Educação na Finlândia: o que tem de tão especial?

Uma das coisas mais instigantes em Educação é ir atrás das experiências que “dão certo”. No entanto, os palpites e as opiniões são bem diversos. Mais lição, menos lição; escolarizar precocemente, escolarizar tardiamente; cobrar mensalidades, não cobrar nada; defender a isonomia, apoiar o mérito etc. Convido a todos/as, por meio desse texto, a conhecer uma das experiências mais bem sucedidas do mundo em termos de direito à Educação, dentro dos marcos que acreditamos ser mais coerentes para efetivá-los. Estou falando, no caso, da Educação na Finlândia.

Quando Pasi Sahlberg (ouça uma entrevista aqui, em inglês), diretor-geral de um instituto finlandês de pesquisa, veio a público divulgar sua obra Finnish lessons: what can the world learn from educational change in Finland?, rapidamente o pesquisador ganhou notoriedade. O que chamou a atenção não foram só as razões que fizeram um país emplacar consecutivamente as melhores colocações no teste internacional do PISA, mas como o sistema educacional finlandês está estruturado na contramão de tendências que têm sido reafirmadas como as grandes soluções para as problemáticas educacionais e seu reflexo na sociedade, de forma mais ampla.

Pasi Sahlberg: turnê pelo mundo para divulgar, e servir de exemplo, o sistema educacional finlandês.

Pasi Sahlberg: turnê pelo mundo para divulgar, e servir de exemplo, o sistema educacional finlandês.

A começar que o sistema educacional da Finlândia é completamente público, da educação básica ao ensino superior. O governo finlandês não permite, por exemplo, que haja alguma escola privada porque acredita que os cinco milhões de jovens finlandeses devem estudar na mesma escola, isto é, naquela mantida pelo poder público, com verba pública e voltada para os interesses da sociedade.

Porém, em tempos de reformas neoliberais, público não costuma ser sinônimo de gratuito, como a educação norte-americana, chilena, australiana etc, nos provam. Na Finlândia, não. Mesmo a pós-graduação é gratuita. Para se lecionar, os professores devem ter pelo menos um mestrado, e os cinco ou seis anos de formação acadêmica para a docência são integralmente mantidos pelo Estado. Nada de endividamentos, elitização do ensino ou financiamentos que fazem jovens arrastarem dívidas por anos. Leva-se a sério a noção de Educação enquanto um bem público.

Não podemos esquecer que se trata de um sistema educacional de qualidade. Além do investimento alto na formação e capacitação docente, há um importante diferencial: lá, os professores são bem remunerados. De fato, a profissão docente é disputada entre jovens. Proporcionalmente, poucos conseguem ingressar – em tese, os mais bem preparados. E ao contrário do que virou moda no mundo, a Finlândia não remunera os docentes em função da avaliação de desempenho escolar dos alunos.

Alto investimento na formação de professores (bem remunerados), educação pública e gratuita, ausência de testes padronizados para cada etapa, entre outras, são algumas das fórmulas de sucesso do modelo educacional da Finlândia.

Alto investimento na formação de professores (bem remunerados), educação pública e gratuita, ausência de testes padronizados para cada etapa, entre outras, são algumas das fórmulas de sucesso do modelo educacional da Finlândia.

Aqui, os testes padronizados substituíram e reduziram o sentido da avaliação. Eles não só roubam a cena, como também servem de base para a definição, a seca, do que é “qualidade de ensino”, e subordinam o repasse de verbas a escolas e professores de forma quase punitiva. Isso, por outro lado, não é praticado pelo sistema educacional finlandês, que aplica apenas uma avaliação em larga escala na educação básica: quando os jovens estão saindo da high school (equivalente ao ensino médio), já com os seus dezoito anos de idade. Lembremos que, no Brasil, existe uma enxurrada de avaliações, que vão da Provinha Brasil ao ENEM, passando pelo SAEB, Prova Brasil e outras.

Poderíamos pensar, então, que toda essa dedicação está intensamente voltada para a formação das crianças desde logo cedo. Bem, depende do que entendermos como “formação”. Enquanto no Brasil, após o advento do EF de 9 anos e a antecipação da escolarização, as crianças ingressam no primeiro ano aos cinco anos e completam seis, na Finlândia as crianças só entram na escola aos sete anos de idade. Parece tarde, mas não é. O sistema educacional deles entende a importância do brincar não só para o desenvolvimento da criança, como também para o seu bem-estar.

A lógica é a seguinte: dando bem-estar à criança, ela será mais bem escolarizada. Pouco importa se não são palpáveis resultados desde cedo. É por isso que lições de casa são escassas no começo da escolarização. Elas só passam a ser mais exigidas no equivalente ao ensino médio. Antes disso, valoriza-se a brincadeira, o lúdico, a infância. Conforme as crianças e jovens vão se escolarizando, incentiva-se que eles desenvolvam suas potencialidades, mas sem que seja alimentado um sentimento de competição. A meritocracia não tem o lugar privilegiado lá como tem aqui ou em outros sistemas.

Tendo como foco o bem-estar das crianças, a Finlândia não antecipa a escolarização e evita o excesso de lições de casa. A lógica não é a da produção de resultados, mas a da valorização do processo educativo.

Tendo como foco o bem-estar das crianças, a Finlândia não antecipa a escolarização e evita o excesso de lições de casa. A lógica não é a da produção de resultados, mas a da valorização do processo educativo.

É curioso ler sobre uma Educação como essas. Dizem por aí que um ensino público e gratuito é inviável; que as lições e palmadas são educativas; que o ideal é ensinar a ler cedo – o governo fala até da alfabetização na “idade certa” (sic); que deve haver competição e desigualdade entre professores; que as escolas privadas são melhores; que se deve avaliar cada etapa e padronizar o currículo etc. Não parece, haja vista os resultados excelentes do sistema educacional finlandês.

Só é válido fazer uma observação: a Finlândia e o Brasil apresentam realidades muito diferentes. Ninguém está propondo que se copiem as políticas finlandesas como se fossem um dogma. Mas é válido extrair experiências, tendências e ideias. Nas palavras do próprio Sahlberg em entrevista concedida a O Globo: “A mais importante das lições é que há uma alternativa para se chegar ao sucesso prometido por reformas guiadas pelo mercado. A Finlândia é o antídoto a este movimento que impõe provas padronizadas, privatização de escolas públicas e remunera os professores com base em avaliações de desempenho que se tornou típico de diversos sistemas educacionais pelo mundo.”

Pois é, existe uma alternativa. Existe esse belo exemplo de que é possível estruturar a Educação, em todos os seus níveis, por uma perspectiva democrática, que priorize o processo educativo e dê valor para a noção de direito. Esperamos que esse modelo educacional sirva de referencial para frear tendências que, no Brasil e no resto do mundo, tendem a esvaziar o que significa uma Educação no seu sentido mais justo e rico.

4 comentários
  1. Na Finlância, como em muitos outros países de escassos recursos naturais, a população é considerada o mais valioso dos “pátrimônios”. Por tal motivo investem e muito numa Educação pública de qualidade, numa Medicina Social de vanguarda e também na alimentação, inclusive, mantendo um estoque regulador de alimentos. Tais “privilégios são democratizados”, ou seja, todos tem acesso indistintamente. Sem dúvida que comida, escola e saúde se constitui no tripé de sustentação ao desenvolvimento, seja lá o que for que se entenda por “desenvolvimento”. Não vejo parâmetro de comparação com o Brasil. É muito grande o distanciamento sócio/cultural, como também as condições física/geográfica. Mas de outro lado, não de deve desprezar os modelos seguidos por estes países. Uma boa dose de ecletismo em relação as atitudes e ações de nossos homens públicos seriam benvindas. A começar pela valorização dos fatores alimentação, saúde e educação. Em menos de duas gerações estaremos colhendo os resultados: mais equidade na distribuição de rendas, mais consciência política, enfim cidadãos exercitando seus direitos à cidadania como agentes da História e não como pacientes como até agora foram considerados. Institucionalmente nunca notei vontade política para tanto, independente da sigla partidária que esteja no PODER. Demagogos e arrivistas de plantão não abrem mão dos currais eleitorais há muito tempo explorados. Enquanto isso proliferam as instituições de ensino na esfera privada, da mesma forma os planos de saúde e no mesmo diapasão os especuladores de produtos alimentíciosaliás, sem dúvida nenhuma excelentes fonte de rendas. E assim caminha a humanidade, digo, nosso Brasil varonil, “transpirando” uma imagem tão ufânica quanto piegas. LAMENTÁVEL!!!

  2. Marcelo Luiz disse:

    Muito boa a matéria !

    O problema é que não existe fórmula mágica para o aprendizado e cabe a cada nação encontrar a melhor opção a ser implementada. No Brasil fica difícil pensar em algo parecido, pois temos uma população mais de mais de 20 vezes maior que a da Finlândia. Lá é bem simples construir escolas e universidades para todos. Mas e aqui ?

    Sabemos do problema que é arrumar uma vaga em uma faculdade pública nesse País, por isso a nossa educação caminha para uma situação de ”busca de aprovação”. Hoje pouco importa se o aluno aprende alguma coisa, importa se ele passa no vestibular. Perdemos totalmente o foco e dificilmente iremos encontrar o caminho outra vez.

    • Marcelo Luiz, bom garoto. Não é difícil não “encontrar o caminho outra vez”. Aliás, penso que nem saimos do caminho. Apenas os “desnaturamos”. E justamente numa fase importante da formação do educando: o ensino básico. E essa perda de qualidade se observa na grande maioria das escolas públicas. Nossas instituições de ensino superior são referências internacional, mas poucos têm acesso a elas. A educação poderia começar pelo resgate da figura do professor. Imagino eu que, depois dos pais, o professor(a) é o personagem que mais ocupa o imaginário do ser humano em formação. Tanto assim que em algumas sociedades, como no Japão por exemplo, o professor é o único profissional, ou um dos ´poucos que está dispensado de prestar reverências ao Imperador. Há uma infinidade de eventos e adventos que desconheço ou esqueci. Contudo, apesar de decorrido mais de meio século, ainda me lembro, inclusive dos nomes de todos professores do antigo ginásio. Dos seus ensinamentos e métodos. Dos seus critérios de avaliação. Muitas disciplinas com programas exaustivos. Também me recordo dos meus professores do antigo curso Clássico, de Direito, de Filosofia, de Pedagogia, de História de Contabilidade e de Estudos Sociais. Enquanto o Brasil não cuidar da Educação do seu povo, permanecerá à margem da História e um gigante adormecido. Escusas pela prolixidade. abs. fraternos

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