O privilégio na “ordem do dia”

Militâncias surgem, no geral, a partir de reivindicações dos grupos oprimidos, voltadas principalmente para discutir as formas de opressão, empoderar os grupos “minoritários” e modificar a sua realidade. Se hoje se discute machismo ou homofobia, isso não nasceu da bondade de homens e héteros que se mobilizaram contra a opressão de mulheres e lésbicas/gays, ainda que eles possam se mobilizar por isso – é até esperado que o façam! – mas esses conceitos, tão comuns hoje, nasceram de lutas.

E assim como as opressões estão sempre na pauta da militância, discutir o privilégio também deve estar. Um não existe sem o outro. São faces da mesma moeda, porque quando se fala em relações desiguais de poder, está se falando em relações em que uns estão privilegiados – possuem mais direitos, mais legitimidade, mais autoridade – e outros são oprimidos – são marginalizados, ignorados, violentados.

O pesquisador australiano Bob Pease, na curiosa obra Undoing Privilege (2010), se pergunta se é possível aos privilegiados se livrarem de sua própria condição de privilegiado. Não poderia ser por outra: o próprio autor é homem, branco, heterossexual e professor universitário em um país desenvolvido. Desmontar um privilégio implicaria, em suma, na ruptura de uma estrutura – dinâmica, nunca estática! – que mantém, reproduz e reforça privilégios, por mecanismos bastante conhecidos, que pretendo listar abaixo.

As feministas negras, em primeira instância, denunciaram o racismo no interior do próprio movimento feminista e o quanto as feministas brancas, de origem euro-americana, eram míopes para a questão racial. O feminismo agradece.

As feministas negras, em primeira instância, denunciaram o racismo no interior do próprio movimento feminista e o quanto as feministas brancas, de origem euro-americana, eram míopes para a questão racial. O feminismo agradece…

O primeiro, bem evidente, é a invisibilidade do privilégio. Um dos segredos de se manter um privilégio é desconhecê-lo, não senti-lo ou mesmo silenciá-lo. Michael Kimmell conta que quando foi a um congresso, escutou por alto uma conversa entre duas feministas, uma branca e uma negra. A feminista branca estava propondo à colega que as suas experiências na condição de “mulheres” poderiam superar diferenças outras, culturais ou raciais, e uni-las na causa. Em seguida, a feminista negra perguntou: “Quando você acorda de manhã e olha para o espelho, o que você vê?”. A colega respondeu: “Eu vejo uma mulher”, no que a primeira logo replicou: “Pois é, eu vejo uma mulher negra.” (PEASE, 2010).

Assim, vê-se que se a feminista branca não tomar consciência de sua cor – de que ela é branca e que isso significa privilégios em termos de relações raciais, ainda que seja feminista por estar ciente das opressões que sofre como mulher – ela poderia muito bem reproduzir privilégios de cor/raça e possivelmente de classe. Por isso, a primeira medida é falar do problema, expô-lo de forma a transformá-lo em um “problema”. Caso contrário, o privilégio não será questionado. Seguirá intacto, pois.

Acompanhado da invisibilidade, tem-se a normatização do privilégio: quando a condição privilegiada passa a ser entendida como norma, a partir da qual se definem os desvios. As diferenças são entendidas como negativas. Quando vemos uma cidade completamente inadequada à mobilidade de cadeirantes, por exemplo, fica evidente que a infraestrutura foi normatizada para uma condição não deficiente – ou, como dizem os militantes, se a sociedade não está adaptada aos portadores de necessidades especiais, a deficiência é da sociedade e não deles.

Femen Brazil: um grupo que se diz feminista, mas não possui papas na língua para reproduzir privilégios de classe e cor/raça, entre outros.

Femen Brazil: um grupo que se diz feminista, mas não possui papas na língua para reproduzir privilégios de classe e cor/raça, além de defender posições políticas bastante conservadoras.

Tal como a normatização, um privilégio pode ser facilmente naturalizado. Precisa de um exemplo mais óbvio do que os grupos homofóbicos têm feito no Brasil? Argumentos que atacam a “autenticidade” da relação homossexual são usados para deslegitimar não só a causa LGBT, mas também a própria vida de gays/lésbicas que frequentemente sofrem ataques físicos e verbais em todos os locais.

Por último, é importante destacar que os privilégios também podem se tornar motivo de orgulho. É o caso do “orgulho hétero” ou do “dia da consciência branca”. Isso se potencializa quando um determinado grupo não enxerga o seu privilégio e, a partir disso, passa a desconfiar de qualquer movimento que seja afirmativo dos grupos oprimidos. Assim, chamar a atenção para a relação desigual que existe – mas que nem sempre é percebida ou levada em conta – torna-se um desconforto, gerando uma atitude contrária (reação).

Portanto, se é para responder as perguntas colocadas por Pease (2010) a respeito dos próprios privilegiados tomarem consciência dos seus privilégios e lutarem para desfazê-lo, certamente a primeira resposta seria descaracterizar a invisibilidade, a normatização, a naturalização e o orgulho que podem envolver essas relações de desigualdade. Pois para o privilégio sair da “ordem do dia”, não basta ignorá-lo. É preciso desconstrui-lo.

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