“É que o povo é ignorante”

Este texto é um misto de reflexão e desabafo. É porque estou farto de ouvir, no meio em que nasci e vivi desde então – a saber, a classe média paulistana – as acusações de que o povo, às vezes carinhosamente chamado de “povão”, é ignorante. Fala-se da ignorância e por vezes analfabetismo do povo, assim como se fala da tal da sociedade que é hipócrita, manipulável pela mídia, entre outras.

O meu incômodo sobre essas afirmações reside, em primeiro lugar, no caráter classista e até elitista que elas carregam. Ué, não somos parte do povo? Também nós, da classe média branca, não somos parte da sociedade? Soa bastante problemático falar da sociedade como se ela estivesse à parte de nós: também somos influenciados pela mídia (em nossas piadas, os padrões de beleza, as informações que obtemos do mundo), na mesma intensidade e com a mesma frequência que o tal do “povo ignorante”.

Em segundo lugar, essas afirmações classistas revelam um total desconhecimento acerca dos acontecimentos históricos que fizeram o povo supostamente ignorante. Vamos lembrar que a Educação no Brasil é relativamente recente. Até 1930, aproximadamente 70% da população era analfabeta. E ainda nessa época nem analfabetos, nem as mulheres, votavam. O Brasil era, como sempre foi, governado por uma elite que, para bem da verdade, esteve pouco se lixando para a Educação das camadas populares.

Educação popular: no passado, a escola passou a se universalizar basicamente por iniciativas populares.

Educação popular: no passado, a escola passou a se universalizar basicamente por iniciativas populares.

Foram, como bem demonstra Marília Spósito em O povo vai à escola (1984), as próprias iniciativas populares que pressionaram para a expansão do acesso ao ensino – e veículos de direita como o jornal Estado de S. Paulo fazendo oposição. Como Spósito ressalta, não foi à escola que chegou ao povo, mas o povo que foi à escola, com a construção de estabelecimentos de ensino, ainda não formalizados como escolas, e a pressão de movimentos sociais que a Educação passou a se universalizar. Aqui entra também a atuação dos nossos “pioneiros da Educação”, como Anísio Teixeira.

A elite, por sua vez, nunca contribui para que a Educação fosse um projeto popular. A Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, é essencialmente uma criação da elite paulista frente a sua perda de legitimidade em virtude de declínio da “política do café com leite”. É elitista, e até mesmo racista, desde a sua nascença. E as universidades federais, assim como o ensino superior como um todo, passaram a expandir em taxas elevadas a partir da década passada, sobretudo vindo da iniciativa privada com fins lucrativos.

Em terceiro lugar, esse pensamento classista expressa uma profunda ignorância a respeito das culturas das camadas populares: seus valores, suas perspectivas, seus conhecimentos. Fala-se da periferia, e precisamente da favela, com uma propriedade invejável sem nunca lá se ter pisado um pé. Não se valoriza o que é produzido na periferia, nos morros ou nos bairros pobres de modo geral. Sua música soa mais primitiva, seu aspecto mais bárbaro, seus valores mais selvagens. Eles são praticamente animalizados e personificados na figura de vagabundos, sujos, bandidos – é a chamada “criminalização da pobreza”.

Família de camada popular: um local onde jorram preconceitos a respeito de sua suposta ignorância generalizada.

Família de camada popular: um local onde jorram preconceitos a respeito de sua suposta ignorância generalizada.

Nas eleições, isso fica muito evidente. Se os grupos menos favorecidos votam no Lula ou na Dilma, é porque estão com os votos comprados pelos programas assistencialistas. Esperto é quem vota no Serra – ou pelo menos é o pensa esse arquétipo classista da classe média “estudada”, “bem formada” e, pasmem, “politizada”. Em política externa, é o mesmo. Arnaldo Jabor disse que Hugo Chávez foi reeleito por causa da “ignorância popular”. Uma explicação bastante simples, não? Ou pelo menos suficiente para garantir o seu salário em um comentário de um minuto e meio em horário nobre na rede Globo. Justo!

Se a sociedade – e uso esse termo incluindo todos os grupos e povos que compõem esse Brasil, que por mais heterogêneo que seja está unido sob uma mesma bandeira, governo e leis – não parar para entender minimamente as motivações, os valores e as culturas das camadas populares, não seremos capazes de entender absolutamente nada que acontece nesse país. Fenômenos que vão desde a criminalidade na periferia ao crescimento das igrejas evangélicas, passando pelo sucesso dos sertanejos universitários, passarão despercebidos e cairão no senso comum da “ignorância popular”.

É necessário investir em Educação – para melhorar a qualidade desse serviço para toda a população – mas sempre ter em mente que o conhecimento acadêmico ou escolar não é a única forma de conhecimento existente. Também não é a única fonte de politização. Acabar com a “ignorância” é uma tarefa árdua e que seria muito bem-vinda também para minimizar a ignorância das próprias classes abastadas. Esperamos que toda a sociedade entre nessa ciranda.

4 comentários
  1. Ivo Cocco disse:

    Adriano, você está mexendo num vespeiro.
    Discordo quando diz que a população provocou a criação de escolas. Na verdade, educação no Brasil, é mera formalidade, para atender a Constituição e os decretos dos governos de plantão.
    Esse povão a que se refere, não pretende nada mais do que continuar com subemprego, com futebol e carnaval.
    Os casos de revolta popular jamais atingiram seus objetivos, pois não há conscientização sobre os direitos, assim como também não há sobre os deveres.
    A globalização conseguiu se infiltrar no próprio sistema de ensino, e aí você está com razão, ao dizer que são as elites que dominam o processo educacional.
    Mas não dominam só o processo educacional, dominam tudo, desde a economia, os meios de comunicação, a política e as religiões.
    É simples entender isso, haja vista que – para dar um exemplo bem clássico – as aposentadorias perdem ano a ano seu poder de compra e o governo diz que o INSS é deficitário, com projeções fatídicas em 2050, quando existirão mais aposentados do que contribuintes…
    Isso é uma tremenda desfaçatez por uma questão também simples: os que pagaram suas contribuições ao longo do tempo não dependeriam de nenhuma contribuição de ninguém, partindo do princípio de que o montante recolhido daria para pagar seu “benefício”.
    Se o cálculo foi errado ou se o tempo de vida pós-aposentadoria passou a ser maior do que o previsto, a concessão das aposentadorias tem sido alterada frequentemente para suportar a demanda.
    O que aconteceu, e disso poucos têm noção, é que os recursos do INSS foram utilizados para financiar empresas e projetos do governo, o mesmo acontecendo com o FGTS, que paga 3% ao ano ao trabalhador e repassa a custo zero para empreendedores, indústrias, bancos etc.
    Desculpe, mas eu também estou cansado de escutar a mesma lenga-lenga, mas estou de consciência limpa, porque sempre denunciei tais absurdos, sem poder fazer nada, além de me arriscar a ser processado, enquanto a justiça, a promotoria pública e os políticos continuam a nos tratar como “rebeldes sem causa”, ou pior, nem sequer reagem a nossos protestos, como este seu de agora.

    • Oi Ivo,

      Agradeço o seu comentário, mas peço licença para manter a minha discordância. Com todo respeito, penso que você está sendo classista quando afirma que o povo está querendo mesmo é subemprego, futebol e carnaval.

      Começando pelo “subemprego”, eu diria que é um ultraje você afirmar que o povo quer, deseja, se acomoda, no subemprego. Ué, não acabamos de ver um esforço pela regulamentação do trabalho das empregadas domésticas? O subemprego é uma consequência dessa nossa economia capitalista e demora para ser combatido. Tenho certeza que a maioria das pessoas desse país gostaria de viver com mais estabilidade, recebendo melhor e com direitos trabalhistas garantidos. A verdade é que com a desculpa da flexibilidade, oferta de emprego e tal, as companhias tendem a minimizar os direitos trabalhistas contratando os trabalhadores em condições informais e, por vezes, sendo bem sucedidas em convencê-los de que assim é o melhor jeito. Não é.

      Segundo, você repete no seu comentário um mantra que eu vejo muito: o tal do futebol e do carnaval. Não entendo por que o futebol e o carnaval se tornaram esse fetiche, os sinais do nosso retrocesso, os motivos para que o Brasil não vai para frente. Futebol é uma paixão nacional e não vejo problema nisso. As pessoas têm direito de gostarem de futebol, oras. Gostar de futebol ou ir ao carnaval não significa que as demais esferas da nossa vida pública e privada estejam ignoradas.

      Você está falando em nome do povo, Ivo, e isso é absolutamente equivocado. Ninguém na classe média, nem mesmo entre o povo, tem autoridade para falar o que o “povão” pensa, como se fosse uma massa que pensa e age uniformemente. É uma postura, a meu ver, bastante arrogante. Ainda mais porque a “ignorância”, a “alienação”, é sempre jogada nas costas do povo. A nossa pobre classe média sofredora – que se coloca como o grupo que mais sofre no país… – isenta-se completamente de um processo de autocrítica. O comodismo me parece estar muito mais nos setores abastados do que nos populares.

      A respeito da população ter pressionado às escolas. Sim, isso é fato. Não a população pensada individualmente, mas movimentos sociais, associações de bairros etc. Geralmente, quem luta por um direito é justamente quem não o tem. Quem encabeça a luta por reforma agrária é justamente o MST, pois. Da mesma forma, quem pressionou para que houvesse construção de escolas – o primeiro passo para discutir qualidade de ensino é esse, o acesso – foram justamente setores populares.

      Precisamos ter menos medo do “povo” e passar a entendê-lo. E nos entender como parte dele. Até porque, na cadeia de produção, a classe média está muito mais próxima do “povo” do que da “elite”: não tem detém meios de produção e vende a sua força de trabalho pelo salário.

      A respeito da aposentadoria, não tenho conhecimento para discutir esse assunto.

      Obrigado,

      Abraços

      • Pamela disse:

        Quando eu vejo alguém dizendo que o povo brasileiro é acomodado, eu faço uma piada reflexiva, O povo da classe baixa é tão acomodado que adora pegar transporte publico super lotado as 5:00 h da manha levando duas horas pra chegar a seu emprego por diversão, sem contar que a maioria paga faculdade publica para ter um emprego uma formação, mais acaba se ferrando buuunitoo pq simples sua faculdade que vc gastou uma grana não tem qualidade de Usp, Unicamp ou uma federal… Me dá uma raiva quando eu vejo as pessoas seja de qual classe for falando mal de pobre e simplesmente esquece que sujeira toda vem de cima. Gostei do seu blog mesmo até que enfim um blog que posso ler está de parabéns…

  2. mandando bem como sempre Adriano, mas gostei mais do que vc escreveu na resposta acima até do que no texto propriamente. Beijo!

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