O que há de novo em um “mundo novo”?

Que o mundo muda isso já é sabido há muito tempo. Mas não faltam teorias que, desde as últimas décadas, se propõem a alardear a construção de um completo “mundo novo”, onde as relações sociais se compõem de forma nunca vista antes, onde o capitalismo é outro, onde o futuro é promissor. Frequentemente é classificado como antiquado quem se refere às tradicionais teorias e escolas: marxismo virou coisa de barbudo das Humanas, feminismo é coisa de mulher neurótica etc. Simplesmente porque essas abordagens se baseiam em mostrar o quanto o suposto “mundo novo” está recheado de velhos vícios. Pergunto: o que há de novo no “mundo novo”?

Tem-se, aqui, dois fenômenos: o primeiro é a construção de uma novidade que só parece nova porque fora do contexto. É o caso de conceitos como “pós-industralismo”, “pós-Fordismo”, “pós-estruturalismo” e “pós-modernidade”. A mania do “pós”, que se seguiu à moda do “neo”, como provoca Danilo Martuccelli (2002). Muito se fala das novas chaves que o pós-estruturalismo trouxe para o feminismo, mas pouco se vai a fundo para entender o que significa essa corrente e porque ela se distingue do famigerado estruturalismo. O mesmo se diz de um capitalismo pós-industrial ou pós-Fordista, como se os antigos conflitos de um capitalismo industrial estivessem sido, não resolvidos, mas superados. A escolha das palavras é bem pensada, nesse caso.

O metrossexual, o homem moderno, o novo pai de família: formas de se maquiar o debate de masculinidades e as desigualdades de gênero, apelando para a falsa oposição entre o tradicional e o moderno.

O metrossexual, o homem moderno, o novo pai de família: formas de se maquiar o debate de masculinidades e as desigualdades de gênero, apelando para a falsa oposição entre o tradicional e o moderno.

A segunda tendência é uma narrativa de progresso, que descaracteriza o velho em detrimento do novo, o qual surge sempre no seu melhor formato. É um pouco do que se faz na oposição entre as masculinidades “tradicionais” (patriarcais, violentas, machistas) e as “modernas” (o dito homem do século XXI, o metrossexual, o novo pai de família, o homem moderno), segundo Raewyn Connell (2013). Nenhuma discussão politizada se constroi, pois a dita modernidade – e mais atualmente pós-modernidade, seja lá o que isso queira dizer – se coloca na dianteira, sobrepondo o debate sobre como as coisas são. O quanto de tradicional existe no moderno e vice-versa? É o que está para se anunciar.

Não escrevo isso para negar as mudanças das sociedades contemporâneas. Que as tecnologias modificaram as relações sociais e econômicas, é fato. Que o capitalismo se modificou, sobretudo com as reformas neoliberais que, em âmbito global, transformaram intensamente o mundo do trabalho – o que impactou nos direitos trabalhistas, nas possibilidades de construir uma carreira, nas identidades associadas às profissões e dos novos empregos que emergiram (SENNETT, 1997) –, não nego.

Aborígenes na Austrália: a modernidade – ou a pós-modernidade – chega de forma diferente para povos distintos. Portanto, deve ser contada a partir de narrativas igualmente distintas.

Aborígenes na Austrália: a modernidade – ou a pós-modernidade – chega de forma diferente para povos distintos. Portanto, deve ser contada a partir de narrativas igualmente distintas.

O meu ponto, aqui, é que há diferentes narrativas sobre a modernidade pois há, na realidade, diferentes modernidades. Vá perguntar aos jovens desempregados na Espanha, aos terceirizados no Brasil ou aos aborígenes na Austrália o que eles pensam sobre a promessa do “mundo novo”. Problemas, sejam eles antigos como a questão indígena desde as eras da colonização ou novos como a recente onda de precarização do trabalho, sempre existiram. Eles estão aí, fazem parte da suposta pós-modernidade. Gostaria de entender a quem interessa negar as chamadas “velhas estruturas de poder”, expressão essa que se tornou xingamento.

Porque talvez seja exatamente disso que o debate careça: uma discussão profunda sobre poder, privilégios, hierarquias, desigualdades. Algo no mundo muda, algo nele se mantém, como bem ressalta Alberto Melucci (1997) quando discorre dos antigos problemas mundiais que vêm se arrastando apesar das transformações recentes. E embora a discussão mude de tom ou de foco, ela não pode esquecer suas prioridades: a busca de uma justiça social em termos globais, sejam lá quais teorias nos sirvam – de preferência, as mais diversas, por ser uma pauta global. Mas cair no comodismo de uma narrativa da “pós-modernidade” escrita pelas canetas da metrópole, das teorias do Norte (que são lindas, mas esquecem do restante do mundo), do olhar viciado de quem fala da sua sociedade (ou pior, de sua própria classe!) como se falasse do Planeta, é o erro que não podemos cometer.

Marina Silva, no Brasil, é um bom exemplo de como o debate político é esvaziado ao se apelar para o que está além do bem e do mal – a conhecida tentativa de sair pela tangente, sob o manto do “novo”.

Marina Silva, no Brasil, é um bom exemplo de como o debate político é esvaziado ao se apelar para o que está além do bem e do mal – a conhecida tentativa de sair pela tangente, sob o manto do “novo”.

Cria-se o modismo daquilo que está para além do que já foi dito. Em vez de se discutir feminismo e o que ele pode agregar aos debates contemporâneos, fala-se em fundar um pós-feminismo; ao invés de se resolver antigos conflitos de classe e propriedade que existem há séculos, fala-se de uma “sociedade da informação” onde o poder está sobretudo no conhecimento; até mesmo o clássico, complexo e delicioso debate entre Esquerda e Direita é ignorado por uma tentativa de implantar uma “Terceira Via”. O caminho escolhido não é um posicionamento no que já vem sendo desenvolvido, mas dar um ponto final, um basta, por meio de uma partícula “pós”, ”neo”, algo alternativo que, no fundo, se revela como um fuga. E o pior, travestido de novidade.

Não há nada de novo nesse “mundo novo”, a não ser os mecanismos pelos quais as relações de poder são dissimuladas. É o que aponta Peter Golding (2000) quando questiona o quão novo é o novo e que, no fundo – retomando antigo provérbio francês – quanto mais se muda, mais se continua a mesma coisa. Já nos alertava Richard Sennet (2000) de que “novo” é uma palavra perigosa, justamente por ser a favorita dos publicitários.

Assim, não me assusta os movimentos sociais trazerem novos debates característicos da atual sociedade. Porém, me preocupa quando a pauta se torna a “novidade” que se coloca ofuscante sobre o que era até então evidente. O mundo não vai solucionar seus antigos problemas sozinhos. É necessário intervir, modificando o “velho” e o “novo” mundo, visando a construção de uma alternativa que, esta sim, se veja livre de velhos vícios. Se o que é “novo” sempre tem a nos ensinar, o que é “velho” sempre tem a nos lembrar daquilo que ainda não aprendemos.

2 comentários
  1. Ivo Cocco disse:

    Adriano,
    o novo, assim como o longe, não existe.
    Primeiro, porque o instante seguinte indica que o novo já era.
    No caso do longe, onde é que ele está? Não é de quem fala, porque ele está perto. Também não é de quem se fala, porque este, apesar de longe de quem fala, está perto de onde ele mesmo está.
    E se formos falar em futuro, então, como é que fica?
    Pois o futuro e o passado são apenas sensações, o primeiro por ser imprevisível, e o segundo por nada mais se poder fazer.
    Assim, afora as teorias e as projeções, o que fica é o sentimento de cada um, baseado somente na sua capacidade de se movimentar nas teias emaranhadas da vida, partindo do pressuposto de que ela é feita de oportunidades que nem sempre aparecem e, quando aparecem, não são tão perceptíveis para a maioria.
    Donde se pode concluir que muitos poucos são de fato bafejados pela “sorte”, enquanto que os demais servem de massa de manobra. Por isso, há quem diga, embora sem muita convicção, que os bilhões de pobres é que sustentam os ricos, e que isso é bíblico, ou seja, não mudará.
    Do ponto de vista pessoal, porém, a educação e o preparo técnico servem-nos como escudo para não sermos ludibriados, o que é comprovado pelos sistemas políticos e econômicos já experimentados, em que os detentores do poder indicam o caminho a seguir.
    De quando em vez, alguns desses líderes deixam escapar algumas jóias do tipo ” a massa não pensa, ela é conduzida”, ou então, “faça o que eu mando, não o que eu faço”,
    Infelizmente, a realidade está mais para a fórmula de formação do carater do ser humano, atribuindo-se-lhe os percentuais de 50% pela hereditariedade, 25% obtidos pela educação – para os que a conseguirem absorver – e os restantes 25% pelo habitat, e quase nada em função dos modelos consumistas a que estamos atrelados e dos quais não nos livraremos, a não ser que um admirável mundo seja implantado…. quem viver verá?

  2. Essa coisa do “novo” é sempre curiosa, principalmente na sala de aula. Meus alunos (que estão se formando em Publicidade) frequentemente afirmam que “hoje em dia não é mais assim”. Isso vale para racismo, sexismo, homofobia e mais um monte de preconceitos que muitas vezes sequer reconhecem como preconceitos. Fico com um certo medinho de estar eu mesmo reproduzindo esse tipo de pensamento na sala de aula =p

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