É muito difícil ser de esquerda

O que faz alguém ser de esquerda? Ler o volume completo d’O Capital, falar em nome dos “fracos e oprimidos”, deixar a barba crescer, bagunçar nas ruas? Nada disso a define, embora os menos afeitos à esquerda sempre vão arranjar algumas dessas brechas para nos ridicularizar. A questão, felizmente, é muito mais complicada. Ser de esquerda é certamente um ponto difícil de definir, mas principalmente de se exercer. É difícil ser de esquerda.

É inviável definir a esquerda atual simplesmente com base nas suas tradições históricas. Se tomarmos a gênese da distinção política entre direita e esquerda em função da posição em que se sentavam respectivamente os girondinos e os jacobinos nas assembleias francesas após a Revolução, cairíamos numa nostalgia vazia e infeliz. Afinal, não foram os próprios jacobinos que se opuseram à concessão de direitos políticos às mulheres? As épocas são outras e, hoje em dia, que esquerda seria essa?

Pintura ilustrando a Revolução Francesa: a gênese das distinções políticas entre esquerda e direita, embora útil historicamente, já não nos ajuda muito a pensar nas esquerdas contemporâneas. Felizmente.

Pintura ilustrando a Revolução Francesa: a gênese das distinções políticas entre esquerda e direita, embora útil historicamente, já não nos ajuda muito a pensar nas esquerdas contemporâneas. Felizmente.

As distinções entre esquerda e direita vão mudando ao longo do tempo, assim como variam no espaço. A esquerda estadunidense certamente não é a mesma que a esquerda cubana. Se juntas num mesmo salão, poderíamos esperar fortes conflitos políticos, aliás. Esquerdas e direitas se atualizam: incorporam pautas, mudam de prioridade, se compõem de grupos distintos, se originam de fenômenos históricos diversos. É nesse contexto que se torna tão complexo manter um posicionamento de esquerda. Diria, de fato, que são três as razões principais:

Em primeiro lugar, porque a esquerda deve ser principalmente um farol de mudança, ter sempre no seu horizonte as transformações sociais. Seu terreno é movediço. Entra pauta, sai pauta, e a esquerda contemporânea tem que estar de olho nas novas bandeiras que se levantam, sobretudo nesses tempos posteriores aos “novos movimentos sociais”, nos quais pipocam identidades e ativismos dos mais variados. Não dá para falar em luta de classes sem saber o que significa gênero, ou discutir relações raciais sem pensar na acessibilidade. Todas essas cartas devem estar à mão. Ainda que não tenhamos domínio de todas, não podemos perdê-las de vista jamais.

Por outro lado, uma esquerda que se prende a um discurso moralista – ainda que de uma moral revolucionária – e congelado no tempo é uma esquerda no mínimo ingênua, porque endireitada demais. Para defender o passado, não nos faltam conservadores. É evidente que as esquerdas possuem valores, princípios e morais que as orientam. Mas todos eles voltados, em tese, para a defesa de um mundo com menos opressão, mais igualdade, menos individualismo, mais liberdade, menos mercado, mais dignidade. A mudança é não só inerente, como urgente.

O sociólogo paulista Antônio Flávio Pierucci, falecido no ano passado aos 67, refletiu intensamente sobre como a "diferença" é  incorporada pela esquerda e pela direita.

O sociólogo paulista Antônio Flávio Pierucci, falecido no último ano aos 67, refletiu intensamente sobre como a “diferença” é incorporada pela esquerda e pela direita.

Como bem define Antônio Flávio Pierucci (1999), a esquerda é aquela que, no limite, defende que tudo pode ser mudado. Subnutrição infantil, analfabetismo entre adultos e idosos, problemas ambientais, violência contra a mulher, exclusão de travestis, discriminação racial. Em suma, tudo. Tudo é passível de mudança. Não era Brecht que nos dizia para desconfiar do mais trivial, na aparência singelo? Pois bem, levaremos isso às suas últimas consequências.

A segunda razão que torna tão difícil ser de esquerda é que ela não pode escolher entre a igualdade e a diferença e deve defender e reivindicar ambas. Enquanto a direita, conforme discutimos no texto anterior, está pouco se lixando para a igualdade e afirma a diferença entre os seres humanos com todo o seu louvor, a esquerda não pode agir de modo tão medíocre. A esquerda deve apontar para a igualdade, para “aquilo que nos une”, nas palavras de Norberto Bobbio (2001), sem deixar de respeitar as diferenças e a diversidade humana.

Direitos humanos e universais: quando o princípio da igualdade é afirmado acima de todas as diferenças, sem descartá-las.

Direitos humanos e universais: quando o princípio da igualdade é afirmado acima de todas as diferenças, sem descartá-las.

Apoiar a igualdade salarial, defendendo a condição particular de deficientes físicos; defender o casamento igualitário, apoiando a diversidade sexual e de gênero; afirmar a igualdade social, respeitando as culturas, crenças e costumes diferentes. A pauta da homogeneização, da limpeza étnica, da eugenia, nunca foram pautas de uma esquerda que se preze. Acima de tudo, estão nossos direitos “humanos”, “naturais”, “universais”, “plenos” – como preferir – do cidadão e da cidadã. Somos todos/as diferentes e iguais em nossas diferenças. Um nó, sem dúvida, mas com que todas/os nós devemos nos acostumar.

Exigir que a esquerda escolha entre uma delas é um contrassenso: Como celebrar a diferença pura e simples sem atentar para as desigualdades que as atravessam? Como exigir a igualdade se a padronização, custosa principalmente para as “minorias”, se fizer presente? Devemos mostrar, como sugere Joan Scott (2000), que a igualdade e a diferença não se opõem. Na verdade, a primeira é o antônimo da “desigualdade”; e a segunda, da “similaridade”.

Disso decorre o terceiro motivo: o pensamento político da esquerda é uma formulação deveras abstrata. Primeiramente, porque não existe um “ser humano universal”, à parte de suas mais infinitas características particulares como um daqueles bonecos-palito de sinalização de trânsito: somos mulheres, homens, jovens, asiáticos, latinos, lésbicas, pequenos, barbudos, carecas, velhos, geeks, cultos, pagodeiros etc. Cada um de nós é uma mistura de muita coisa…

Nossa multiplicidade étnica e diversidade humana e cultural é nossa maior fonte de riqueza. Jamais pode ser ignorada. Porém, a igualdade é o maior bem que a esquerda pode defender.

Nossa multiplicidade étnica e diversidade humana e cultural é nossa maior fonte de riqueza. Jamais pode ser ignorada. Porém, a igualdade é o maior bem que a esquerda pode defender.

Uma boa esquerda é capaz de atentar para as diferenças que estão por aí, que fazem sentido, que importam ou que venham a importar, que são empiricamente percebidas, isto é, diferenças que fazem diferença e, ao mesmo tempo, reconhecer a historicidade delas, seu caráter mutável, contextual, construído. Não é porque existem negros/as que a questão racial se colocará problemática como sempre tem se colocado. É possível que as cores de pele sejam distintas, sem que isso signifique hierarquias raciais. Ou essa é a nossa meta, não?

Porque a natureza, em si, só nos apresenta diferenças (PIERUCCI, 1999). Existem diferenças para tudo: das coisas sofisticadas como os postos de trabalho almejados às coisas mais banais, dentre o tipo de lóbulo da orelha. O grande desafio da esquerda é distinguir, ou desmascarar, as desigualdades que penetram essa nossa multiplicidade. E reafirmar, em contraposição à direita que nada de braçada na “diferença”, o princípio mais importante e mais caro à esquerda: a igualdade, como um princípio para toda a vida.

Ser de esquerda é um fardo e tanto, não? É por isso que ainda se há muito que discutir! No próximo texto, em particular, vou me aprofundar nesse conceito de igualdade. O que esperamos ao levantar a bandeira de igualdade? Que igualdade é essa? O que ela significa social e politicamente? São questões-chave para compreendermos as distinções entre direita e esquerda. E lá vamos nós mergulhar nesse emaranhado…

3 comentários
  1. Max disse:

    Não concordei com seu raciocínio, onde estabelece uma falsa simetria ao afirmar que se é muito difícil ser de esquerda, logo é muito fácil ser de direita. Penso que nem dá para se rotular as pessoas dessa forma, pois a todo momento podemos ter atitudes consideradas de esquerda ou direita dependendo do ponto de vista de quem está obeservando. Vários regimes considerados de esquerda também foram responsáveis por inúmeras mortes e pasmem, sempre diziam que eram em nome da igualdade entre as pessoas. Nessa situação,o sindicato solidariedade ( na época da Polônia comunista) pode ser considerado de esquerda ou de direita? A diferença clássica entre esquerda e direita ocorria entre as diferentes escolhas de modelos econômicos, a direita optando mais pelo livre mercado e a esquerda optando por uma maior presença do Estado como agente econômico.A esquerda sempre odiando a propriedade privada, como se ela fosse um mal por si só, negligenciou que o motor das transformações sempre foi esse desejo legítimo do indivíduo de prosperar e se tivermos uma sociedade onde as instituições funcionem esse desejo pode perfeitamente ser exercido sem que se estabeleça uma guerra em que os mais fracos sejam excluídos. Essa é a evolução do capitalismo, a solução não é demonizá-lo simplesmente, mas saber que mesmo com suas incoerencias, podemos absorver muitos aspectos bons para o funcionamento da economia Nos últimos anos vimos a opção pelo dirigismo de Estado sendo totalmente derrotado pela eficiência do livre mercado, onde o casamento de democracia liberal e mercado livre pode não só proporcionar a vários países prosperidade econômica com melhoria da qualidade de vida para todos, mas também respeito às liberdades individuais. Enquanto isso, os regimes que se intitulavam comunistas ou socialistas, suas populações revoltaram-se contra a opressão e a total incapacidade de equilibrar democracia com igualdade, ao meu ver pela hipervalorização do fator econômico na vida das pessoas, onde criam realmente que bastava a coletivização dos meios de produção para garantir a igualdade. Será que essa coletivização trouxe igualdade no aspecto econômico? Ou na verdade o que aconteceu foi que os burocratas se tornaram uma elite com mais regalias que os demais?Me cite pelo menos um projeto de coletivização que não renha se tornado esse monstro que as economias centralizadas se tornaram. A igualdade não se dará apenas botando tudo na mão do governo, e além do que, que tipo de igualdade? Pode a igualdade ser medida? Nesta questão é que reside a diferença entre esquerda e direita. Não, em absoluto, que a direita não almeje a igualdade, apenas ela entende que devido às diferenças inevitáveis das pessaos, como voce mesmo citou, essa pretensa igualdade não pode ser obtida mediante a força, a supressão do indivíduo como sujeito digno de identidade e de respeito. A direita também entende que a igualdade é uma meta, que sendo bastante realista, é de certa forma inalcançavel. Sendo assim, uma sociedade deve ter instituições que assegurem aos indivíduos que tenham a liberdade de buscar o seu progresso, mas sempre conjugando essa liberdade com responsabilidade. Quando afirma que a direita despreza os motivos de certas situações, também é errado. O que acontece é que como a direita entende a liberdade num contexto de responsabilidade ( coisa que a esquerda atual odeia), as situações em que os indivíduos se encontram não podem ser imaginadas sem levar em consideração a sua responsabilidade. A pergunta é, se a AIDS se alastra entre a comunidade gay devemos entender o fenômeno apenas como uma relação de vítimas/opressores ou também devemos entender que esses grupos tem sim certa responsabilidade pelo estado em que se encontram? Ao levantarmos essa questão estamos ignorando o sofrimento deles? creio que não, mas como uma lei física que diz que para toda ação há uma reação….

    • Max,

      Acho que o seu comentário ilustra bem as complexidades do debate. No entanto, mantenho a minha posição e reafirmo que estou escrevendo sobre a direita e a esquerda a partir da minha perspectiva. A minha subjetividade está presente, assumo sem medo. Por isso, acho discordâncias como as suas naturais – até porque temos opiniões políticas bem distintas – e servem bem para ilustrar as disputas que existem em torno das definições de direita e esquerda. Quanto a isso, sem problema.

      Antes de entrar na discordância política, só gostaria de frisar: você deve ter lido o meu texto sobre a direita e percebeu que eu questiono: “quantas vezes a esquerda já não foi direita?”. Por isso, não tenho medo nenhum de criticar regimes historicamente de esquerda que cometeram atrocidades, como o anti-semitismo presente na obra de pensadores de esquerda, a homofobia institucionalizada de regimes comunistas etc.

      Não me parece, contudo, que a diferença resida na escolha de modelos econômicos. O que vemos hoje no Brasil nos embates entre movimento LGBT e bancada evangélica, por exemplo, me parece ser muito um embate digno de viéses de esquerda e de direita que passa ao largo da escolha de um modelo econômico. A discussão, aqui, está na esfera política de direitos sociais, independentemente de intervenção do Estado na economia.

      Quanto ao capitalismo. É disse que eu tenho mais medo: acreditar em uma “evolução do capitalismo”. É por isso que eu luto pela sua superação. Mas peço, por favor, para que não venha jogar no meu colo regimes ditos socialistas ou comunistas. Em nenhum momento neste blog – pode conferir em todos os textos – declarei apoio irrestrito a algum governo, embora eu concorde com certos aspectos do governo cubano ou venezuelano, mas não trabalho dentro da lógica do “endeusamento” versus “demonização”. Ela me parece simplista para discutir o background disso tudo, que é a Política com P maiúsculo.

      Acho difícil discutir projetos de coletivização como se tivéssemos exemplos de vitrine, ou como se a coletivização que em algum grau foi empreendida em certos regimes pudesse ser analisada à parte de uma série de fatores históricos que acompanharam esses regimes. É como acusar Cuba de ser um país pobre por causa (ênfase em “por causa”) do socialismo, ou acusar a URSS de ter destruído o mar Aral por culpa do stalinismo – acredite, já vi isso sendo feito. É importante dar nomes aos bois, e aqui nessa discussão teríamos tantos bois para nomear que nem sei se vale a pena.

      Por fim, digo que achei ousada aqui a sua menção à AIDS. Primeiro, gostaria de pedir que me mostrasse dados a respeito da AIDS ter se alastrado entre a comunidade gay. A AIDS se alastra no continente africano e isso demanda uma outra explicação. Em segundo lugar, penso ser essencial entendermos os motivos disso – procurar motivos, razões ou explicações não significa apontar culpados e suas respectivas vítimas. O seu problema, Max, é ficar restrito a uma esfera individual, entendendo questões macro como a AIDS a partir de uma perspectiva voluntarista de “escolhas” individuais, de “responsabilidades” individuais, de “liberdades” individuais. Repito: primeiro, quero dados; segundo, quero razões a fundo para explicar esses dados.

      Como disse, a esquerda é aquela que acredita que, em última instância, TUDO possa ser mudado. Supondo que seja verdade que a AIDS tenha se alastrado entre a comunidade gay – não vale usar exemplo da década de 1980, tá, estamos discutindo a realidade atual – o meu olhar não será sobre os gays que, poxa vida, transaram sem camisinha. O meu ponto será o porquê disso ter acontecido, e quais razões de fundo social, cultural, politico ou o que seja, que puderam ter levado a uma doença dessas ter se alastrado entre jovens que se envolviam com o mesmo sexo. Não perco tempo discutindo “dimensões de culpa”, mas explicações POLITIZADAS para entender motivações. O fundo é sociológico. E a minha insistência em politizar o debate é o que me faz uma pessoa de esquerda que, ao contrário de um direitista, procura despolitizá-lo a partir de uma chave de pensamento simplista que recai no voluntarismo do indivíduo e da díade vítima-culpado.

      Em vez de seguir nessa linha tão atrative, porque fácil, prefiro entrar no labirinto. Por isso, reiteiro, sou de esquerda.

  2. direitoaosaber disse:

    Camarada, faço coro nessa sua frase, é muito difícil ser de esquerda!

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