O que é ser de direita e ser de esquerda?

Há quem diga que não há mais diferença entre a direita e a esquerda, bem como que a clássica distinção política entre esses dois polos já não faz mais sentido. Bobagem. Que as direitas e as esquerdas sempre foram múltiplas, disso nunca se teve dúvida. Isso, no entanto, jamais anulou a importância de tal divisão. A grande dificuldade, talvez, seja precisar do que estamos falando ao nos referir à direita ou à esquerda.

Em sua popular obra intitulada Direita e esquerda (2001), Norberto Bobbio destaca que, embora existam controvérsias entre as definições do que seria um pensamento de direita ou de esquerda, essas duas grandes tendências continuam sendo evocadas no debate político contemporâneo. Alguma coisa elas estão dizendo, portanto, e para alguma utilidade ainda servem. Vamos nos enfurnar nisso para, iniciando neste curto texto, procurar responder a pergunta do título.

Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo italiano, estudou as razões e significados da distinção política entre direita e esquerda a partir de intensos diálogos com autores italianos.

Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo italiano, estudou as razões e significados da distinção política entre direita e esquerda a partir de intensos diálogos com autores italianos.

O primeiro passo seria dizer que as esquerdas e as direitas se diferem, sobretudo, nas pautas defendidas. No Brasil, o sufrágio universal, a legalização do aborto e a reforma agrária, por exemplo, são bandeiras historicamente de esquerda. A direita, por outro lado, se ocupou do programa de privatizações e esteve, evidentemente, por trás do regime militar. Mas, calma lá, a direita que sustentou a ditadura não é mesma direita que operou as reformas neoliberais da década de 90. Entre a esquerda também não há tal unidade. A legalização das drogas (mais do que a maconha em si), por exemplo, é um tema que tem ganhado maior foco, mas de longe não é consensual.

Se reduzirmos a distinção entre direita e esquerda às suas bandeiras, cairemos em muitas contradições. A revista Veja, a título de ilustração, já trouxe matérias afirmando direitos e conquistas LGBT, ao mesmo tempo em que publicou o famigerado texto das cabras e espinafres. Ainda que essa revista tenha uma ou outra posição progressista, dizer que são posições de esquerda é, para falar o mínimo, indigesto.

Poderíamos pensar que o xis da questão não está nas bandeiras em si, mas na meta, nos objetivos, nos fins defendidos por cada tendência. Assim, ambas podem defender o casamento igualitário, mas vislumbram a inserção da população LGBT diferentemente na sociedade. As pautas caminham (felizmente!), a tal ponto de que hoje, no Brasil, seria um absurdo alguém defender o fim do direito ao voto para as mulheres. No entanto, há muitas outras bandeiras levantadas pelas feministas que questionam outros aspectos da sociedade.

Diretas Já: os protestos pelas eleições diretas foram, sem dúvida, uma bandeira importante da esquerda que lutou contra a ditadura. Mas, com a derrubada do regime militar, outras direitas ocuparam posições dentro do jogo democrático sem representar, necessariamente, um retrocesso à ditadura.

Diretas Já: os protestos pelas eleições diretas foram, sem dúvida, uma bandeira importante da esquerda que lutou contra a ditadura. Mas, com a derrubada do regime militar, outras direitas ocuparam posições dentro do jogo democrático sem representar, necessariamente, um retrocesso à ditadura.

O grande problema é: será que a esquerda ou a direita sabem o que elas querem? Uma vez que discutimos com base naquilo que, no nosso contexto, faz sentido, não podemos prever quais outras pautas serão importantes daqui a 50 anos. Também não sabemos que problemas serão colocados. Um ótimo exemplo é a problemática ambiental. Há 30 anos, praticamente inexistia. Hoje, tem uma relevância ímpar. E, para complicar, é incorporada tanto pela direita quanto pela esquerda.

Quais são os principais aspectos, portanto, que diferem as duas tendências? Arriscaria dizer que estão menos relacionados com as bandeiras em si e muito mais com o que está na base do pensamento político de cada uma: quais são os valores, as premissas e os princípios que norteiam a teoria e prática da direita e esquerda. As bandeiras e os fins talvez sejam uma decorrência desses princípios adotados.

Nesse caso, o/a leitor/a poderia muito bem questionar: então quais são esses princípios, valores e premissas? Bem, isso é que vamos explorar nos próximos textos. Esse foi apenas uma introdução. A partir de discussões estimuladas por questões pontuais, vamos construindo, juntos, uma reflexão sobre os significados – se há algum de fato – da distinção política entre direita e esquerda.

4 comentários
  1. Oi Adriano,

    Vou procurar abordar alguns pontos referentes a discussão:

    Creio que o uso político dos termos esquerda e direita, teve uma possível origem na Revolução Francesa, em 1789, quando os liberais girondinos e os extremistas jacobinos sentaram-se respectivamente à direita e à esquerda no salão da Assembléia Nacional. Assim como você citou a a esquerda e direita variam historicamente, de época pra época, possuindo diversas vertentes e propostas.

    Antes do seu post, podemos buscar entender tais posicionamentos através de uma perspectiva partidária, que tal qual conhecemos hoje, passou a estar presente a partir do século XIX, onde a defesa dos interesses particulares de um grupo ou classe, busca convencer que determinada ideologia é universal. Para conseguir a vitória o partido (seja de viés de esquerda ou direita) deve demonstrar esse interesse particular como um projeto de interesse geral da sociedade. O partido é então marcado pela sua função ideológica.

    Talvez, aquilo que entendi pelo seu post e que busco problematizar é de que: uma vertente de direita, enfatiza mais o individuo, enquanto o partido de esquerda tem como substrato dar maior ênfase no coletivo ? Então para Bobbio só a esquerda pode apresentar um projeto social ?

    Atualmente sabemos que tais posicionamentos não está mais limitado a questões partidárias, pois os mesmos estão em crise e que a sociedade civil atuante, muitas vezes, assume o papel reivindicatório sem no entanto possuir qualquer vinculação institucional partidária, conforme foi visto no seu artigo : O que esperar dos indignados e dos ocupas.

    Abraços.

    • Oi Inã,

      Sobre a origem dos termos esquerda e direita, é exatamente isso que eu também leio e escuto por aí: que foi uma designação dada àqueles que se sentavam à direita e à esquerda nas assembleias após a Revolução Francesa. Me parece que a questão partidária não é central para definição de direita e esquerda. Trata-se, por outro lado, muito mais de uma possível forma de mobilização e organização de demandas de determinados setores do que propriamente o componente de uma ideologia.

      Então, a respeito da direita e da esquerda se diferenciarem quanto ao partido, sobre atender um interesse individual ou coletivo, responderia que de forma alguma. Não vejo por aí, não. Bobbio tampouco afirma isso. Se nós pensarmos em vertentes e movimentos como o nazismo, fascismo, neoliberalismo etc, todas elas apresentam projetos de sociedade, envolvem questões de interesse coletivo (ainda que um coletivo muito particular: os arianos, os empresários etc e frequentemente visando pioras para outros grupos, como o aumento das desigualdades ou mesmo a eugenia).

      Podemos até afirmar que a esquerda possui uma ênfase no coletivo, no sentido que prioriza o social sobre os interesses individuais (exceto no caso dos anarcoindividualismos, talvez). É o que tem demonstrado os socialismos (incluindo a social-democracia), o anarcocoletivismo e outros. Porém, essa ênfase no coletivo parte muito mais de princípios que a esquerda adota, que discutiremos nos próximos textos, do que propriamente de sua forma de organização partidária. Entende?

      Ambos podem se organizar em partidos, mas as posturas adotadas pelos partidos de esquerda ou de direita podem ser mais ou menos coletivistas, dependendo dos valores, ideologias e princípios que os direcionam.

      Espero aprofundar mais neste ponto adiante.

      Um abraço! E obrigado pelo comentário.

  2. Está certo. Por você apenas ter introduzido o post, fiquei com muitas dúvidas e acabei gerando algumas confusões, principalmente a respeito de Noberto Bobbio (autor que pouco conheço).

    Mesmo assim, aguardo os próximos posts.

    Grato.

  3. Munhoz disse:

    É, Adriano, você abriu uma discussão, no mínimo, polêmica e, no limite, infindável. Creio que esse livro do Bobbio não seja suficiente para responder essa questão, pois se esquiva das definições mais gerais (por esperteza). O autor diz não estar preocupado em localizar uma e outra posição num contexto mais amplo, mas o livro, salvo engano, foi escrito para um determinado momento específico de disputa eleitoral na Europa, sobre o qual o italiano se propôs a escrever um ensaio que, embora pareça servir para qualquer tipo de análise das tendências políticas, norteasse o público na confusão que havia na “mistura” de propostas.

    Atualmente é difícil sinalizar quem é de que lado (se ficarmos dentro da política institucional), sobretudo no Brasil, onde o Partido dos Trabalhadores que está no “poder político” há dez anos (que a maioria chama de esquerda), apesar de colocar em pauta os programas sociais, seguiu a mesma linha de política econômica do período psdbista (neoliberalismo), localizado como de direita. Essas classificações só funcionam, me parece, a curto tempo e em espaços sociais bem delimitados. Por exemplo, na contemporaneidade, na França o liberal é considerado de direita e nos EUA de esquerda. Por outro lado, se aqui no Brasil não teríamos dúvidas de que o anarquista é de esquerda, nos EUA é visto (por muitos) como de uma extrema-direita, partindo do suposto de quanto menos intervenção do Estado houver mais de direita é a tendência. Portanto, os socialismos comunistas ou os totalistarismos (nazismo e fascismo) são de extrema-esquerda porque há bastante intervenção do Estado. Há ainda a divisão entre liberais e conservadores, que no entender do marxismo pouca diferença faz, pois ambos seriam de direita. A própria subjetividade política de Norberto Bobbio é questionada neste sentido (seria ele de esquerda ou de direita?), pois depende da perspectiva de quem o analisa e a partir de qual base de sustenção teórica isso é feito, por outro lado, ele também ao escrever (sobre direita e esquerda) também precisa explicitar quais critérios utiliza para tal. Estou curioso para ver a continuidade do seu texto.

    Abraços,
    Munhoz

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