Um pouco sobre a esquerda da Austrália

Como falei em post anterior, estou vivendo uma temporada de seis meses em território australiano. Se no Brasil meu interesse pela compreensão de um pensamento de esquerda já era intenso, aqui em Sydney está sendo uma fase ainda maior de descoberta. Publico o que venho aprendido aqui com base em texto reflexivo sobre a esquerda da Austrália, escrito pela socióloga Raewyn Connell em 2010 no artigo Bread and waratahs, publicado no ano seguinte como um capítulo da obra Confronting Equality (2011).

Julia Gillard (1961-), atual primeira-ministra da Austrália. Para entender o que é o Australian Labor Party hoje, é necessário olhar um pouco para o passado.

Julia Gillard (1961-), atual primeira-ministra da Austrália. Para entender o que é o Australian Labor Party hoje, é necessário olhar um pouco para o passado.

Connell faz uma retrospectiva do que foi a esquerda australiana, do que é atualmente e o que pode vir a ser no futuro – sua reflexão, por sua vez, pode suscitar debates sobre a nossa própria realidade. Ela destaca que, no passado (há mais de meio século), a esquerda girava em torno de dois partidos: o Partido Comunista e o Partido Trabalhista (Australian Labor Party, ALP), fundado em 1891 e até hoje uma das principais figuras no cenário político australiano. Ambos esses partidos estiveram engajados em ideias de socialização da indústria, produção e trocas comerciais. A pegada, portanto, era revolucionária, e nomeava a chamada Old Left.

De fato, era até esperado que algo nessa linha pudesse acontecer. À época, a Austrália vivia uma avançada industrialização que substituía a importação pela produção nacional e culminou na formação de uma extensa classe trabalhadora. Porém, sabemos que esse caminho não fez da Austrália uma outra ilha revolucionária (desta vez afastada do Caribe). A pressão da classe trabalhadora, somada às riquezas do país, garantiram ao menos um estado de bem-estar social (welfare state), caracterizado em meados de 1940-60 por políticas de seguridade social, habitação, emprego e a uma vertiginosa expansão da educação pública.

Ativismo aborígene, em meados da década de 1970, foi um dos movimentos que se intensificaram na onda da New Left.

Ativismo aborígene, em meados da década de 1970, foi um dos movimentos que se intensificaram na onda da New Left.

Quando a segunda onda de radicalismo se sucedeu, tomou-se novas direções. Ainda em nascimento, a New Left precisou da Old Left para sua organização, contestando juntas, por exemplo, os horrores da Guerra do Vietnã. Porém, ainda que New Left flertasse com reformas do Estado, a novidade foram as mudanças na base da esquerda. Em doze anos, a Austrália testemunhou a radicalização do movimento estudantil, o surgimento dos movimentos feministas e LGBT, um novo ativismo aborígene, o movimento ambientalista, entre outros. Nas palavras de Connell (2011), a revolução se mostrou muito mais colorida.

A grande diferença, talvez, entre a antiga e a nova esquerda australiana é que a segunda se pautou muito mais pela prática direta de democracia, recusando as velhas hierarquias, como a ideia de “vanguarda” que norteou as experiências socialistas. A ideia era fazer a diferença no aqui e no agora, sem concentrar esforços na Revolução. As ações, como esperado, foram das mais diversas, algumas até bastante criativas (como professores jovens que, aliados a burocratas progressistas, trouxeram crianças e jovens para tomar controle de escolas públicas, alterando seus currículos e práticas).

Não só foram diversas as ações, como também foram dispersas, e nenhum movimento de massa surgiu na Austrália balizado pela New Left. Não se criou nenhum programa econômico, nenhuma alternativa à política em grande escala. O resultado foi que a esquerda australiana, mesmo pendendo ao radicalismo, tornou-se vulnerável às ações organizadas pela direita. É aí que acontece a grande virada, quando o neoliberalismo – que na Austrália é chamado de “racionalismo econômico” – ganhou a cena.

Paul Keating (1944-), ex-primeiro-ministro da Austrália, tomou o poder em 1991, conduzindo o país à virada neoliberal.

Paul Keating (1944-), ex-primeiro-ministro da Austrália, tomou o poder em 1991, conduzindo o país à virada neoliberal.

Assim como o capitalismo industrial tomou emprestado ideias do socialismo para firmar um compromisso de welfare state, aponta Connell (2011) que o neoliberalismo também se inspirou em ideias da New Left, como flexibilidade organizacional, criatividade e oportunidades iguais. Só que não para fortalecer a democracia, e sim para incrementar a riqueza das corporações. A Austrália caminhou por aí a partir da década de 1980.

E foi assim que a Austrália passou a se projetar nos mercados globais. Mas, ironicamente, retrocedendo à estratégia colonial de cavar a terra, buscar minérios e exportá-los, enquanto importava pequenos bens manufaturados. O movimento trabalhista até tentou retomar o fôlego, mas o momento já havia passado, ou melhor, sequestrado pela máquina política da mais corrupta, e bem sucedida, que brotou do Partido Trabalhista. Desta vez, quando o ALP tomou o poder, orientado pelo primeiro-ministro Paul Keating, o partido pretendia governar dentro do neoliberalismo, surfando na onda das reformas orientadas pelo mercado. A própria Connell, que se filiou ao partido em 1966, deixou o mesmo quando Keating alcançou o poder, em 1991.

Sydney, a capital financeira da Austrália. Que rumos guiarão a ilha de dimensão continental nos próximos anos: os enormes prédios do setor financeiro ou os extensos e diversos movimentos de massa?

Sydney, a capital financeira da Austrália. Que rumos guiarão a ilha de dimensão continental nos próximos anos: os enormes prédios do setor financeiro ou os extensos e diversos movimentos de massa?

Junto com a Nova Zelândia, a Austrália é um ótimo exemplo de país do Pacífico Sul que adotou uma cartilha neoliberal pelas mãos de um Partido Trabalhista, de origem das lutas socialistas – lembremos que Reagan, Thatcher e Pinochet, por exemplo, vieram de grupos/partidos dos mais conservadores em suas nações. E assim, tal como aconteceu no Brasil, líderes do Partido Trabalhista, que antes gritavam nos megafones, passaram a “reencarnar” como milionários, membros da mídia corporativa, do setor de agronegócios etc.

Tem-se, progressivamente, uma forte ruptura entre os parlamentares do ALP e os movimentos sociais. Hoje, destaca Connell (2011), o partido se assemelha muito mais a uma companhia privada a propriamente uma sigla política com a história que teve – a base trabalhista e sindical, agora, não passa de um resíduo dentro do partido. A própria esquerda também se modificou, surgindo o Partido Verde, os movimentos queer, o ativismo virtual etc, mas nada disso foi o suficiente para uma mobilização em larga escala.

E assim temos o atual cenário político da Austrália: o governo federal está nas mãos do ALP, representado pela primeira-ministra Julia Gillard, e imensos problemas que persistem no que diz respeito à população aborígene, direitos trabalhistas e serviços públicos de qualidade e acessíveis para a população. Austrália é sem dúvida um país rico, com uma desigualdade muito menos gritante que o Brasil, e uma qualidade de vida bem superior. Mas, se seguir os rumos atuais, de país rico tenderá a se tornar cada vez mais um país elitizado.

1 comentário
  1. Alessandro souza disse:

    Me ajudou entender melhor o Brasil nessa questão política.

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