Uma globalização que não é tão global

Já vimos discutindo em outros posts o quanto o conhecimento produzido na metrópole global, em especial EUA e Europa Ocidental, tem a pretensão de falar em nome do mundo a partir das experiências que são vividas pelos autores em suas regiões de origem. Não podia ser muito diferente, se considerarmos que todos os autores estão inseridos em seu contexto, querendo ou não. Isso não invalida, por outro lado, que certos conceitos sejam exportados, como é o caso de “classe social”, sem que percamos de vista que tais conceitos foram formulados a partir de uma determinada experiência social.

Com a globalização, um tema global por excelência, a coisa fica um pouco mais complicada. Pode parecer óbvio o que vou dizer agora, mas formular uma teoria sobre a globalização deve inevitavelmente levar em conta a experiência que o mundo inteiro, e não só meia dúzia de países, tem a respeito dos processos de globalização. A forma como o Reino Unido ou os EUA encaram a globalização deve ser bastante diferente, deduzimos, da forma como o Chile ou a Índia o fazem. E essas distintas perspectivas não são apenas mais um capricho. Elas são a teoria sobre a globalização em si; elas nos informam o que significa globalização enquanto um fenômeno que é global!

A pós-modernidade: quase como um sinômino de "globalização", é um conceito que tem a pretensão de ser global, mas foi formulado a partir de uma experiência bastante contextualizada.

A pós-modernidade: quase como um sinômino de “globalização”, é um conceito que tem a pretensão de ser global, mas foi formulado a partir de uma experiência bastante contextualizada.

O erro, destaca a socióloga australiana Raewyn Connell (2007), é que as teorias da globalização que foram tradicionalmente gestadas por autores do Norte global quase sempre ignoraram as experiências do Sul. Elas discorriam sobre a globalização – e, por conta da divisão internacional do trabalho intelectual, viraram paradigmas –, que supostamente serviria ao restante do mundo, sem mencionar uma palavra de como a periferia global enxergava a globalização. No jargão filosófico, dir-se-ia que a experiência social da metrópole era reificada (ou seja, tomada por certa, transformada de uma ideia em uma coisa).

Sendo assumidamente polêmica, Connell (2007) comprova essa tese mostrando como textos de autores consagrados, tais como Anthony Giddens e Zygmunt Bauman, descreviam a globalização exatamente com as mesmas características que eles atribuíam às sociedades europeias, nos seus entenderes “moderna” e “pós-moderna”, respectivamente. Entre essas características, está justamente aquilo que usamos para pensar a globalização atualmente: a formação de uma sociedade global, sem fronteiras, onde se assumem riscos e é impossível planejar racionalmente o futuro (a “modernidade líquida”), o declínio das formas tradicionais de organização social etc. Um mundo novo – mas não sei se tão admirável…

Anthony Giddens (1938-), sociólogo britânico, foi um dos pensadores que escreveu sobre a globalização reificando a experiência social do Norte global ou, mais especificamente, da Europa Ocidental.

Anthony Giddens (1938-), sociólogo britânico, foi um dos pensadores que escreveu sobre a globalização reificando a experiência social do Norte global ou, mais especificamente, da Europa Ocidental.

A globalização, pois, foi imaginada a partir de um quadro teórico fornecido pelo que, aparentemente, era vivido e percebido nos Estados Unidos e na Europa. Dessa forma, em vez da globalização ser estudada por um ponto de vista novo, plural e global (!), ela simplesmente serviu para que as ferramentas analíticas já desenvolvidas na metrópole fossem estendidas ao restante do mundo. Quem até hoje, como eu, sente dificuldade para pensar a dita “modernidade” e “pós-modernidade” na sociedade brasileira, percebe essa inadequação teórica que nós importamos acriticamente.

“Os textos de teoria social envolvem principalmente uma reificação da experiência social do Norte”, escreve Connell (2011, p. 10) retomando o que já havíamos falado, “às vezes, isso é bem direto, como quando somos informados de que vivemos numa sociedade de redes, ou numa sociedade de risco, ou na pós-modernidade – todas caracterizadas por experiências sociais que a maioria da população do mundo não vive”.

O curioso, além disso, é que a globalização é vendida como algo novo e raramente é trazido à tona processos globais que já aconteceram no passado e que ainda são essenciais para a compreensão do mundo enquanto tal, a saber, a colonização (leia aqui). Não é à toa que Giddens, chocado após os ataques de 11 de setembro, escreveu que a globalização tinha um “lado negro” (alusão à Guerra nas Estrelas) relacionado ao crime e ao terrorismo, negligenciando completamente o fato de que o próprio EUA, vítima do atentado encabeçado pela Al Qaeda, já havia bombardeado o Iraque na década anterior (CONNELL, 2007).

Neocolonialismo: embora extremamente importante para a compreensão do mundo enquanto tal, é frequentemente deixado de lado, ao menos na noção hegemônica do que é globalização.

Neocolonialismo: embora extremamente importante para a compreensão do mundo enquanto tal, é frequentemente deixado de lado, ao menos na noção hegemônica do que é globalização.

A violência empreendida pelas metrópoles, seja na colonização resultante da expansão marítima, nos processos mais recentes de neocolonialismo ou nas práticas imperialistas que ainda persistem, costumam ficar de fora da compreensão de “globalização” produzidas por aqueles que estão no centro. No entanto, é válido destacar que há exceções (nem todos os textos da metrópole são coniventes com a globalização hegemônica ou ignoram completamente o conhecimento produzido pela periferia).

Não que o Sul global nunca seja discutido. Muitas vezes ele é mencionado ou mesmo estudado. Mas, como já vimos falando, a partir de um quadro teórico que não foi produzido lá, de tal forma que os territórios da periferia global apenas sirvam como fontes de dados, e nunca de teorias.

O Sul global não é apenas objeto de conhecimento ou de ações políticas advindas do Norte. O Sul é também lugar para se produzir teoria, pois também é território de sujeitos pensantes. Cabe ao Sul informar novas ideias sobre globalização, de forma a transformar o discurso sobre a globalização em algo que seja de fato global – em paralelo à construção de uma globalização contra-hegemônica que não nos faça mera tábula rasa de qualquer coisa importada das metrópoles.

2 comentários
  1. Paula disse:

    caros, qual o livro da Connell citado na ref. 2007?

    • Oi Paula,

      Todas as referências bibliográficas estão por extenso na página “Bibliografia”, cujo link se encontra sob a foto de capa do blog. No caso, o Connell 2007 é o livro “Southern Theory”. Dê uma olhada na página para ver a referência completa, assim como de outros textos.

      Abraços!

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