Uma ciência secundária?

Para nós, que estamos no ambiente acadêmico seja lá em que área, uma questão que sempre nos ronda é por que parece que fazemos uma ciência de menor impacto: menos importante, menos reconhecida e menos citada. Muitas são as explicações dadas, entre falta de dinheiro, excesso de burocracia, baixo investimento, escassez de recursos humanos etc. Neste texto, pretendo tecer uma reflexão geral do papel secundário que não apenas o Brasil como também os países do Sul global desempenham na produção de conhecimento em âmbito global.

Os indicadores dessas desigualdades são muitos. Poderíamos tomar vários exemplos, do número de artigos publicados à quantidade de citações. Mas, apenas para ilustrar, vamos dar uma olhada na quantidade de prêmios Nobel entregues a países do Norte global, como EUA (338), Reino Unido (119), Alemanha (101) e França (65), se comparados a países como Argentina (5), Chile (2), Timor Leste (2), Irã (1) e Quênia (1), sem falar no Brasil, que possui apenas um agraciado, Peter Medawar, um biólogo filho de mãe inglesa e pai libanês que, embora nascido em Petrópolis (RJ) em 1915, construiu toda a sua carreira na Inglaterra.

Um esquema simplificado da divisão entre Norte e Sul econômicos (o que não necessariamente reflete na sua importância e participação na ciência que se faz  no mundo).

Um esquema simplificado da divisão entre Norte e Sul econômicos (o que não necessariamente reflete na sua importância e participação na ciência que se faz no mundo).

Considerando esse quadro desigual, nos intriga procurar uma explicação do porquê uma ciência se manter secundária mesmo na atualidade. Antes de prosseguir, é importante pontuar que as razões que fazem países como Bolívia, Congo ou Iraque serem coadjuvantes na produção de conhecimento são, em parte, as mesmas que os fazem coadjuvantes no cenário global como um todo. Basta dar uma olhada na forma como estão estruturadas organizações supranacionais como o FMI, o Banco Mundial ou em particular o Conselho de Segurança da ONU para perceber, com notável facilidade, quem abre e fecha as cortinas desse palco.

Da mesma forma, enquanto muitos países desenvolvidos já consolidaram um sistema de ensino superior amplo – mesmo que desigual e com defeitos! – outros ainda estão começando a escolarizar a sua população. As primeiras universidades surgiram na Europa há muitos séculos, enquanto a Universidade de São Paulo (USP), pioneira no Brasil, possui apenas 79 anos. Existe uma tradição, um legado, que muito pesa em favor da metrópole global. O que nos intriga é que essa divisão intelectual do trabalho parece se manter intocada, pois a própria dinâmica de produção de conhecimento a sustenta.

Paulin Hountondji (1942-), intelectual benimense, descreve alguns dos mecanismos de dependência do Sul ao Norte em matéria de ciência.

Paulin Hountondji (1942-), intelectual benimense, descreve alguns dos mecanismos de dependência do Sul ao Norte em matéria de ciência.

Como aponta o sociólogo originário de Benim (África Ocidental, ex-colônia da França) Paulin Hountondji (1997), as desigualdades econômicas entre Norte e Sul significam, entre outras, uma maior infraestrutura para os países desenvolvidos, de tal forma que os demais países deles dependem, por exemplo, da importação de equipamentos (como microscópios e reagentes) a livros em língua estrangeira.

Em segundo lugar, a maioria dos periódicos internacionais (entre Nature e Science) está hospedada e é mantida por instituições da metrópole global. O mesmo pode-se dizer quanto às editoras acadêmicas que possuem maior difusão internacional (aquelas relacionadas a universidades como Harvard, Stanford e Cambridge). E, uma característica essencial para a divisão intelectual do trabalho, todas essas publicam em um mesmo idioma que é lido pelo mundo inteiro: a língua inglesa.

O inglês é, ainda hoje, um idioma dominante – e mesmo com a ascensão da China ele não perderá o seu posto hegemônico tão cedo. Qualquer artigo produzido nos EUA, Reino Unido ou Austrália pode ser potencialmente lido por qualquer pesquisador(a) no mundo. Mas, se nós queremos ser lidos por outros povos, temos que publicar em inglês, o que não é uma tarefa simples, em especial nas ciências sociais. Se a pesquisa brasileira fica restrita ao português, o fluxo de conhecimento em nível internacional continuará sendo de mão única.

Universidades do Norte global costumam receber estudantes do mundo todo, engrossando o caldo da ciência que já é produzida por lá.

Universidades do Norte global costumam receber estudantes do mundo todo, engrossando o caldo da ciência que já é produzida por lá.

Além da barreira linguística, outros problemas dizem respeito ao trânsito intelectual ao redor do mundo. Há o fenômeno bastante conhecido da “fuga de cérebros”, que diz respeito à emigração de pesquisadores do seu país original para, geralmente, países da metrópole global, onde investe-se mais em pesquisa, a infra-estrutura é mais adequada, ganha-se melhor, a qualidade de vida nos centros urbanos costuma ser superior etc. O saldo é que cabeças pensantes saem do seu país de origem, que mais as necessitava, e vão para o Norte engrossar o caldo das várias cabeças pensantes que ali já residiam ou que imigraram.

Em muitas situações, a fim de construir sua carreira, intelectuais do Sul se vêem obrigados a morar no exterior para estudarem. Não é propriamente o caso do Brasil, mas ainda uma realidade em outras regiões. Em tempo, governos como o britânico e o australiano fazem uso dessa imigração para obterem lucros imensos sobre os seus estudantes internacionais. Na Austrália, por exemplo, o terceiro produto “exportado” mais lucrativo, atrás apenas do petróleo e do carvão, é a educação. Receber alunos asiáticos, em especial chineses, parece ser um bom negócio…

Participação da Monsanto na pesquisa nacional: quando o incentivo à ciência se presta a interesses outros - mais corporativos - que a produção de conhecimento em si.

Participação da Monsanto na pesquisa nacional: quando o incentivo à ciência se presta a interesses outros – mais corporativos – que a produção de conhecimento em si.

Por outro lado, pesquisadores do Norte também podem vir ao Sul, porém, em muitos casos, para coletar dados, informações ou realizar experimentos que vão servir às teses que eles escrevem e desenvolvem em seus próprios países de origem (HOUNTONDJI, 1997). Da mesma forma, a participação de empresas privadas e multinacionais, como a Monsanto, em pesquisas nacionais direciona os interesses da pesquisa acadêmica para os ditames do interesse corporativo, reforçando não só uma dependência Norte-Sul, como também a submissão da academia ao mercado.

Somada a todas essas desigualdades estruturais, há ainda questões epistemológicas, relacionadas à forma como conhecimento se constroi. Nesse sentido, a socióloga australiana Raewyn Connell (2007) aponta que a produção de conhecimento acaba por se basear completamente em paradigmas, conceitos e ideias importados do Norte. Faz-se análises baseadas em Marx, Bourdieu ou Foucault para praticamente qualquer problemática que se coloque diante de nós. O Sul global fica restrito à empiria (ou a uma teoria que não se aplica fora do seu território) enquanto o Norte esbanja teorias. Isso se adiciona à dificuldade, sentida por muitos pesquisadores do Sul, de se publicar discussões teóricas em periódicos do Norte. Existe preconceito, mesmo.

Todo esse quadro leva à constituição da ciência que se faz na maior parte do mundo como uma ciência secundária: uma produção de conhecimento que pouco é capaz de alterar as formas como o conhecimento pode ser pensado, construído ou modificado
. Evidentemente, a ciência não se encontra à parte da política, economia, cultura e demais esferas. Democratizar a dinâmica de conhecimento significa democratizar todas as relações globais, o que implica em diversificar as nossas referências culturais e sociais, bem como desmontar todas as formas de hegemonia político-econômica. Essa é uma luta que só está começando.

3 comentários
  1. Carmem disse:

    Parabéns pela reflexão.

  2. Essa herança da pobreza cultural, entre tantas outras, sempre nos foi imposta pelos nossos colonizadores… e ainda somos colônia sem a superação dos limites da lingua, da riqueza, do investimento. Nosso País tem condições de produzir ciência, porque a ciência que temos faz parte de uma universalidade cultural.

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