esteve nas mulheres justamente para desmistificar a crença de que mulher no poder é mudança imediata. Já vi um vídeo da Isabel Allende falando: “querem mudar o mundo? dêem o poder às mulheres!”, seguido de um show de essencialismos supostamente feministas. Justo aqueles que já foram enterrados com o “feminismo da diferença”, graças a deus!

      Com relação ao ícone neoliberal malhado. Bem… Thatcher está no panteão com Pinochet (homem), orientado pelos Chicago Boys (homens), e o Reagan (homem). Aliás, o neoliberalismo, se é possível estabelecer uma origem e referir-se a ele no singular, teria origem em, quiçá, Hayek (homem). Ao criticar Thatcher e a cartilha neoliberal, há tantos homens para se mirar também…

      Acho muito precioso o seu comentário e chama a atenção para algo de fato importante. Mas não acho que o retrato descrito por você corresponde tanto ao que se vê efetivamente. Não pelo menos do meu ponto de vista.

      Obrigado!

      Abraços!

      • oioi, brigada pela resposta! eu realmente não conhecia esse posicionamento da isabel allende, nao concordo com ele. nao voto numa mulher só por ser mulher, voto em homens que defendam oq eu acredito tb (vide as ultimas eleiçoes, em q votei no freixo, nao na aspasia).

        e, bom… talvez seja pelas pessoas q eu vejo na internet, sejam governistas ou nao, que vivem comparando lula e dilma, atenuando os defeitos dele (q fez piadinha homofobica, por exemplo, mas foi perdoado pelo carisma) em detrimento dela, pedindo pela volta dele em 2014, quando o caminho mais “natural/esperado” seria tentar a reeleiçao. isso ocorre mesmo entre feministas, entre o movimento lgbt, etc. ainda to tentando enxergar onde o lula foi taaaao melhor assim q a dilma, entao até lá continuarei estranhando. alem disso, acho sim estranho compararem um governo de 8 anos com um q está na metade do mandato (e recebe mtas criticas vazias desde o primeiro ano do naipe “nunca mais voto nessa mulher, volta lula”).

        vc diz q nao os consideraria de esquerda, mas é assim q eles se veem e sao vistos. ha muito machismo na “esquerda” e isso afasta as mulheres da politica. sei q nao preciso te dizer isso ja q vc esta justamente desenvolvendo o tema, sobre como é dificil ser de esquerda e abraçar todas as lutas. gostei mto do ultimo post e estou aguardando os proximos.

        beijos

        • Nossa, estou por fora militância do PT mesmo. Não sabia dessa nostalgia pelo Lula em detrimento da Dilma. De fato, não vejo muita diferença entre ela e ele. Até porque me parece que a Dilma está bem “assessorada” por ele.

          Olha, eu acho que o Lula sumir da política seria um avanço pro país. Mas com uma Dilma e toda a cúpula petista, não me parece positivo. Bem, isso porque, percebe-se, não sou petista. Um amigo meu deu a melhor definição do PT que eu já vi: “o melhor gestor do capital que o Brasil já teve!”. Ai, a falta de alternativas, mais radicais (por favor!), é triste…

          Ser de esquerda é difícil mesmo… rsrs!

      • Thaís disse:

        Queria pontuar que acredito que você já tenha assistido o documentário “Miss representation” e ele mostra como a zombaria de mulheres políticas é bem diferente da dos homens políticos.

        Não acho que uma governante simplesmente ser mulher basta, se não houver preocupação por parte dela pras causas sociais. Mas é fato que a representação feminina no poder é pequena por causa de machismo e lutar por mais representação é buscar destruir essa cultura de divisão de espaços femininos e espaços masculinos.

        Eu não curto essa idéia de votar em mulher por causa de endeusamento do gênero, mas acho que optar por votar em mulheres que lutam pelas causas sociais e tem um posicionamento político parecido com o meu no lugar de votar num homem que também luta pelas causas sociais é válido, porque é justamente tentar contribuir para o simbolismo de uma mulher no poder, pra quebrar essa idéia de que mulheres devem se manter em seus papéis pre-definidos culturalmente.

        • Oi Thaís,

          Obrigado pela indicação do documentário. Acho que nunca ouvi falar dele, na real. Vou procurar saber.

          Sim, concordo que a pequena participação (no sentido de ocupar tais cargos) das mulheres na vida política é, sem dúvida, um sintoma de uma ordem machista a respeito das separações das esferas masculinas e femininas na vida pública e privada.

          Olha, eu adoraria votar em mulheres que defendessem causas com as quais eu concordo. Porém, até hoje nunca estive nessa encruzilhada entre votar em uma mulher que eu acredito ou num homem. Talvez, eu decidiria com base no histórico da/o candidata/o, seu partido, sua postura, enfim. Dificilmente ele e ela seriam similares a ponto de o gênero ser o determinante. Mas, claro, acho positivo que existam mulheres no poder ou em cargos de liderança, até para quebrar a ideia de que quem manda é o homem.

          Abraços!

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: