Ciência: uma vela na escuridão?

Novas tecnologias são desenvolvidas, a medicina avança, os limites da natureza vão sendo cotidianamente desafiados. Esses enunciados aparecem com frequência na mídia. Tudo para dizer uma coisa: a ciência progride e o seu progresso traz melhorias para a humanidade. Com esse raciocínio, dá-se carta branca para que a ciência seja a vela que ilumina a escuridão, como dizia o velho lema “Science is a candle in the dark”. Será?

Esse positivismo, com gostinho de século XIX, persiste apesar de já ter sido demonstrado, por A mais B, que a ciência não é sempre essa entidade da razão, do progresso e da verdade. Basta pensarmos por alguns segundos nas tecnologias que trouxeram perdas irreparáveis para a humanidade: os aviões de guerra, as bombas atômicas, a destruição ambiental. Contudo, ciência não se faz sem política, ainda que ela hesite em assumir isso justamente para dissimular seu caráter eminentemente político.

Em recente ensaio publicado a quatro mãos com um grande amigo e colega da graduação, discutimos o papel que a ciência teve de, historicamente, sustentar posições social e politicamente conservadoras no tocante ao corpo, sexo e gênero (SENKEVICS & POLIDORO, 2012). O artigo completo pode ser encontrado clicando aqui. Neste post, vou apenas trazer alguns debates decorrentes.

O historiador estadunidense Thomas W. Laqueur (1945-) estudou profundamente as concepções médicas que sustentaram posições científicas conservadores sobre sexo e gênero.

O historiador estadunidense Thomas W. Laqueur (1945-) estudou profundamente as concepções médicas que sustentaram posições científicas conservadores sobre sexo e gênero.

No texto, nos referimos, entre outras, às concepções sobre os sexos que foram gestadas pela medicina nos séculos XVIII e XIX, amplamente estudadas por Thomas Laqueur (1990). Esse estudioso mostrou que, até o século XIX, as mulheres eram entendidas como “homens invertidos” e havia até desenhos esquematizando o quanto as genitálias femininas eram inversões, claramente imperfeitas, das masculinas. OK, mas isso já foi há bastante tempo. Vamos falar de algo mais atual…

No terreno da sexualidade, a influência da ciência é ainda mais óbvia. Quem não sabe que a homossexualidade foi considerada doença psicológica até pouco tempo atrás? Ou, pior, que a transexualidade é considerada doença até hoje. Sim, para que uma pessoa transexual possa fazer a cirurgia de readequação sexual (a “transgenitalização”), ela deve possuir um laudo médico atestando um problema mental, especificando que só por meio da operação ela poderia se sentir bem novamente. Seria tão mais fácil se o paciente simplesmente chegasse ao hospital, expusesse seu desejo e, em pouco tempo, fosse atendido, não?

Eventualmente, vejo alguns homofóbicos me dizendo que a retirada da homossexualidade do catálogo de doenças foi uma escolha meramente política. Talvez esse seja o único ponto em que eu concorde com eles. De fato, a homossexualidade não ser considerada mais doença foi uma questão política, tal como a sua classificação enquanto doença. Não há ciência aqui, estamos falando de política. Ou melhor, uma ciência que é, de cima a baixo, atravessada por concepções políticas.

Foi um determinado contexto político que levou a ciência a afirmar a homossexualidade enquanto doença e é outro contexto político que faz a ciência voltar atrás. Isso não é um problema, muito pelo contrário. É positivo que a ciência se revele enquanto uma ferramenta política, pois é isso que ela tem sido desde que foi criada: um instrumento de manutenção de poder. Dúvidas? Basta ler Michel Foucault para tudo isso ficar claro.

João Nery, transehomem brasileiro, é exemplo de transexual que mostra quanto sofrimento tal condição é acometida pelo papel patologizante da ciência.

João Nery, transhomem brasileiro, é exemplo de transexual que mostra quanto sofrimento tal condição é acometida pelo papel patologizante da ciência.

Não estou dizendo que a ciência deva ser eliminada, como se as “verdades” que circulassem no senso comum ou pelas religiões nos fornecessem alternativas viáveis. Frequentemente, não. E é por estar, em tese, isenta de dogmatismos, que a ciência continua sendo nossa melhor ferramenta. O que não podemos é ser tecnicistas, jogando toda a confiança da humanidade no progresso da ciência como se fosse meramente uma questão de experimentos descritos, hipóteses testadas, cientistas neutros, conclusões precisas. Absolutamente, não há neutralidade.

A ciência deve ser vigiada, no sentido político do termo. Como bem descreve André Comte-Sponville (2005), a ciência diz muito bem como fazer um transgênico, mas não se devemos fazer, com quem, quando, onde etc. A isso, cabe o aparato jurídico-político. Acrescentaria, porém, que mesmo o como fazer, o know-how, o savoir-faire da ciência deve ser passível de indagações. Não é porque a ciência diz que transexuais são doentes que eles(as) – sabendo que eles(as) somos nós também – devemos aceitar!

“Trata-se do desafio de nos colocar permanentemente diante de tais questionamentos”, concluímos no artigo (SENKEVICS & POLIDORO, 2012, p. 20), “e repensar uma ciência que esteja a serviço de posicionamentos políticos sintonizados a demandas sociais, essas cada vez mais em pauta: a igualdade de gênero e a diversidade sexual, para citar dois exemplos”.

Se a ciência for considerada uma vela na escuridão, devemos nos recordar que toda luz produz sombra. E a luz do saber científico sempre produziu outras escuridões. É com posições políticas claras e um projeto de sociedade justo, igualitário e digno que podemos iluminar todas as escuridões que se colocam contra nós rotineiramente.

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