Sobre os movimentos queer ou movimentos vigiados (e castigados)

homoafetividade

Por que afetos entre pessoas do mesmo sexo em lugares públicos incomodam tanto a maioria das pessoas? O que esses movimentos reclamam diante de um mundo heteronormativo?

Nesse ano, nós tivemos a notícia (não pela grande mídia, é claro) de um casal homossexual que foi coagido em um dos estabelecimentos do McDonald’s, em Campinas, por demonstrações de afetos frente aos demais clientes, deixando o ambiente um tanto quanto “constrangedor”, como colocou a funcionária que os interpelou. O caso ganhou grandes repercussões nas redes sociais, principalmente porque um dos namorados expôs sua indignação num vídeo no YouTube, culminando com o protesto de grupos que lutam contra a homofobia com um “beijo gay coletivo” na frente do estabelecimento*. É claro, falar em protagonizar um “beijo gay” como protesto a homofobia parece uma ação que temos assistido bastante, recentemente, sobretudo se levamos em conta as imagens que circularam, também pelas redes sociais, mídias alternativas, de atores do mesmo sexo que se beijaram como forma de repúdio a permanência do deputado Marcos Feliciano na presidência da Comissão dos Direitos Humanos. Recentemente, também ouvi de um colega que era muito perigoso beijar uma pessoa do mesmo sexo numa balada que não GLS, porque esses tipos de movimentos são altamente vigiados e se ocorrem provocam um alvoroço danado, porque as pessoas dizem que é preciso “trazer a lanterna”, uma violência discursiva que serve para vulnerabilizar esses movimentos onde o “certo” é um beijo entre uma menina e um menino, expondo a comunidade LGBT à vergonha e, inclusive, à violência.

Eu gostaria de sugerir como poderia ser oferecida a seguinte leitura para esses movimentos: eles se realizam num espaço onde eles próprios não têm o direito de serem realizados, reivindicando o próprio direito em questão — algo que pode soar como uma contradição performativa da linguagem. Claramente, o primeiro caso expõe, em linhas gerais, as vidas queer que estão tentando que suas vidas sejam possíveis dentro de uma cidadania igualitária, uma cidadania que é possível amar a qualquer um e que esse amor não seja relegado ao espaço privado, aos espaços invisíveis. A funcionária que abordou este casal especificamente representa a autoridade heterossexista, a própria Lei que vigia os movimentos mesmos, para que eles não aconteçam os interpelará dizendo que eles não têm aquele direito, ao mínimo, de realizá-los ali (no espaço público = heteronormativo). Os protestos contra essa ação reivindicam explicitamente um direito que não é concedido a essas pessoas, a exposição de uma norma que torna certas vidas vulneráveis ao insulto e a exclusão. Aqui, nós deveríamos, como exercício da nossa própria vida, pensar mais no “espaço”, como o espaço está fundamentado a favor de uma heteronormatividade que regula os movimentos que podem ser realizados “ali”.

Observem como as imagens do segundo caso podem ser retiradas de seu contexto — não diminuindo, é claro, o valor que elas têm contra as posições excludentes de Marcos Feliciano — e serem capturas no seguinte contexto: elas surgem, antes de qualquer coisa, nos espaços virtuais como imagens que não deveriam aparecer ali, como imagens que o centro hétero não nos tem permitido ver. Elas tem um alto valor de deslocamento, elas chegam com uma força da qual nós não podemos desviar, de um lugar não se sabe onde, com uma mensagem que não tem o direito de aparecer ali.

Quando certas formas de afetos não devem certas manifestadas, quando “nossos” corpos não podem se tocar, quando partes do “meu” corpo tem de se movimentar exatamente dessa ou daquela maneira, ser colocada ali e aí de forma alguma, não está claro como há um princípio de inteligibilidade que estabelece aquilo mesmo que é continuo e possível, quais corpos estabelecem uma relação de continuidade com o “meu”, quais movimentos devem surgir nesse espaço controlado?

Quando certas formas de afetos não devem certas manifestadas, quando “nossos” corpos não podem se tocar, quando partes do “meu” corpo tem de se movimentar exatamente dessa ou daquela maneira, ser colocada ali e aí de forma alguma, não está claro como há um princípio de inteligibilidade que estabelece aquilo mesmo que é continuo e possível, quais corpos estabelecem uma relação de continuidade com o “meu”, quais movimentos devem surgir nesse espaço controlado?

Esses acontecimentos elucidam qual regime sexual torna certas vidas precárias, quais normas de gênero excluem certos sujeitos da cidadania, aliás, devemos nos perguntar, quem são realmente os sujeitos aqui? Quando certas formas de afetos não devem ser manifestadas, quando “nossos” corpos não podem se tocar, quando partes de “meu” corpo tem de se movimentar exatamente dessa ou daquela maneira, ser colocada ali e aí de forma alguma, está claro como há um princípio de inteligibilidade que estabelece aquilo mesmo que é continuo e possível, quais corpos estabelecem uma relação de continuidade com o “meu”, quais movimentos devem surgir nesse espaço controlado. É plenamente justificável retomar as palavras da filósofa espanhola Beatriz Preciado em seu Testo Yonqui (2008) e dizer que no espaço e no tempo presente “todas as formas de sexualidade e de produção de prazer, todas as economias libidinais e biopolíticas estão sujeitas a um mesmo regime farmacopornográfico, as mesmas tecnologias moleculares e digitais da produção do sexo, do gênero e da sexualidade”. Sendo que uma das características principais da heteronormatividade é “o estabelecimento, através de um sistema científico de diagnóstico e classificação do corpo, de uma linearidade causal entre o sexo anatômico (genitais femininos ou masculinos), gênero (aparência, rol social, isso que depois Judith Butler denominará performance feminina ou masculina) e sexualidade (heterossexual ou perversa)” e que, ainda, “[n]este modelo estabelecido pela psicologia do século XIX […] a um sexo masculino lhe corresponderia naturalmente uma expressão de gênero masculino e uma orientação heterossexual” (PRECIADO, 2008, p. 96, tradução minha).

Assim, não é um absurdo sugerir que a expressão do último caso deveria ser lida — num mesmo espectro da violência que o filósofo esloveno Slavoj Žižek (2012) sugere que leiamos as palavras de Jesus Cristo, quando diz: “Não vim trazer a paz, mas a espada” — na injunção parodística da própria voz heteronormativa: “Não vim trazer a paz, mas a lanterna”. É claro, o regime heterocentrado e normativo não oferece a “paz”, mas somente a “lanterna”, a regulação e punição dos sujeitos desviantes nos espaços. Expor um “beijo gay” sob a luz da lanterna heterossexista significa castigar aqueles corpos que ousam a exercer um direito que eles não têm, significa expor (clarear) esses corpos executando tal ação e fazer funcionar as próprias normas de gênero e sexual para colocá-los sob a própria luz da precariedade da vida proporcionada por essas normas.

Que tipo de performance, com o "beijo coletivo gay", estavam fazendo os manifestantes contra o McDonald's em razão de ter uma funcionária do estabelecimento ter pedido para um casal homossexual parar de trocar afetos? Como nos podemos nos compreender essa ação, justamente quando ela se dá no próprio espaço onde ela já fora punida? (CRÉDITOS DA IMAGEM: Eduardo Schiavoni)

Que tipo de performance, com o “beijo coletivo gay”, estavam fazendo os manifestantes contra o McDonald’s em razão de ter uma funcionária do estabelecimento ter pedido para um casal homossexual parar de trocar afetos? Como nos podemos nos compreender essa ação, justamente quando ela se dá no próprio espaço onde ela já fora punida? (CRÉDITOS DA IMAGEM: Eduardo Schiavoni)

Não vou negar como toda a discussão aqui girou em torno da leitura Performatividad, precariedad y políticas sexuales (2009), de Judith Butler, principalmente quando ela observa que quando os imigrantes ilegais encheram, em 2006, as ruas de Los Angeles, cantando o hino dos Estados Unidos em inglês e espanhol, eles estavam exercendo um direito sem ter o direito a esse direito. Contraditoriamente, como escreve a autora, eles expunham publicamente e, portanto, numa esfera onde eles não tinham esse direito, que eles deveriam ter o direito de ser considerados cidadãos. Além disso, a performance que eles realizavam ali, colocavam em juízo de tela a realidade multilíngüe da esfera pública, rejeitando a hierarquia que estabelece o inglês como linguagem obrigatório para os serviços e escolas públicas, logo a privatização do inglês como linguagem pública. “Cantar a canção”, escreve Butler (2009, p. 326, tradução minha), “é também uma maneira de expor publicamente a negação que sofrem tanto a linguagem espanhola como os trabalhadores ilegais, numa esfera pública onde já se propagaram os falantes de espanhol e os trabalhadores ilegais”.

Ora, a troca de afetos entre pessoas queer nos espaços públicos não produzem os mesmos efeitos? O “beijo gay coletivo” e, é claro, embora originalmente, a troca de afetos entre o casal não possa ter sido dirigida nesse sentido, assim como dos atores contra Marcos Feliciano, nós poderíamos dizer que todos eles se inserem nessa perspectiva de reclamar um direito num espaço onde não se tem o direito a reivindicação desse direito, como também denunciar o que constitui a esfera pública, quais são as exclusões que ela faz a favor de uma relação de poder para poder emergir, como os espaços estão formados por essas relações. Esse é um campo profícuo que se abre e que, inclusive, retornaremos aqui, principalmente para nos apropriarmos mais dedicadamente às reflexões de Butler, compreendendo as questões centrais de seu artigo e entendendo mais profundamente a como reivindicações de certos direitos podem ser feitas quando não se tem direito a essa reivindicação e como o gênero se relaciona com a performatividade da vida e a questão se volta a inscrever nos direitos dessas vidas precárias. Até lá: reflitamos!


* Veja a notícia no Portal Gay1.

1 comentário
  1. Boas reflexões. Agora pensemos se nem um contato físico está garantido socialmente entre “quers”, em um país onde o “casamento” já está consolidado pode acontecer, então é que percebemos que a luta continua e mais movimentos articulados precisam acontecer, no sentido de desconstruir essa sociedade misógina, sexista e homofóbica
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