O machismo cotidiano: o caso dos trotes na USP

Escrito por Marília Pinto de Carvalho

Nas últimas semanas, diversas denúncias de situações humilhantes durante trotes em universidades vieram à tona, em fotos e vídeos que rodam nas redes sociais e na mídia, como acontece todo ano nesta época de início das aulas. Em especial quando se trata das grandes universidades públicas do sudeste, formadoras de nossas “elites dirigentes”, as práticas machistas, racistas, homofóbicas e até nazistas presentes nas supostas brincadeiras preparadas pelos veteranos costumam chocar a opinião pública.

Em relação ao machismo, que aqui me interessa debater, gostaria de partir de uma dentre todas as cenas ultimamente veiculadas, que me parece especialmente paradigmática:

Cena do jovem fantasiado de homem-aranha simulando sexo com uma boneca inflável.

Cena do jovem fantasiado de homem-aranha simulando sexo com uma boneca inflável.

Estamos na área externa do campus da USP de São Carlos (São Paulo). Dentro do prédio ocorre um concurso já tradicional naquela universidade, denominado “Miss Bixete”, no qual calouras são “convidadas” por veteranos para subir num palco e disputar qual teria o corpo mais bonito, de preferência tirando fora peças de roupa. Na área externa, um grupo de mulheres estudantes, organizadas a partir da Frente Feminista e apoiadas por alguns rapazes, protesta contra o concurso. Estabelece-se um confronto, no decorrer do qual um rapaz, fantasiado de super-herói e mascarado, encena uma relação sexual com uma boneca de plástico. Uma cena chocante que nos leva quase imediatamente a pensar: “Que agressivos nojentos, como eles são machistas”.

Mas a questão na verdade é que esta cena nos toca porque não fala dos outros, mas de nós mesmos/as: o quê esta cena fala sobre nós? O que fala a cada um/a de nós?

Sem dúvida, é um episódio machista, e machismo é o nome que damos no dia-a-dia às relações de poder que garantem privilégios dos homens sobre as mulheres (sempre de forma articulada a outras relações de poder estruturais em nossa sociedade, como as de classe e raça). Podemos dar exemplos clássicos: na política, recém elegemos a primeira mulher presidente em mais de 100 anos de República; embora 51,7% dos eleitores sejam do sexo feminino, as mulheres somam apenas 9% na Câmara Federal e 10% no Senado. No que se refere ao poder econômico, de acordo com o Censo Demográfico de 2010, o rendimento médio mensal das mulheres com carteira assinada era 30% menor que o dos homens. Ou ainda, elas ocupam apenas 21,4% dos cargos de chefia em empresas privadas. É isso o machismo, mas ainda estamos falando de estruturas sociais, que facilmente percebemos como algo distante, alheio ao nosso cotidiano.

Em reação ao protesto feminista, jovens da USP São Carlos exibem seus corpos nus, de forma provocativa.

Em reação ao protesto feminista, jovens da USP São Carlos exibem seus corpos nus, de forma provocativa.

Por isso, voltemos à cena de sexo entre o super-herói e a boneca inflável. Ela se dá num contexto de atividades de trote, marcado por relações de poder de veteranos sobre calouros, um ritual de passagem e de provação, encenado como brincadeira. As próprias palavras “bixo” e “bixete”, que animalizam os calouros, nos falam dessa hierarquia. Neste contexto de trote, um grupo de rapazes organiza um concurso de beleza entre as calouras e parte delas aceita participar, inclusive tirando a blusa. Neste momento elas estão reduzidas a seus corpos, são objetos, e a plateia eminentemente masculina explicita isso, gritando “bundão” e “peitão”. Elas são bonecas infláveis. A cena ali está ritualizada, exagerada, mas quantas vezes vivemos isso em nosso cotidiano, em nossas relações sexuais e afetivas, de forma menos espetacular? De forma menos catártica e barulhenta, é algo que acontece toda noite, em nossas casas, em toda festa, em muitos bares…

As mulheres-coisas exibidas ali – e lembremos que em nossa sociedade as coisas são imediatamente reposicionadas como mercadorias (algo que pode ser produzido, comprado, vendido) – são confrontadas umas com as outras, competem pelo desejo masculino. De novo: essa é uma situação cotidiana, mulheres raramente são solidárias entre si, não é isso que aprendem. Quando um homem “trai” sua mulher, a quem havia prometido fidelidade, as duas mulheres brigam uma com a outra, não com o amado…

Enfim, uma das concorrentes ganha e recebe a faixa de vencedora: seu corpo foi premiado.

Mas havia um grupo de mulheres na frente do prédio que romperam com os pressupostos dessa pretensa brincadeira: não estavam ali em busca do desejo masculino; estavam unidas; e manifestavam-se, tinham voz própria. As calouras que desfilavam, andavam em silêncio, no máximo sorriam. As feministas que protestavam tinham opinião e gritavam, cantavam, argumentavam. Esta também não é uma situação extraordinária: quando as mulheres tomam a palavra, estabelece-se uma ruptura na lógica do cotidiano. A maioria das mulheres, na verdade, tem dificuldade de falar em público ou na sala de aula, e até mesmo de ter vez e voz nos pequenos grupos, seja a família, sejam os amigos.

Feministas protestam contra a realização do concurso “Miss Bixete” na USP São Carlos.

Feministas protestam contra a realização do concurso “Miss Bixete” na USP São Carlos.

A essa ruptura explicitada pelas manifestantes, os organizadores do concurso de beleza reagem com diversos tipos de agressividade. Destaco uma delas antes de voltar a nossa cena: elas são “xingadas” de lésbicas. De novo uma cena cotidiana: quase toda mulher já viveu esse tipo de situação ao recusar uma cantada, ou desviar-se de alguém que mexe com ela na rua: ‘Se ela não quer o meu desejo, não quer ser o meu objeto é porque não gosta de homens’. Será que os homens são inevitavelmente assim, veem as mulheres como bonecas infláveis à disposição do seu desejo?

Voltemos à encenação do ato sexual: prestemos atenção, o rapaz estava vestido de super-herói (homem aranha) e mascarado. Ele estava desumanizado, estava arrancado ou escondido de si mesmo, tanto quanto as moças que se exibiam no palco. Era uma casca, uma fantasia de ser super poderoso. É alto o preço a pagar numa relação que reduz a parceira a uma coisa. De novo: não vivemos isso no cotidiano? Não acontece cada vez que nos relacionamos dentro dessas estruturas de poder?

A cena do coito entre o super-herói e a boneca inflável é aqui, somos nós. Não é divertida, não é brincadeira, é uma cicatriz interna, pungente em cada um de nós.

Pausa. Fim do vídeo caseiro a respeito do trote.

Que podemos fazer? Há alguma saída? Creio que sim e apenas por isso escrevo. É possível construir relações igualitárias, tomar em nossas mãos a nossa própria vida, mas isso exige permanente vigilância e reflexão. Exige criar espaços de diálogo, de crítica coletiva, em que se abrem rupturas e começamos a nos distanciar das hierarquias, a recuperar, homens e mulheres, nossa humanidade.

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Marília Pinto de Carvalho é professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), onde coordena o Grupo de Pesquisa de Gênero, Educação e Cultura Sexual (EdGES).

1 comentário
  1. Ivo Cocco disse:

    Desde que se instituiu o trote, tem havido mais problema e confusão do que o pretenso “batismo” ou boas vindas ou o que se apelide a prática.
    Do meu ponto de vista, enquanto eu não estava envolvido, tal prática evidenciava uma forma antiquada de submeter os calouros a selvagerias degradantes, sem graça e sem utilidade alguma.
    Do momento seguinte à matrícula, alguns alunos que não queriam submeter-se ao trote, eram impedidos de entrar na sala de aula, começando por aí a estupidez, sem que a instituição se envolvesse ou exigisse da “comissão de trote” o respeito àquele direito.
    Um dos meus amigos que havia desistido de cursar o curso no ano anterior por causa de sua recusa em submeter-se ao trote, pediu-me que o ajudasse, porque eu também não achava aquilo algo útil ou necessário para o início da vida acadêmica, que era o argumento utilizado até pelas instituições de ensino.
    Resistimos e defendemos nosso direito, mas fomos perseguidos durante um certo tempo, e tentamos em vão mudar a cabeça dos dirigentes do diretório estudantil, que infelizmente, ainda hoje é utilizado políticamente.
    Isso ocorreu nos anos 60, em plena ditadura, e de lá para cá os casos de violência e exagero aumentaram de forma incontrolável, principalmente nas universidades públicas, justamente as que deveriam servir como exemplos.
    Não quero nem entrar na discussão do que seriam os exemplos, mesmo porque nossas universidades públicas estão muito longe dos objetivos de ensino, pesquisa e atendimento, embora publiquem boletins e dados tendentes a classificá-las como eficientes em termos de teses, pesquisas e demais indicadores.
    Os prejuízos causados pelos trotes não afetam somente os alunos submetidos a eles, mas a própria sociedade, que é obrigada a assistir cenas como as relatadas pela matéria aqui publicada, ainda mais que é essa mesma sociedade que banca o financiamento dessas instituições ditas gratuitas, porque públicas.
    Na verdade, as mais fortes pressões contra os trotes aconteceram em universidades particulares, pelo fato de serem pagas e por muitos dos seus alunos terem de bancar os custos e por isso exigirem mais objetividade em relação ao valor desembolsado, procurando maior eficácia da escola e melhor eficiência em seu aprendizado.
    A questão de gênero, entretanto, é indiferente, pois tanto nas universidades públicas quanto nas particulares o assunto tem tido uma discussão estéril, em vista de que as próprias mulheres não se dão o devido valor, seja em que situação for, política, social, empregatícia e até pessoal, porque, em sua grande maioria, acabam por aceitar as imposições de uma sociedade consumista, em que exercem um papel submisso, sem reivindicar esses mesmos direitos a que dizem ter.
    Sempre defendi a igualdade de direitos, e tenho citado a questão política como balizadora, porque sendo maioria, a mulher poderia eleger muito mais candidatas do seu gênero, independentemente da tal cota de 30% garantida(?).
    Por falar em cota, penso que aí está o nó da questão: enquanto se propõe esse percentual, os homens continuarão a ser maioria, da mesma forma que as cotas para negros e deficientes, pois desde sua criação, subentende apenas uma parcialidade que limita aquilo que pretenderia dilatar.

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