Os preconceitos por trás da expressão “gente bonita”

Ainda que eventualmente apareça um jogador de futebol grego (Katidis) fazendo referência ao nazismo, um deputado da bancada evangélica (Feliciano) balbuciando algo sobre uma suposta maldição do continente africano ou um ex-militar (Bolsonaro) denegrindo homossexuais sem nenhum pudor, já é claro que as ofensas discriminatórias estão sendo cada vez mais cerceadas. Atitudes como essas, impunes ou não, sofrem pelo menos um censura de setores militantes, o que demonstra que a sociedade já não tolera a discriminação como antes.

Isso não significa, em contrapartida, que estejamos caminhando para o progresso, como se pudéssemos circunscrever as atuais lutas numa narrativa positivista tão bobinha como essa. Preconceitos, para se perpetuar, também se atualizam, e a grande sacada é quando eles deixam de ser verdades enunciadas, explicitadas e declaramente conservadoras e passam a se infiltrar nas entrelinhas. É o que tem acontecido com a expressão, tão difundida, de “gente bonita”.

Ubatuba, praia do litoral Norte de São Paulo: uma região mais elitizada, que congrega "gente bonita".

Ubatuba, praia do litoral Norte de São Paulo: uma região mais elitizada, que congrega “gente bonita”.

Fala-se que tal balada tem “gente bonita”, determinada praia reune “gente bonita”, que vê-se “gente bonita” aqui e acolá. Fico me questionando quantos preconceitos, daqueles que a gente achou que já tinha superado, estão escondidos sob a caracterização de “gente bonita”, um termo que diz menos respeito à beleza em si e muito mais a um recorte de classe, raça e origem.

Com uma precisão cirúrgica, o sociólogo Antônio Flávio Pierucci (1999) já nos alertava que o preconceito contra nordestinos é um traço da cultura popular paulistana. Inferiorizar nordestinos continua sendo uma prática em São Paulo, ainda que velada. E talvez nem seja preciso citar o seu xará, Antônio Sérgio Guimarães (2004), para comentar o quanto o racismo é marcante na sociedade brasileira. Curioso é que, embora a xenofobia, o racismo e o elitismo sejam expressões tão pesadas – e por isso até evitadas no discurso corriqueiro – a expressão “gente bonita” agrega tudo isso, mas é falada com leveza, orgulho e descompromisso.

Na Praia Grande, litoral Sul de São Paulo, não há “gente bonita”. Esse pessoal migrou para Ubatuba, litoral Norte. No Conjunto Nacional, em Brasília, você não vai encontrar “gente bonita” (especialmente no andar térreo). No Rio de Janeiro, nem é preciso dizer que em Ipanema e Copabacana tem “gente bonita”, aqueles mesmos que inexistem sob os arcos da Lapa durante a semana. Curioso é que o adjetivo da suposta boniteza dessas pessoas anda lado a lado com a caracterização socioeconômica de quem frequenta esses espaços.

Praia Grande, litoral Sul de São Paulo: para se referir ao recorte de classe de forma mais sutil, fala-se da ausência de "gente bonita".

Praia Grande, litoral Sul de São Paulo: para se referir ao recorte de classe de forma mais sutil, fala-se da ausência de “gente bonita”.

Não se fala em evitar a Praia Grande porque é onde o Nordeste “baixa”. Só numa turma muito íntima de amigos se diz algo assim – exceto se você for militante da Juventude do PSDB e possuir conta no Twitter. Em público, fala-se que não tem “gente bonita”, o escudo que o pensamento racista e elitista das classes média/alta encontra para segregar socioespacialmente o público com o qual ela aceita conviver.

É o clássico processo de gentrificação, que tende a elitizar certas regiões enquanto se expulsa as camadas menos abastadas, arrastando-as para bolsões de pobreza. Em tempos no qual a miséria aparentemente tem diminuído no Brasil, esse processo torna-se mais conflitante, já vez que a classe trabalhadora passa a frequentar alguns dos mesmos espaços da classe média à medida que o seu poder de consumo cresce. A estratificação social permanece, pois a mobilidade social é ilusória e, no seco, o “pobre” continua “pobre”.

Da mesma forma, a “gente bonita” continua a mesma “gente bonita” e a sua finalidade, de etiquetar claramente de quem se trata, permanece como um eficiente código para que as classes média/alta possam segregar quais lugares deve-se frequentar, de modo a reproduzir seus privilégios, dentre as suas bolhas de segurança, o seu tradicional preconceito e sua afeição pelos lugares públicos privatizados e gentrificados. Tudo isso atrás de duas palavrinhas bem simples…

5 comentários
  1. Daniel disse:

    Ótimo texto, ótima percepção sobre o real significado dessas duas palavrinhas. Concordo plenamente.
    Ao meu ver, o texto ia bem, mas perde credibilidade quando leio “militante do
    PSDB”, pois aí já entra o viés político (não sou PSDBista, ok?) Entra em cena o coitadismo da esquerda.
    Muitas dos seus representantes (da esquerda) são contra “gente bonita” apenas no discurso, já ouviu falar em esquerda caviar? Pois então, o texto de certa forma foi preconceituoso ao dicotomizar e rotular quem fala e quando não fala “gente bonita”.

    • Olá Daniel, tudo bem?

      Agradeço pelo seu comentário e também pela sua crítica, com a qual concordo. Hoje, a menção aos “militantes do PSDB” parece fora de contexto, mas, à época que o texto foi escrito (março/2013), foi uma sátira ao comportamento da Juventude do PSDB que havia proferido inúmeros xingamentos racistas contra os nordestinos na ocasião da vitória de Fernando Haddad nas urnas da Prefeitura de São Paulo. Por isso o texto é tão voltado à experiência de São Paulo.

      Talvez o tom adotado nessa sátira tenha sido equivocado, e eu poderia ter contextualizado melhor a crítica. Enfim, já faz três anos que o texto foi publicado e, a essa altura, não há muito o que fazer.

      De toda forma, agradeço pelo toque.

      Sigamos conversando.

      Um abraço!

  2. LEONARDO ARAUJO EUGENO disse:

    Não sei o que foi melhor, o texto, as considerações do Daniel sobre o texto ou a resposta a altura e esclarecedora do Adriano, quanta civilidade, estão de parabens, abraços!

    • Obrigado pelo comentário, Leonardo!
      A gente tenta, a gente tenta… civilidade, nos dias de hoje, é para guardar à vácuo, rs.
      Um abraço!

  3. Carlos Marcos disse:

    O texto é verdadeiro, mas não quer dizer muita coisa relevante.
    Se você perceber “gente bonita” é realmente mais bonita, gente abastada tem mais tempo e dinheiro a serem investidos em beleza, academia, salão, plástica e geralmente, por questões históricas, são “brancos”.
    A população brasileira é altamente miscigenada mas a predominância é que as pessoas das camadas mais pobres tenham mais África e as pessoas das classes mais ricas tenham mais Europa no sangue.
    Apesar de haverem pessoas negras com fenótipo negro extremamente bonitas, como Lupita Nyong’o, os europeus e seus descendentes tendem a serem mais bonitos do que os descendentes dos africanos.
    Então misturando investimento+herança genética favorável as pessoas das classes mais abastadas tem realmente mais chance de serem bonitas.
    É interessante estar cercado de gente como você para não ficar parecendo um “estranho num outro planeta” e se você se acha “muita areia”, vá no lugar onde os caminhões são adequados e não tem nada de errado nisso, as pessoas podem frequentar os lugares onde se sentirem mais confortáveis. +Rico é geralmente mais educado do que pobre
    É difícil achar uma jovem russa que seja realmente feia, mas achar uma jovem feia na praia grande não é difícil.

    A “maldição” da África não existe, maldições não existem. Lá só é atrasado e pobre por causa da grande quantidade de guerrilhas e ditaduras que atrapalham o florescimento de uma economia produtiva que gere empregos e bens. A África se encontra nesta atual conjectura por conta da interferência criminosa que os países europeus fizeram no início do século XX.

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