É estupidamente fácil ser de direita

Olhe para a sociedade: tudo é diferente. As pessoas são bastante diferentes, ou alguém tem dúvida disso? As cores de pele são diferentes, os comportamentos são diferentes, as religiões são diferentes, as culturas são diferentes, os sexos são diferentes. Brasileiros são diferentes de japoneses, gaúchos são diferentes de cearenses, paulistanos são diferentes de cariocas. Empiricamente, as coisas se diferem entre si. Todos somos capazes de reconhecer essas diferenças, não?

As diferenças. Mas... quais diferenças importam? a que atribuímos tais diferenças? que ações decorrem do reconhecimento dessas diferenças?

As diferenças. Mas… quais diferenças importam? a que atribuímos tais diferenças? que ações decorrem do reconhecimento dessas diferenças?

O grande desafio – que está no cerne das distinções políticas entre direita e esquerda – é a forma de compreender as diferenças. Quais diferenças importam? A que atribuímos tais diferenças? Que ações decorrem do reconhecimento dessas diferenças? Ao entrar nesse campo minado, percebemos que é muito difícil ser de esquerda, tema que explorarei no próximo texto. Por ora, vou me ater a uma generalização da distinção entre esquerda e direita.

E por que é difícil ser de esquerda? Em primeiro lugar, por uma conclusão lógica, porque é muito fácil ser de direita. A direita, desde sua origem, esteve apegada ao reconhecimento das diferenças e da aceitação de que elas existem para, em seguida, rejeitá-las, segundo Antônio Flávio Pierucci (1999). Não foi o que os escravagistas fizeram com os negros? Ou o que os nazistas fizeram com os judeus? Ou o que a bancada evangélica está tentando fazer com gays, lésbicas e transgêneros?

Ora, se engana quem diz que a direita não afirma a diferença. Ela tanto a afirma que a coloca como central para as suas políticas: se a AIDS se alastra, é porque os gays são promíscuos; se as mulheres são estupradas, é porque elas são descuidadas; se há mendigos na rua, é porque eles são vagabundos; se a cidade está violenta, é porque os nordestinos vieram para cá. Todos esses pensamentos, tão vulgares e supérfluos por excelência, são o reducionismo completo a favor da diferença, do reconhecimento de que elas existem e importam. Mas a “diferença”, aqui, não é utilizada como bandeira do “respeito à diversidade” ou do “direito à diferença”, e sim como um pretexto para a recusa da igualdade, da tolerância e da reciprocidade.

Protestos do churrasco de "gente diferenciada": uma manifestação que satiriza o elitismo empregado por moradores do bairro de Higienópolis, São Paulo.

Protestos do churrasco de “gente diferenciada”: uma manifestação que satiriza o elitismo empregado por moradores do bairro de Higienópolis, São Paulo.

Não é à toa que, quando moradores do rico bairro de Higienópolis em São Paulo quiseram barrar a construção de uma estação de metrô na região, houve quem usasse o argumento de que a obra atrairia “gente diferenciada”. Ué, se isso não é uma celebração – sádica, sem dúvida – da diferença, não sei mais o que possa ser. É justamente por haver pessoas “diferentes” que a elite paulistana não as aceita. Da mesma forma, os espaços frequentados pela elite são seletivos, segregados. A ideia não poderia ser outra senão barrar os “diferentes”.

Pois para o pensamento típico da direita o que importa é aquilo que pode ser percebido, o dado empírico, o concreto. Se for possível constatar, com alguma facilidade, que a criminalidade está associada às populações de baixa renda, então que se dane a discussão do contexto social, da origem da criminalidade, dos direitos humanos. Pobre é ou tende a ser bandido. É simples assim, porque a direita tem repulsa ao pensamento abstrato, às sofisticações da noção de construção sociocultural, de condições sociais historicamente produzidas e tudo que apetece a esquerda, em especial a mais acadêmica ou intelectualizada.

A direita, nesse sentido, trabalha com as diferenças que são percebidas ou imaginadas, sendo que tais diferenças são tratadas como absolutas, porque “naturais” ou “essenciais”. Não que exista a necessidade de provar que elas sejam “naturais”, mas sim uma completa falta de interesse em entender o porquê de tais diferenças. As relações entre travestis e prostituição, negros/as e empregos mal remunerados, pobreza e violência, entre outros, definitivamente não são pautas que mobilizam os esforços políticos da direita, a não ser para destilar mais e mais os venenos do conservadorismo.

Apartheid, na África do Sul, mostra o que acontece quando as diferenças são levadas às suas últimas consequências. De diferenças, tornam-se intensas desigualdades.

Apartheid, na África do Sul, mostra o que acontece quando as diferenças são levadas às suas últimas consequências. De diferenças, tornam-se intensas desigualdades.

Como bem afirma Pierucci (1999), a direita nada com facilidade nas águas da diferença. É ela que toma o partido “daquilo que é”. Considerando que a igualdade social não é uma meta para a direita, é ela, pois, que pode levar a diferença às suas últimas consequências, a ponto de defender regimes de apartheid, eugenia ou genocídio, quando a direita não só afirma a diferença como tem orgulho de ser e permanecer diferente, pura, virgem; de não se misturar.

E quantas vezes a própria esquerda já não foi direita? Pensemos no Fidel Castro enviando homossexuais para os campos de trabalho forçado. Sob certos aspectos, um regime revolucionário; sob outros, absolutamente conservador. É evidente que o debate entre esquerda e direita, em suas entranhas, é muito mais complicado do que essa simplificação em torno da forma de apreensão das diferenças. Difícil pensar em coletivos ou sujeitos que sejam virtuosos em todas as suas posturas e atitudes, até porque os referenciais que armam um olhar de direita ou de esquerda podem ser bastante variáveis. Sem levar em conta que a política, em si, não é um campo para santinhos ou virtuosos…

Quantas vezes a esquerda já não foi direita? O regime de Fidel Castro nos mostra que, apesar de todo o aspecto revolucionário, podem existir fortes resquícios conservadores.

Quantas vezes a esquerda já não foi direita? O regime de Fidel Castro nos mostra que, apesar de todo o aspecto revolucionário, podem coexistir fortes resquícios conservadores (no caso, no tocante à diversidade sexual, pelo menos nos primeiros anos de regime).

Enfim, estão aí algumas razões que nos ajudam a entender por que é tão fácil ser de direita. Ao tomar as diferenças empiricamente observadas ou imaginadas, a direita não se coloca à disposição de discuti-las, a fim de desmistificá-las ou desconstrui-las. Pelo contrário, ela as afirma, e o faz enfaticamente. Reforça o que é diferente entre nós, grupos ou indivíduos. Acentua as nossas diferenças para nos separar. Considera que somos mais desiguais do que iguais, como resume Norberto Bobbio (2001).

É um erro, para concluir, acreditar que direita e esquerda são duas posições simétricas. O pensamento de esquerda depende, necessariamente, de uma compreensão muito mais complexa, sutil, cuidadosa e até ambígua da realidade, fato que torna tão difícil ser de esquerda. Para a direita, não. Além disso, ela prescinde de um intenso trabalho de base: a própria realidade, grosseira como é, já está a seu serviço.

É estupidamente fácil ser de direita porque somos convidados cotidianamente a abraçarmos suas lógicas, premissas e causas. O pulo do gato é não ceder às suas pressões e aceitar, sabendo das dificuldades, o desafio de descortinar um novo universo de possibilidades: aquele para qual um bom militante, ou ao menos um bom curioso, de esquerda está disposto a conhecer.

2 comentários
  1. Antifa disse:

    Bom, colocando um porco fascista estatista como fidel como esquerda, entao deve ser facil ser de esquerda!
    só existe uma esquerda, O SOCIALISMO LIBERTÁRIO, o resto é capitalismo de estado com propaganda progressista.

  2. Advilson Junior disse:

    HITLER era de esquerda e Mussolini também.

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