A globalização não é privilégio do século XXI

Fala-se muito da globalização. Há aqueles que enxergam a globalização por cima, exaltando a economia global (pautada por uma agenda neoliberal, lembremos) e as novas mudanças, e aqueles que a veem por baixo, a partir da perspectiva de movimentos sociais e “minorias” que são sensivelmente afetados por tais mudanças (KENWAY, KRAACK & HICKEY-MOODY, 2006). Para ambos os casos, é sempre bom deixar claro que globalização é um termo impreciso, porque tende a ocultar justamente o que está no cerne desse conceito.

Quando se trata da globalização como um fato recente, característico do século XXI e todas as transformações nas tecnologias de comunicação, corre-se o risco de achar que um mundo globalizado é um fenômeno novo. Não discordo que hoje o mundo nunca esteve tão globalizado, a ponto de em poucos segundos uma pessoa no Brasil conseguir se conectar com um colega na Austrália. Só que globalização não se resume a isso.

A metáfora da globalização enquanto um ambiente onde todos sabemos. Só não podemos perder de vista que existe um história por trás da globalização que hoje conhecemos.

A metáfora da globalização enquanto um ambiente onde todos sabemos. Só não podemos perder de vista que existe um história por trás da globalização que hoje conhecemos.

Além das telecomunicações, globalização é um termo que engloba também os mercados globais, as complexas redes de trocas financeiras, de importações/exportações, de produção. Evidentemente, as culturas também se globalizam, e antes aspectos culturais restritos ao seu território passam a circular mundialmente. Nesse sentido, a primeira conclusão torna-se óbvia: já faz um bom tempo que o mundo vem se globalizando.

Esses câmbios existiram desde sempre, mas foi a partir da expansão marítima do século XV, começando por Portugal e Espanha, seguidos por Holanda, França e Inglaterra, que tais relações passaram a ter âmbito global. Estamos falando, portanto, do período colonial, que como todos sabemos foi marcado por violência, dominação e aculturamento, no qual a humanidade assistiu a genocídios, epidemias e escravidão. Não houve sequer um Estado que não tenha sido levantado com base no derramamento de sangue.

Religiões, sistemas políticos, economias e até mesmo as relações sociais (o que inclui gênero, etnias etc) foram reconfigurados de acordo com os padrões dominantes. Não é à toa que falamos português, vivemos em uma República Federativa, reproduzimos um modo de produção capitalista, somos um país majoritariamente cristão. Nada disso é “autenticamente” brasileiro, como bem sabemos. Isso é o nosso legado, a nossa origem. Nem o que é brasileiro, como o carnaval, a feijoada ou o samba, é 100% autêntico. Tudo isso carrega na sua bagagem uma história.

As grandes navegações, no século XV, podem ser considerados um dos berços do processo de globalização: quando relações de poder passam a ter uma dinâmica global.

As grandes navegações, no século XV, podem ser considerados um dos berços do processo de globalização: quando relações de poder passam a ter uma dinâmica global.

E é justamente essa história – não especificamente a do samba, carnaval e feijoada, mas de tudo que nós somos – que, se irmos até o fundo, remete a uma estrutura de relações de poder (desiguais, por excelência) que está no cerne do conceito de globalização. A globalização não é uma novidade, fruto da “modernidade” que nasceu do Norte global e foi exportada. Ela é produto da reconstituição das relações globais já existentes, tendo por base os seus legados – o imperialismo, o colonialismo, o eurocentrismo – e as mudanças que, estas sim, se fizeram presentes nas últimas décadas (CONNELL, 2000).

Cabe lembrar que as formas imperialistas do passado não foram apenas destrutivas. Elas também criaram novas expressões culturais, ainda que com o alto custo do colonialismo e de modo extremamente desigual. Até hoje é assim, não? A cultura estadunidense, por exemplo, é altamente influente em boa parte do mundo, inclusive no Brasil. Porém, qual é a influência da nossa cultura para os norte-americanos? Ela até pode estar presente em certos aspectos, mas é ínfima. E não só assim com relação ao Brasil. Todos olham para cima, os EUA, e pouco olhamos para os lados – nossos vizinhos, os países sulistas, o restante do mundo. O mesmo pode-se dizer de certos países europeus (França e Inglaterra são dois bons exemplos).

A globalização, portanto, é um fenômeno antigo e que apenas tem passado por mudanças. Esse panorama é dirigido por alterações políticas e econômicas que se fazem no cenário global, onde determinadas nações possuem privilégios que a outras são negados. Discutir avanços em âmbito global significa, em primeiro lugar, atentar para a história da globalização e desmascarar a sua pintura ingênua, a saber: o grande presente que o capitalismo nos deixou para o século XXI. Não é um presente, não é uma novidade, e não é do século XXI.

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