Rostos e mídia: uma (re)introdução

2011|2012: anos de protestos em diversas regiões do mundo.

2011|2012: anos de protestos em diversas regiões do mundo.

Os últimos textos do Adriano Senkevics para o “Ensaios de Gênero” nos chamaram a atenção para a série de movimentos que eclodiram em 2011 e que continuaram a eclodir ou se estenderam a 2012, marcando definitivamente o início dessa década como uma “década de protestos, revoltas e revoluções”: Primavera Árabe, Occupy Wall Street, greve estudantil chilena, os indignados da Espanha e outras mobilizações entre as quais nos poderíamos incluir os protestos nos subúrbios do Reino Unido, os ataques na Noruega por parte de Breivik etc. Mas, é claro, assim como Senkevics, não poderíamos deixar de acrescentar alguns acontecimentos no Brasil, como os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus em Teresina (PI), a Marcha da Maconha em São Paulo (SP), a entrada da tropa de choque na Universidade de São Paulo (USP) para deter uma mobilização estudantil, a desocupação da comunidade do Pinheirinho em São José dos Campos (SP), a operação da Cracolândia também em São Paulo, as greves das mais de 50 universidades federais, sendo que muitas delas chegaram a um período recorde de greve em sua história, e também, o conflito dos índios Guarani Kaiowá com fazendeiros do Mato Grosso do Sul (MS).

Em certo momento, para responder o que esses movimentos têm em comum, Adriano nos diz que é a mobilização pela internet, lugares alternativos e não através das empresas de comunicação, a grande mídia, que acabam por ocultar e desviar nossos olhos desses movimentos. Facebook, Twitter, são algumas das redes sociais pelas quais se organizam e divulgam esses acontecimentos, ou ainda, jornais alternativos, blogs, todos eles democratizando a informação. Isso me lembra Sobre os rostos que a mídia nos oferece: uma questão entre representação e humanização, texto que escrevi para esse blog analisando como quem pode ser representado tem mais condições de alcançar a inteligibilidade do “humano” propriamente dito e aqueles rostos não representados se tornam desumanizados, ainda, como os rostos que a mídia nos oferece representam eles próprios a ideia que deveriam exprimir, bloqueando nossa vulnerabilidade a precariedade do Outro. Nesse sentido, uma série de questões que eu considero sempre importantes retomar são: Como opera a mídia na democratização da informação? Quem estão representados e quem não estão na grande mídia? Como ela pode nos desviar da alteridade e precariedade do Outro?

O que a mídia nos mostrou dos

O que a mídia nos mostrou dos acontecimentos como a Primavera Árabe, Occupy Wall Street, a greve estudantil chilena, os indignados da Espanha e outras mobilizações entre as quais nos poderíamos incluir os protestos nos subúrbios do Reino Unido, os ataques na Noruega por parte de Breivik etc?

Em Judith Butler (2011), os rostos midiáticos impedem a identificação com o rosto encontrado no pensamento de Emannuel Lévinas, e, portanto, com a chamada à alteridade, à alteridade do Outro, do próprio Eu, da precariedade da vida. Assim, usando do exemplo da autora, os rostos nus de mulheres afegãs estampadas no New York Times exprimem orgulhosamente o progresso cultural americano e nós não podemos em momento algum nos identificar com a precariedade dessas mulheres sem suas burcas, que, aliás, pelos importantes significados culturais, a burca é imprescindível para a agência feminista no Afeganistão. E, é claro, os rostos representados ou representam um ideal dominante (o imperialismo cultural, por exemplo) ou os próprios rostos dominantes (soldados americanos representando o triunfo militar americano, a tropa de choque representado o triunfo militar brasileiro, por exemplo). Logo, os rostos nus das mulheres afegãs não nos captura, não nos chama à precariedade do Outro, à própria precariedade da vida, nós não escutamos no sentido levinasiano o som agonizante do chamado do Outro, sendo que esses rostos se tornaram a personificação do próprio progresso cultural americano, assim como o rosto de Bin Laden é uma personificação do terror, o de Arafat do engano e o de Saddam Hussein o da tirania contemporânea.

Mas, a mídia não nos promete oferecer tudo? Talvez nos estejamos aqui no campo do que Žižek considera como a relação entre prazer e gozo, porque, se pensamos bem, a mídia, isto é, a mídia dominante, promete oferecer tudo, o gozo, quando na verdade ela oferece o vazio, o prazer, a coisa-em-si esvaziada de seu significado, usurpando o lugar da totalidade, não o seu real. Aliás, em O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Žižek começa retomando uma expressão persa, war nam nihadan, que significa “matar uma pessoa, enterrar o corpo dela e plantar flores sobre a cova para escondê-la”, para nos dizer que a (re)ação predominante da mídia frente aos eventos da Primavera Árabe a Occupy Wall Street, os protestos nos subúrbios do Reino Unido à Breivik, foram uma (re)ação war nam nihadan. Em outras palavras, a mídia matou o potencial emancipatório radical desses eventos, enterrando-o e plantando flores sobre o cadáver enterrado.

Os índios Guarani Kaiowá  se tornaram vidas impensáveis, impossíveis de serem lamentadas pela mídia?

Os índios Guarani Kaiowá se tornaram vidas impensáveis, impossíveis de serem lamentadas?

Dando uma palhinha ao que podemos acrescentar nessa longa discussão, Butler em Violencia de Estado, guerra, resistencia. Por una nueva política de la izquierda (2011) questiona como as câmeras podem na Guerra, fazer guerra ou ser parte da ação de guerra. De fato, pois, ao pensar nos instrumentos materiais da guerra podemos pensar nas câmeras fotográficas, filmadoras, entretanto, parece difícil dizer que elas poderiam fazer guerra ou operar no interior da ação de guerra. Apesar de tudo, é nossa obrigação nos perguntarmos, como sugere a autora: O que acontece se os instrumentos mesmo adquirem uma agência própria e as pessoas se transformam simplesmente em extensões desses instrumentos? É claro, nós sabemos que os próprios objetos tecnológicos são donos de um discurso desconstrutivo, como o dildo, operando a lógica do suplemento e invertendo as posições tidas como “originais”. As câmeras parecem passar como um artefato tecnológico que nunca faz guerra, que apenas registra a guerra, mas elas não podem ser donas de um discurso próprio? Elas não podem desde sempre executar a própria agência na guerra? Além do mais, se as fotos nuas das mulheres afegãs ocultou o grito do Outro, essas imagens, possibilitadas pelas câmeras, não abrem as possibilidades de se violentar o Outro? A não identificação com o rosto ético do Outro não é sempre o ponto da condição para a violência?

Definitivamente, em 2012 nós não nos identificamos com a precariedade dos estudantes da USP, mas seus rostos representaram o tráfico de drogas e a “baderna” estudantil; não nos identificamos com a precariedade dos rostos da comunidade do Pinheirinho, nem dos professores em greve, porque as ausências dos seus rostos representam aqueles campos desumanizados da sociedade; os rostos da Cracolândia foram uma representação do triunfo militar contra as drogas e os rostos também ausentes dos índios Guarani Kaiowá representaram aqueles cujas vidas se tornaram impensáveis. Particularmente, esses últimos rostos, que acumulam um número considerável de mortes, se encaixam com essa categoria que Butler concede como o impensável e o indiscutível, vidas precárias ocultas que se tornaram impensáveis, bloqueadas ao lamento.

Mas, como então pensar a mídia e a representação da alteridade? É possível exibir o rosto no sentido encontrado em Lévinas? Onde está o som agonizante do Outro, sua demanda ética sobre nós, seu discurso violento do qual não podemos evitar? Essas são questões fecundas para 2013, questões para que pensemos as consequências filosóficas e políticas da representação, do campo visual e do estabelecimento do humano, das faces que são apresentadas como dignas de lamento e daquelas que se tornaram elas próprias impensáveis. Pensemos!

3 comentários
  1. Muito interessante! Mais uma rica reflexão sobre as representações.

    Só uma correção: é comunidade do Pinheirinho, no diminutivo. Tal diminuto quanto o status que foi dado aquelas pessoas. Seus rostos inexistiram. Essa talvez tenha sido a maior tragédia de 2012 no Brasil, apoiada pela prefeitura de São José dos Campos e pelo ilustríssimo governador Alckmin.

    Abraços!

    • Oi, Adriano, muito obrigado.

      Espero poder contribuir e crescer cada vez mais com esse blog que tanto tem me ensinado e me demandado responder as questões contemporâneas.
      Quanto ao erro, juro que nem havia percebido que tinha colocado “Pinheiro” ao invés de “Pinheirinho” e como você esclareceu faz toda diferença. Corrigido, rs! Obrigado.

      Abraços afetuosos e feliz 2013!

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