Um olhar sobre a Sociologia: da colonização ao pós-colonialismo

Se as sociedades têm uma história, as histórias que são contadas sobre elas também têm. As Ciências Sociais – seus conceitos, suas teorias, seus métodos – estão completamente mergulhadas em um contexto social, que explica seus desenvolvimento desde sua formação às suas tendências no século XXI. Porém, nem tudo são flores. Destaca a socióloga australiana Raewyn Connell, em Confronting Equality (2011), que a história da Sociologia nos remete ao imperialismo e à colonização.

Quando se fala em Sociologia, em qualquer parte do mundo, diz-se que seus pais fundadores (carinhosamente apelidados de “os três porquinhos”) são Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber, os quais escreviam em finais do século XIX sobre as mudanças que aconteciam na Europa, entre os quais se destaca a modernização, acompanhada da revolução industrial, a secularização etc. Em Southern Theory (2007), Connell vai defender que essa história não passa de um mito, uma mentira que se desenvolveu a partir da segunda metade do século passado como forma de tapar uma lacuna que se abrira em uma Sociologia em crise.

A tríade Marx-Weber-Durkheim, considerados os “pais fundadores” da Sociologia, e citados como se fossem uma única palavra.

A tríade Marx-Weber-Durkheim, considerados os “pais fundadores” da Sociologia, e citados como se fossem uma única palavra.

As principais razões para se duvidar da narrativa tradicional da Sociologia são três: (1) a criação da Sociologia foi um processo muito mais coletivo do que se narra (aliás, a tríade Marx-Durkheim-Weber era pouquíssimo ou nada referenciada por outros autores pioneiros da Sociologia ainda nas últimas décadas de 1800); (2) para se constituir como ciência, a pesquisa sociológica, em tempos de positivismo vitoriano, deveria se pautar por generalizações a partir de grandes coletas de dados, que se faziam principalmente no mundo colonizado; (3) dessa forma, o conhecimento era construído com base em um contraste entre a metrópole e a colônia, uma distinção mesmo que não tão explicitada entre o mundo “avançado” e o “primitivo”.

Esse contexto nos leva a pensar que a Sociologia é muito menos uma decorrência da “modernidade” que se desenvolveu no seio da Europa e dos Estados Unidos – sendo posteriormente exportada para o restante do planeta – e muito mais um produto que surgiu em um contexto global de imperialismo, dando uma resposta intelectual ao problema de legitimação dos impérios.

Etnografia: uma metodologia amplamente empregada para descrever "outras sociedades", usualmente no mundo colonizado ou ou  ao menos fora dos territórios das metrópoles.

Etnografia: uma metodologia amplamente empregada para descrever “outras sociedades”, usualmente no mundo colonizado ou ou ao menos fora dos territórios das metrópoles.

Nesse sentido, Connell (2011) ressalta que desde o seu surgimento a Sociologia carregou uma ideologia liberal claramente atrelada aos ideais burgueses daqueles que a empreendiam. Por isso, a cisão – marcante até hoje! – entre uma teoria que é pensada, produzida e publicada na metrópole, em contraposição a uma coleta de dados que é feita nas colônias. Assim nasce a etnografia como uma metodologia apropriada para a “descrição das etnias” ou, para ser preto no branco, uma ciência das diferenças raciais.

Relacionado a tudo isso, um positivismo à moda Augusto Comte, de que as diferenças culturais poderiam ser hierarquizadas, distinguindo sociedades “primitivas” (mais atrasadas, mais simples) das “avançadas” ou “modernas” (mais complexas, mais europeias). Há autores que consideram, de fato, que o projeto liberal defendido pela burguesia imperialista atingiu o seu ápice na colonização, quando a cultura do “Outro” é solapada pelos interesses comerciais, acompanhada da implantação de um sistema político e modo de produção, da imposição de uma língua, religião, cultura etc. Em tal contexto, a Antropologia fez uso do colonialismo para a sua coleta de dados, assim como o colonialismo também se baseou nas pesquisas antropológicas.

Os horrores das trincheiras na Primeira Guerra Mundial: quando a noção de “progresso”, embutida na ideologia liberal e no imperialismo, é posta em xeque.

Os horrores das trincheiras na Primeira Guerra Mundial: quando a noção de “progresso”, embutida na ideologia liberal e no imperialismo, é posta em xeque.

Dando uma guinada na história, a Sociologia é reconstruída a partir da crise que se seguiu à Primeira Guerra Mundial (CONNELL, 2007). Os velhos impérios europeus entram em declínio. O poder se reconfigura e os EUA passam a se tornar uma potência mundial – o que atinge o seu cume após a Segunda Guerra Mundial. Junto com os horrores das guerras, do fascismo e do stalinismo, os movimentos de independência da Índia, Indonésia, entre outros, paulativamente mostraram que a noção de progresso – embutida na ideia de ocidentalização do mundo, um paradigma fundador do modo tradicional de se pensar ciência – foi sendo minada, até ser totalmente enterrada.

As Ciências Sociais também se transformaram. De uma ciência baseada na comparação entre colônia e metrópole, a Sociologia passa a focar nas desigualdades no interior da própria metrópole. Essa mudança – considerado por muitos uma “ruptura epistemológica” – é a chave para entender a Sociologia contemporânea. É também, para Connell (2007), o momento em que a metrópole se separa intelectualmente do restante do mundo, a chamada “periferia global”. Um exemplo disso é a noção de sistema social, de Talcott Parsons, que na década de 1950 causou grande impacto na Sociologia estadunidense. Entre outras, a obra retrata uma sociedade hermética, auto-suficiente, fechada em si mesma como um sistema isolado.

A institucionalição da Sociologia como uma entre outras disciplinas no sistema de ensino superior estadunidense: a criação de uma cânone que orienta a sua pedagogia.

A institucionalição da Sociologia como uma entre outras disciplinas no sistema de ensino superior estadunidense: a criação de uma cânone que orienta a sua pedagogia.

Nessa época, a Sociologia passa por uma fase de grande florescimento na academia norte-americana. Metodologias importantes até hoje, como as “histórias de vida” (que trazem elementos da psicanálise), passaram a ser incorporadas no jargão da área; esse campo de pesquisa começa a receber muito financiamento estatal e privado (advindos, por exemplo, do império Rockefeller); e o sistema universitário dos EUA, o primeiro a se massificar no mundo, institucionaliza a Sociologia como uma entre outras disciplinas. E isso não fica só nos EUA. Em tempos de Guerra Fria, o conhecimento também é entendido como um importante produto a ser exportado a fim de se manter a hegemonia, e assim nasce, a título de ilustração, a Fundação Ford financiando pesquisas na América Latina, inclusive no Brasil.

Quando a Sociologia passa a ser desenvolvida no interior de um sistema universitário – cujo intuito é formar estudantes de graduação e pós-graduação em larga escala – nasce a ideia de pedagogizar a disciplina. Como forma de orientar a formação em Sociologia, faz-se necessário adotar livros-textos, focar certos autores e conceitos. Segundo Connell (2007), foi a partir desse momento que se criou o mito dos “pais fundadores”, a canonização de Marx-Durkheim-Weber. Por motivos de espaço, não poderei desenvolver o porquê de cada um desses autores. Mas o ponto é: a história da Sociologia foi reescrita, mantendo uma característica importante do conhecimento teórico classicamente produzido na metrópole global – a saber, a negligência do que se faz no resto do mundo (a maioria do planeta, diga-se de passagem).

Raewyn Connell (1944-), socióloga australiana, tem escrito com frequência sobre o pós-colonialismo (por ela chamado de “teorias do Sul”) e como descolonizar o conhecimento, e não só ele.

Raewyn Connell (1944-), socióloga australiana, tem escrito com frequência sobre o pós-colonialismo (por ela chamado de “teorias do Sul”) e como descolonizar o conhecimento, e não só ele.

Até hoje, a dinâmica de produção de conhecimento não se difere muito desse quadro. Por séculos, temos lido obras de autores do “Norte global” falando de suas teorias – pensadas a partir de sua experiência na metrópole – como se fossem aplicáveis para o mundo todo. Curiosamente, essas teorias raramente trazem à tona algum aspecto da colonização, porque esse tema parece não importar para eles. Enquanto isso, no “Sul global”, nós apenas fazemos pesquisas empíricas, todas elas partindo de recortes teóricos produzidos na metrópole (muitos deles inadequados, lidos superficialmente, dogmatizados), ou no máximo criando algumas teorias que não vão muito além do nosso próprio território.

A hegemonia euro-americana, nas palavras de Connell (2011), criou uma Sociologia bifurcada na maior parte do mundo: existe uma separação brutal entre a teoria/método (que costumam ser acriticamente importados) e a coleta dos dados e aplicação dos resultados. Como dizem por aí: Paris pensa o mundo; São Paulo pensa o Brasil; Recife pensa Pernambuco. As relações de poder, em âmbito global, estão evidente, para não dizer gritantes. E não se trata apenas de uma hierarquia existente no interior de uma mesma disciplina. Questões econômicas, políticas e culturais mais amplas entram no mesmo caldo.

A essa luta, de “descolonizar” o tanto de nós que ainda está colonizado, se convenciou chamar pós-colonialismo. É mais complexo, mais sutil, mais difícil do que o colonialismo clássico, baseado em um imperialismo contra o qual facilmente poderíamos nos opor. Ainda, o pós-colonialismo, ao contrário dos antigos movimentos de emancipação, não se pauta por um nacionalismo. É exatamente o contrário: o que está em jogo é a construção de uma real internacionalização (do conhecimento, da política, da cidadania) que quebre com hegemonias e imperialismos. O mundo todo – seja o Sul ou o Norte geopolíticos – deveria se engajar nessa luta, se o que queremos é mesmo uma democracia.

8 comentários
  1. Eu sempre engraçado a maneira como Pierre Bourdieu falava com extremo cuidado a sua teoria pra não ser classificado como eurocentrista e etc.. Bom texto😀

    • Olá Vinicius,

      Sendo eurocentrista ou não, Bourdieu estaria, inevitavelmente, falando a partir do seu ponto de vista, que é europeu ou, no mínimo, francês. Há estudos dele, como a Dominação Masculina, que são altamente criticados – esse, na real, é visto até como um anti-exemplo da sua obra – por serem absolutamente generalistas, quando ele diz que os Kabila são um espelho ampliada da “nossa sociedade” (“Nossa”, qual? Ocidental? Europeia? Francesa? Não se sabe). Porém, assim como outros autores da Sociologia, como Giddens, Bourdieu ignora completamente as relações coloniais. E é absolutamente curioso, como bem observa Connell (2007), porque ele testemunhou cenas na Algéria, onde fez pesquisa, nas quais o telhado das casas estava faltando em virtude dos conflitos entre essa colônia e a França. Ele viu o colonialismo. Mas não escreveu sobre ele. Ao contrário, narra detalhes sobre o casamento entre primos, e não coloca uma palavra sobre o colonialismo. É curioso como esse tema desaparece das chamadas “teorias do Norte”, enquanto é central para as nossas ideias. Pense, por exemplo, no CEPAL e a teoria do subdesenvolvimento, ou mesmo no pensamento de Paulo Freire.

      Obrigado pelo seu comentário! Abraços!

      • Isso eu acho curioso: Se, inevitavelmente ele falaria de um ponto de vista europeu, que pode ser detalhado para Europeu e Francês, que pode ser detalhado para Europeu, Francês de Esquerda, que pode ser detalhado infinitamente, retirando sua autoridade a priori para falar de qualquer coisa que não seja algo dentro do seu universo particular de socialização.

        Assim, qualquer esforço das ciências sociais esbarra no limite daquilo que é estruturante. De um jeito como se não houvesse maneira nenhuma de fazer nenhum tipo de generalização – nem estrutural – como se o próprio estruturalismo estivesse imerso em conceitos que só se validam na sociedade em que ele nasceu. Mas eu acredito que o próprio Levi-Strauss chegou a pensar nisso por alguns momentos… Mesmo assim continuou sua pesquisa e sua teoria.

        • Hum, acho a colocação relevante, mas não vejo por aí. Se pensarmos assim, não haveria ciência social, porque, além de cada um ficar restrito estritamente ao seu pertencimento, quem disse que eu teria motivos para acreditar no que alguém de mesmo pertencimento social que eu – só que inevitalmente com outra experiência – defende e publica, não é?

          Não é essa a proposta do pós-colonialismo, tampouco das críticas à Bourdieu. Há conceitos formulados no Norte global que são úteis globalmente, sem dúvida. O fato delas serem originadas lá, a partir de uma experiência que está naquele contexto, não quer dizer que elas não sejam aplicáveis em outros lugares. A ideia de classe social, habitus, gênero, entre outros, podem ser facilmente exportáveis. Simplesmente porque há semelhanças entre muitas sociedades, o que permite pensá-las a partir de pontos de vista semelhantes, ainda que originados de regiões diferentes. Da mesma forma, os escritos do Paulo Freire no Brasil podem ser muito úteis para discutir a educação em outros lugares do mundo, possivelmente na mesma França de Bourdieu.

          A crítica aqui está em outros eixos: (1) uma radical divisão global do trabalho intelectual, estruturada de tal forma que o Norte se encarrega da teoria e prática, enquanto ao Sul cabe apenas a empiria completamente baseada naquela teoria; (2) nesse contexto, o Sul fica praticamente excluído de pensar teoria, por inúmeros motivos (as barreiras linguísticas, já que o conhecimento circula globalmente em alguns poucos idiomas; as dificuldades de publicar no exterior; uma certa acomodação da academia sulista em questionar paradigmas e procurar reformulá-los, pois aprende-se a ler, reler e usar tal autor, a chave de pensamento é “aplicar” tais ideias); (3) quando o Sul pensa teoria, ela fica restrita ao seu território; mesmo em um idioma acessível, a negligência de autores do Norte pode ser forte o suficiente a ponto do impacto de um autor sulista ser mínimo; (4) o uso acrítico, paradigmático e dogmático dos conhecimentos provenientes do Norte. A realidade social é cosntruída por cada olhar. Posso construí-la pelo viés da emancipação social, da reprodução social, do liberalismo conservador, do feminismo radical… as teorias rodeiam aí para que as usemos. Nada está dado.

          Cabe ao modo como nos apropriamos, criticamos e fazemos teoria dentro dessa estrutura de relações de poder. Está mais claro, Vinícius?

          Abraços e obrigado por proporcionar essa discussão.

  2. Ivo Cocco disse:

    Adriano, eu não sou sociólogo, e o pouco que estudei da matéria não me permitiria discutir o seu texto, mas me arrisco a opinar que a sociologia, nos moldes em que é baseada, submete-nos a aceitar a sobrevalência das culturas mais desenvolvidas em detrimento das outras, a bem dizer, das mais ricas sobre as mais pobres.
    Eu penso, também, que poucos estudantes se interessam pelo assunto, como você está fazendo, e que os meios acadêmicos não lhe dão o devido valor.
    Tanto isso é verdade, que a filosofia, que poderia ser sua introdutora, tem sido retirada da grade curricular do ensino médio brasileiro, o que aumenta ainda mais o seu desconhecimento, justamente onde deveria ser plantada a semente da dúvida, a partir do que poderia suscitar o seu renascimento, tanto em nível filosófico, propriamente dito, quanto em nível de raciocínio.
    Talvez eu esteja errado, mas a grande diferença entre o ensino atual e o dos anos 1950/1960, está exatamente na utilização maior ou menor da capacidade de cada aluno em entender e desenvolver os teoremas e suas hipóteses – para chegar a um resultado matemático, por exemplo – do que acostumá-lo a utilizar calculadoras e fórmulas pré-preparadas.
    Parece-me que o ensino caminha cada vez mais no sentido da automatização das ideias, e menos no desenvolvimento do pensamento, o que eleva o embotamento da capacidade humana.
    Desculpe-me por fazer este comentário, mas tenho observado o pouco interesse da juventude na discussão de temas como o presente, bem como nos demais temas científico/sociais que nos afetam, por isso a minha manifestação.

    • Oi Ivo Cocco,

      Não penso que a Sociologia – também conheço pouco dela! – seja tão etnocêntrica assim. Na realidade, tanto a Sociologia quanto a Antropologia estão entre aquelas que mais nos armam contra o etnocentrismo. As formas de etnocentrismo que possam existir são muito mais sutis. Não são, hoje, tão produtos do conhecimento por ela gerados, mas um subproduto da dinâmica de produção do conhecimento. O que quero dizer: conceitualmente, a Sociologia não é o maior sustentáculo do etnocentrismo (que pode ser entendido como um eurocentrismo ou EUA-centrismo), mas o contexto no qual a Sociologia se insere já traz, por si só, elementos que reproduzem uma relação desigual de poder entre o Norte e o Sul global. Pretendo escrever mais sobre isso em breve.

      Com relação à retirada da Filosofia (e também da Sociologia), não me parece que isso seja uma tendência que se limita ao Brasil. Mas, assim como você, eu também lamento e repudio esse estreitamento curricular. Penso que ambas as disciplinas são importantíssimas para a formaç~ao da capacidade crítica.

      Não saberia comentar a respeito da diferença entre o ensino atual e os anos 50/60. Me parece que as escolas brasileiros estão enfrentando obstáculos demais para que o ensino seja efetivo nos moldes que gostaríamos. Essa discussão já daria outra pano pra manga, mas acho que o meu post sobre Sociologia já deu pano pra manga suficiente, rs!

      Obrigado pelo comentário.

      • Ivo Côcco disse:

        Adriano, ainda não li seu novo post “uma ciência secundária?”, mas tenho certeza da sua importância para despertar discussão. É pena que a grande maioria dos internautas não se interesse (ou não se manifeste) por temas como os que você aborda. Mas tais discussões nos predispõem a comentar mais objetivamente sobre as grandes questões que nos envolvem, para um exercício mais prático do que teórico, como tenho feito através de artigos críticos como o texto a seguir:O BRASIL É O BRASIL   Ivo Cocco   Se acaso pudéssemos voltar ao passado, muitos de nós nos surpreenderíamos com as mudanças ocorridas, e mais ainda, com as questões morais e os costumes. Do ponto de vista da moral, considerando-se válida a sua definição de “conjunto de regras de conduta ou hábitos julgados válidos”, podemos afirmar que quase tudo mudou, justamente por isso, ou seja, os hábitos moldaram a moral. Quantos aos costumes, definidos como “usos, hábitos ou práticas geralmente observadas”, fica fácil perceber que os costumes podem interferir na moral e esta, obviamente precisa ser redefinida, não mais como hábitos julgados válidos, mas como tudo que seja habitual, usual ou observado na prática. Isso é o que está acontecendo no Brasil, que já não é o Brasil, evidentemente, pois acreditava-se que a moral fosse a reguladora dos usos e costumes, e não o contrário, como acontece. Então, as leis e a ética, esta definida como “conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser humano”, passam a nortear também a má conduta, eis que sua outra definição é o “estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal”. Aí está o perigo, pois se os usos e costumes se referem a toda a sociedade, os grupos de marginais, maus políticos, governantes inescrupulosos e desonestos, que infestam o país, ditam as normas, como acontece nas favelas, por exemplo, e tudo acaba sendo moral. Por essas e outras é que tenho me revoltado quando a justiça decide uma determinada questão como legal, definida como “referente ou conforme a lei”, embora se trate de algo imoral, e isso tem dado a impressão de que se instaurou no Brasil, uma terra de ninguém, onde as medidas são arbitrárias, “em que há arbítrio, despótico”. A sociedade brasileira, acostumada ao comodismo, à inanição, às vezes tem um sobressalto, ainda mais agora com a internet, o facebook, o twiter etc., mas em seguida se conforma com os novos usos e costumes, e passa a copiar o que antes repudiava. Aqueles que lutaram e morreram na defesa do que julgavam certo, atualmente são considerados apenas como seguidores de ideais falsos, como foi o caso dos comunistas, durante muito tempo chamados de comedores de criancinhas… No caso da China, onde a lei pune com rigor os criminosos, executando alguns publicamente, o ocidente a considerava inimiga, e o regime de Mao Tse Tung implantou o Livro Vermelho, como uma bíblia, a ser seguido por todos, em que os usos e costumes, a partir dali, passaram a ser regra. Essa foi a moral, pra muitos, ilegal. A China, atualmente, é modelo de desenvolvimento, como a segunda maior economia da Terra, enquanto o Brasil continua a adotar os sistemas vigentes no resto do mundo, ao sabor dos ventos alísios, que sopram numa só direção. O Brasil poderia ser outro Brasil, caso sua Constituição não fosse também uma cópia das constituições do resto do mundo, privilegiando sistemas econômicos escravocratas, modelos de subordinação internacional. Não vai longe a época em que a internacionalização era disputada acirradamente, quando se combatiam as ditaduras daqui e dali. Finalmente venceu a globalização “processo de integração entre as economias e sociedades dos vários países, especialmente no que se refere à produção de mercadorias e serviços, aos mercados financeiros e à difusão de informações”. Os que estavam por trás do pano, definiam as ditaduras como supressoras do direito e da liberdade, mas depois, como num passe de mágica, a globalização nivelou todo o mundo a uma ditadura geral, sem outra saída, porque globalizar é “totalizar, integralizar”, por definição. O verde e o amarelo da bandeira com estrelinhas, agora são o vermelho e o branco com linhas. O Brasil é o Brasil, totalizado, integralizado, globalizado, transgênico.

        ________________________________

  3. Leyllyanne Bezerra disse:

    gente, no entendo muito da rea, mas achei legal.CompartilhandobjsLeylly Date: Mon, 8 Apr 2013 02:46:29 +0000 To: leyllyanne@hotmail.com

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