Alguns dos desafios globais para o século XXI

Enquanto o século XX foi considerado por muitos o “século americano” – denominação imprecisa, sobretudo se considerarmos o peso de outras forças, como o fascismo e as revoluções comunistas, além da derrota estadunidense no Vietnã – ainda estão para serem delineadas as tendências do século XXI. É inegável, porém, que ainda estejamos vivendo sob a hegemonia dos Estados Unidos e das indigestas relações globais que orbitam ao redor dessa superpotência.

Uma das principais marcas do regime capitalista é o potencial militar, muito mais destrutivo do que em qualquer outra era.

Uma das principais marcas do regime capitalista é o potencial militar, muito mais destrutivo do que em qualquer outra era.

Se fôssemos fazer uma lista das principais problemáticas do século XXI, certamente teríamos que citar o grande potencial destrutivo que alguns países, como EUA e Rússia, detêm. Uma eventual terceira guerra mundial não mataria alguns milhões. Mataria todos. Trata-se de um absurdo da humanidade permitir que tais nações detenham tamanho poder. Neste sentido, não deixa de ser hipócrita denunciarmos as armas de destruição em massa sendo produzidas no Irã e na Coréia do Norte, verdadeiros bodes expiatórios (para não falar no Iraque, já desmentido), enquanto não se questiona, em nenhum momento, o potencial nuclear norte-americano.

Seguir adiante com essa crítica nos levaria à tentativa de desarmar os Estados Unidos, o que é inviável enquanto persistir um sistema no qual esse país é peça chave para sua manutenção. Igualmente falho é esperar que órgãos supranacionais, tais como a ONU, FMI, OMC ou Banco Mundial se encarreguem de algo nesse sentido. Não da forma como funcionam atualmente. Cada vez mais se torna patente a crítica à estrutura antidemocrática desses órgãos (lembremo-nos da brilhante fala de José Saramago no Fórum Social Mundial, 2005). Penso, no entanto, que avanços substanciais só ocorrerão quando obtivermos maior sucesso na formação de “Governos Mundiais”.

István Mészáros (1930-), filósofo húngaro, aponta que vivemos a fase potencialmente fatal do "imperialismo hegemônico global".

István Mészáros (1930-), filósofo húngaro, aponta que vivemos a fase potencialmente fatal do “imperialismo hegemônico global”.

Isso porque, como nos destaca o húngaro István Mészáros (2003), uma das principais contradições do sistema do capital (ou capitalismo, para os íntimos) é a promessa de um sistema universalizante, do qual todos os países participariam e se beneficiariam no curso do seu desenvolvimento, ao passo que as relações nacionais e internacionais são absolutamente hierarquizadas, na qual o trabalho, em suas distintas dimensões, é subjugado à lógica do capital.

Ainda, persiste a contradição, evidenciada por André Comte-Sponville (2005) de que as determinações econômicas do sistema acontecem em âmbito global, haja vista que a fase atual do capitalismo depende mais do que nunca das relações internacionais, enquanto as tomadas de decisões, por parte do poder público dos Estados-nação, se restringem basicamente aos territórios nacionais. Com exceção de países que desempenham papeis centrais, como os EUA, a França e a Alemanha, o que configura um sistema, convenhamos, injusto e com pouca ou nenhuma possibilidade de inclusão e participação de todos os países, nações e, em última instância, de todos os povos.

A farsa democrática do Ocidente tem sido desmascarada, entre outras, pelos movimentos Occupy que agitaram as ruas dos EUA nos últimos dois anos.

A farsa democrática do Ocidente tem sido desmascarada, entre outras, pelos movimentos Occupy que agitaram as ruas dos EUA nos últimos dois anos.

É, em parte, o que vivemos no “mundo ocidental”. O discurso norte-americano critica Cuba, por exemplo, por ser um regime “antidemocrático”, “autoritário”, “desumano”. Sem querer discutir por ora o regime cubano, tais acusações contradizem o fato de que o apoio às ditaduras é uma tradição dos ilustres governantes dos Estados Unidos. Exemplos? Pinochet (Chile), Marcos (Filipinas), Suharto (Indonésia), regime militar brasileiro, entre outros. E as críticas não vêm apenas de fora: neste blog, temos dado destaque à visibilidade dos movimentos Occupy, gestados no interior dos próprios EUA e que desmascararam nos últimos dois anos as farsas de uma democracia amputada pelos interesses capitalistas.

Longe de estarmos no “fim da história”, como erroneamente previu Francis Fukuyama para dizer que a esquerda mundial havia morrido com o muro de Berlim, a história está viva à nossa frente. Porque, além dos tradicionais desafios que se colocam no século XXI – o respeito aos direitos humanos, a valorização da diversidade cultural e humana, o fim da exploração da mão de obra etc – temos a problemática de um mundo armado até os dentes com armas de destruição em massa, além da iminente degradação ambiental que se projeta nas esteiras da produção econômica.

Uma governança global que seja estruturada por uma democracia real e efetiva é um passo essencial para a manutenção de um sistema socialista global, justo e igualitário.

Uma governança global que seja estruturada por uma democracia real e efetiva é um passo essencial para a manutenção de um sistema socialista global, justo e igualitário.

As lutas se intensificam, se pluralizam e, nisso, se tornam diversas – hoje não é mais viável sustentar uma visão marxista dogmática, acreditando que a “revolução” (posto assim soa até místico) será a solução para todos os problemas. Mas não podemos perder de vista que nosso grande desafio para o século XXI é, sim, a superação do capitalismo aliada à inclusão de pautas que reflitam a multiplicidade de demandas e interesses sociais: pós-colonialismo, etnicidades, feminismo, inclusão da população com necessidades especiais e assim por diante.

É necessário, assim, que movimentos radicais de massa – radicais nas ideias, mas pacifistas por excelência – sejam capazes de derrubar monopólios, interromper a acumulação de capital, extinguir a noção de lucro, abolir a propriedade privada dos meios de produção e instaurar um regime global de governo que atenda democraticamente a quem o componha. Que o povo tenha, de fato, voz. Essas alternativas podem não solucionar os problemas, mas certamente nos colocarão desafios novos que já teriam eliminado questões cruciais para a humanidade como o trabalho escravo e a intensa desigualdade de renda.

Inspirado em Mészáros (2003), afirmo que, para o muito que nos resta do século XXI, ou caminhamos para um sistema radicalmente justo e igualitário (talvez uma nova forma de socialismo) ou continuaremos conhecendo o pior da atual fase capitalista, com todo seu potencial militar e nuclear, com toda sua hegemonia cultural e destruição ambiental, com todas as suas reformas neoliberais, com todos os impulsos de uma democracia falsa e sufocante. Em suma, caminharíamos para a barbárie.

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