Crianças queer e a “sagrada família”: esboços a partir de Beatriz Preciado

Recentemente, a filósofa espanhola Beatriz Preciado escreveu para o jornal francês Libération o artigo Qui défend l’enfant queer? (2013), criticando a Manif pour tous (Manifestação para todos), realizada em Paris, onde cerca de um milhão de pessoas protestavam contra o projeto de governo de François Hollande que pretende legitimar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e liberar a adoção de crianças para esses casais. Numa tradução do texto feita por Fernanda Nogueira, que circulou bastante por blogs, nós podemos entender Quem defende a criança queer?* como uma resposta as posições heterocentradas no atual debate conservador sobre a preservação da (sagrada) família. A filósofa não só apresentou sua perspectiva desde um ponto muito particular, deixando o texto muito mais tocante e oferecendo a voz de um Outro, um discurso da inversão, como também acusou a falha dos discursos da direita conservadora, colocou-os em juízo de tela, principalmente os de Frigide Barjot, que diziam que era necessário proteger os direitos da criança de ter um pai e uma mãe, uma família heterossexual.

Contra os discursos heterocentrados da Manifestação para Todos, realizada em Paris, a filósofa espanhola Beatriz Preciado nos escreve que a Manifestação não defendiam em nada o direitos das crianças de terem um pai e uma mãe, mas, antes, o poder de educar os filhos dentro das normas de gênero e sexual hétero, considerando a criança, de antemão, como heterossexual e como artefato político, sem voz, para essa construção.

Contra os discursos heterocentrados da Manifestação para Todos, realizada em Paris, a filósofa espanhola Beatriz Preciado nos escreve que a Manifestação não defendiam em nada o direitos das crianças de terem um pai e uma mãe, mas, antes, o poder de educar os filhos dentro das normas de gênero e sexual hétero, considerando a criança, de antemão, como heterossexual e como artefato político, sem voz, para essa construção.

Preciado nos deixou claro que a criança é um artefato biopolítico, construído pela ordem heterossexual, um “eu” sem voz, que não pode se rebelar politicamente, mas apenas sofrer a normalização pelo adulto de um amanhã heterossexual. Aqui, o gênero faz seu policiamento, ele vigia os berços, os corpos dóceis, captam papai e mamãe e transformam-nos em agentes policias dessa ação, reproduzindo a normativa heterossexual da masculinidade e feminilidade. Na verdade, está claro como “papai” e “mamãe” não são categorias afetivas, mas antes, categorias de poder, tecnologias do gênero. Assim, a criança queer não está protegida, os direitos dos meninos que querem se vestir de rosa, as meninas que querem se vestir de azul, os meninos que querem seus melhores amigos ou as meninas que querem suas melhores amigas, as meninas que querem jogar futebol, os meninos que querem brincar de boneca etc., não há uma proteção das violências de gênero. Por quê? Porque os pais não garantem esses direitos, mas, como posições reproduzidas, apenas as normas de gênero, o que é “natural” no interior do discurso heterocentrado. A autora coloca que ela já foi essa criança que a manifestação queria proteger, que ela tinha um pai e uma mãe, mas a ideologia da diferença sexual e heteronormatividade os haviam roubado dela, deixando-a sem amor e sem cuidados.

Comoventemente e com seu “humor corrosivo”, Preciado nos relata como seus pais se inscreviam nessa ordem “comum” da sociedade heterossexual, representantes inclusive dos bons costumes, da moral e do discurso cristão que imputava (e que continuar a imputar) aos homossexuais uma “anormalidade”, já que o que era “natural” era uma união entre um homem e uma mulher. Seu pai pregava isso constantemente e o usava essa tal “naturalidade” para explicar o porque de casais homossexuais serem estéreis e concluir que se ele tivesse um filho assim, o mataria. Bem, ele tinha uma filha “assim” e essa menina era Preciado. Na verdade, em Testo Yonqui nos já podemos escutar uma narrativa sobre sua infância, entre as páginas 25 e 26: “Nasci em 1970, momento em que a economia automobilística que parecia estar no auge, começa a declinar. Meu pai tinha a primeira e mais importante garagem de Burgos, um povoado gótico de padres e militares onde Franco havia instalada a nova capital simbólica da Espanha fascista. […] Meu pai investiu naqueles anos na indústria de fabricação de tijolos, que se viu abaixo em 1975 (acidentalmente, como a ditadura) com a crise do petróleo. No final, a coleção de carros foi vendida para pagar a quebra da fábrica. Eu chorei por aqueles carros. Entretanto, eu estava crescendo como uma pequena macho-fêmea. Meu pai chorava por isso”.

Onde ficam os direitos dos meninos se vestirem de rosa? As meninas de azul? Onde ficam os direitos das meninas brincarem de bola? Os meninos de bonecas? Quem defende a criança queer?

Onde ficam os direitos dos meninos se vestirem de rosa? As meninas de azul? Onde ficam os direitos das meninas brincarem de bola? Os meninos de bonecas? Quem defende a criança queer?

A autora escreve sobre os conflitos na escola de freiras, quando mandada desenhar sua futura família e ela a desenha com sua melhor amiga, numa utopia sexual, em que o casamento era para todos. A escola, mais que do rápido encaminhou uma carta a seus pais os aconselhando a levá-la em um psiquiatra. Sem contar, nas opressões diárias de colegas que se juntavam em frente a sua sala pra reprimi-la, segundo ela, eles diziam: “Saí daí sapatão, você vai ser violada para aprender a beijar como Deus ensinou”. No meio de tudo isso, seu pai, que era o representante do imperativo heterossexual e sua mãe, que era uma redução do ser apenas a um útero reprodutivo não puderam salvá-la de uma depressão, exclusão e violência.

Aqui, é plenamente justificável dizer que as normas de gênero tornam as vidas precárias e algumas mais do que outras, já que certas vidas tornam-se invisíveis e violentadas no campo da “abjeção”, abjeção que o próprio gênero produz. Antes de tudo, essa precarização da vida, a começar pelas posições em Quem defende a criança queer parece poder ser lida, novamente, sobre o espectro que nos oferece a perspectiva de Slavoj Žižek (2012): as categorias “pai” e “mãe” estão inseridas na lógica reprodutiva da heteronormatividade e se aqui pensamos que as crianças queer terão sua defesa, elas não terão em um nível global, porque as categorias em questão sofreram uma perda de sentido em razão das normas do gênero. Em outras palavras, “pai” e “mãe” parecem oferecer o amor, o cuidado, os direitos da criança, quando na verdade elas oferecem, mas, é claro, não em todos os casos, apenas os próprios direitos das normas de gênero, da sexualidade e da heteronormatividade: elas oferecem o vazio.

"Eles [da Manifestação para Todos]", escreve Preciado, "desfilam para conservar o direito de discriminar, castigar e corrigir qualquer forma de dissidência ou desvio, mas também para lembrar aos pais dos filhos não-heterossexuais que o seu dever é ter vergonha deles, rejeitá-los e corregi-los"

“Eles [da Manifestação para Todos]”, escreve Preciado, “desfilam para conservar o direito de discriminar, castigar e corrigir qualquer forma de dissidência ou desvio, mas também para lembrar aos pais dos filhos não-heterossexuais que o seu dever é ter vergonha deles, rejeitá-los e corregi-los”

É claro, nós podemos escutar também as mordidelas de Michel Foucault colocando a família como instituição elaborada pelas normas de gênero, estabelecendo o campo dos “casais legítimos”, aqueles que mantêm uma relação conjugal heterossexual monogâmica. Aquela que domestica o sexo, o confisca para o quarto do casal, estabelece sua injunção única e exclusivamente reprodutora, detém os saberes sobre o “sexo”. Ratifica-se aqui a família como dispositivo da construção histórica do individuo: produção e re-produção.

Voltando ao texto de Preciado, ela nos escreve sobre a superação desse “vazio” quando seus pais se colocaram a favor do casamento homossexual na Espanha, em 2005, não defendo apenas os direitos dela, mas também os próprios direitos deles de serem pais de uma criança queer, de um mundo onde a paternidade e a maternidade não está ligado ao sexo, gênero ou orientação sexual. Infelizmente, nós sabemos que esse nem sempre é o desfecho das crianças que não tem o direito de serem diferentes, principalmente se levarmos em conta os discursos conservadores heterócratas que capturam a família na ordem heterocentrada, produzindo os pais como instrumentos de uma educação da norma sexual e de gênero. Esses discursos falaciosos não defendem em nada a família, mas somente as normas de gênero, esvaziando cada vez mais o sentido de uma unidade que deveria ser preenchida pelo afeto e amor, pelo direito das crianças terem voz.


* Essa versão pode ser encontrada no site Homorrealidade ou no Instituto Adé Diversidade.

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