Noruega, PISA e impasses na Educação: uma entrevista com Jon Ivar Elstad

Quando se fala na Noruega, imagina-se um país desenvolvido, socialdemocrata e, acima de tudo, de clima frio. Localizado ao Norte da península da Escandinávia, a Noruega, cuja capital é Oslo, possui uma população relativamente pequena para o tamanho de seu território. Apenas cinco milhões de habitantes, governados sob uma monarquia parlamentarista com a existência de primeiro-ministro. Politicamente, a Noruega se caracteriza pelo Estado de Bem-Estar social (welfare state), o que inclui uma generosa participação do Estado tanto na economia quanto nos serviços públicos, incluindo a Educação.

No entanto, o sistema educacional norueguês não está imune a problemas. Desde a criação e divulgação dos resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes) pela OCDE, calorosas discussões se iniciaram na Noruega, seguidas da implantação de uma reforma educacional para lá de polêmica, a qual teve, entre seus efeitos, o aumento das desigualdades educacionais. Para entender mais sobre esse debate, entrevistei o pesquisador Jon Ivar Elstad, do NOVA (Norwegian Social Research), um dos maiores institutos de pesquisas sociais do país. A entrevista foi realizada em meados de abril/2013 na University of Sydney, Austrália, em inglês, idioma estrangeiro para ambos os participantes.

Jon Ivar Elstad, pesquisador do NOVA, tem estudado os efeitos da principal reforma educacional norueguesa após a divulgação dos resultados da primeira edição do PISA em 2000.

Jon Ivar Elstad, pesquisador do NOVA, tem estudado os efeitos da principal reforma educacional norueguesa após a divulgação dos resultados da primeira edição do PISA em 2000.

Antes de seguir adiante, é válido apresentar um panorama de como se caracteriza o sistema educacional norueguês: composto por um sistema predominante público (em 2011, apenas 2,3% dos alunos do ensino primário e secundário frequentavam escolas privadas – pagas, mas sem fins lucrativos), gratuito e bastante centralizado, sendo obrigatório frequentar pelo menos dez anos de escola, a partir dos seis anos de idade. Aos 16 anos de idade, os jovens optam por ingressar no equivalente ao ensino médio, que é universalmente oferecido, e lá ficam até os 19 anos. Em torno de 85% dos jovens continuam a escolarização nesse nível de ensino.

A questão que se coloca, destaca Elstad, foi quando o primeiro exame do PISA, realizado em 2000, divulgou seus resultados, que tiveram bastante repercussão na opinião pública. Dadas as suas características – o fato da Noruega, desde a segunda metade do século passado, ter altos investimentos em Educação e uma população bastante escolarizada – os noruegueses esperavam que o PISA demonstrasse o quão bom, ou mesmo superior, o sistema educacional norueguês seria em relação ao restante do mundo. Na realidade, o ranking do PISA posicionou a Noruega na média dos países da OCDE. Isso foi uma surpresa, sendo que o sentimento de frustração ficou conhecido no país como “PISA shock”. Países como a Finlândia, menos rico que a Noruega, obtiveram classificações superiores no tal ranking.

Se é verdade que a Educação norueguesa sempre foi alvo de esforços e atenção, o choque ocasionado pelos resultados do PISA configuraram uma nova agenda de reformas, face às críticas de que as escolas norueguesas eram apenas entendidas como lugares para se estar, para se divertir etc, mas não para se aprender. Isso culminou, segundo Elstad, em uma política lançada em 2006, fruto de amplo consenso dos partidos políticos das diferentes tendências, chamada Knowledge-Promotion Reform (Reforma para a Promoção do Conhecimento), com vistas a reestruturar a Educação norueguesa, fortalecendo o aprendizado dos conteúdos curriculares e potencialmente alocando a nação em uma posição superior do ranking do PISA.

Oslo, capital da Noruega: um país com desigualdades menos marcantes que a maior parte do planeta viu suas desigualdades educacionais crescerem.

Oslo, capital da Noruega: um país com desigualdades menos marcantes que a maior parte do planeta viu suas desigualdades educacionais crescerem.

O intuito era que as escolas se tornassem centros voltados para, sobretudo, o aprendizado. A fim de cumprir esse objetivo, a reforma implementou uma série de medidas, entre elas (1) o estabelecimento de metas de aprendizado para cada ano letivo, (2) ênfase nas cinco “habilidades básicas” (leitura, escrita, oral, aritmética e computação), (3) fortalecimento do papel do professor e sua liderança na sala de aula, (4) preocupação com necessidades individuais do corpo discente e (5) maior abertura para adaptações pedagógicas locais.

Com o foco na promoção do conhecimento, a reforma não se mostrou, segundo Elstad, atenta para resolver desigualdades socioeconômicas que já afetavam a escolarização das crianças e jovens noruegueses. Embora as autoridades estivessem cientes dessas desigualdades, acreditou-se que a reforma por si só poderia alterar o sistema educacional norueguês de forma a equilibrar tais desigualdades e, ao mesmo tempo, alavancar os resultados no PISA.

Contudo, uma das consequências da reforma, e o que a tornou tão polêmica, foi que se aumentaram – sutilmente, mas em tendências evidentes – as desigualdades educacionais, fenômeno que pode ser observado por muitos indicadores: aumentaram-se as diferenças de desempenho escolar entre os alunos com melhor e pior desempenho, cresceram-se as taxas de evasão escolar, tornaram-se mais vulneráveis os estudantes com necessidades especiais. “Em diversos aspectos”, afirma Elstad, “existem indícios de que após a Knowledge-Promotion Reform as desigualdades socioeconômicas [na Educação], de fato, cresceram”. A demanda por um ensino de melhor qualidade, que deveria, pois, ter sido reduzida após a reforma, foi intensificada.

E aí nos perguntamos: como ficaram os resultados no PISA? Bem, a reforma passou a valer em 2006 e seus efeitos só foram sentidos nos anos seguintes. Após o “PISA shock”, em virtude dos resultados da edição do PISA de 2000, verificou-se que o desempenho norueguês tendeu a cair durante a edição de 2003 e de 2006. Em 2009, já com as consequências da reforma consolidados, a Noruega logrou resultados melhores. Porém, Elstad relembra que devemos ser cautelosos e que essa melhoria pode não ser fruto diretamente da reforma. Ainda, acrescento que os efeitos da reforma devem ser pesados com o alargamento das desigualdades.

Sistema educacional norueguês: é importante nos questionar se eles tomarão os rumos das tendências atuais de estreitamento curricular e submissão aos testes padronizados.

Sistema educacional norueguês: é importante nos questionar se eles tomarão os rumos das tendências atuais de estreitamento curricular e submissão aos testes padronizados.

Não é claro nem para os pesquisadores noruegueses o que aconteceu, de fato, na Noruega para que as desigualdades aumentassem após a Knowledge-Promotion Reform. Acredita-se que a ênfase no conhecimento, em si, favoreceu crianças e jovens originados de famílias mais escolarizadas, mais próximas da cultura acadêmica e escolar. Um jogo de culpas, em alguma medida, se instalou no país. Jon Ivar Elstad relata que professores eram pressionados para que se elevasse o desempenho dos estudantes – a opinião pública chegava a acusá-los de serem “democráticos até demais”: uma crítica ao modelo educacional escandinavo que costuma ser bastante participativo e realça o protagonismo do/a estudante – e, somado a isso, as famílias também sofriam maior pressão para que se engajassem no aprendizado de suas filhas e filhos.

Dada à heterogeneidade das famílias, nem todas podiam assistir com a mesma qualidade a Educação de suas crianças e jovens. Nesse sentido, a reforma teria disparado mecanismos que fariam as desigualdades escolares crescer. Ainda, outros efeitos foram estimulados em algum grau pela reforma. Elstad menciona que conteúdos escolares pouco relacionados à geração de resultados para o PISA tendiam a ser descartados, incentivando o estreitamento curricular em função dos testes padronizados. Enquanto em diversos lugares do mundo isso é uma cruel realidade, como nos EUA, na Noruega é ainda uma leve tendência, mas que pode ter sido realçada pela reforma e a meta, até obsessiva, de galgar uma posição invejável no ranking do PISA.

Há muito para se entender e discutir a respeito desse caso (que é mesmo pouco conclusivo), mas a reforma na Educação norueguesa mostra uma tendência bastante própria dessa última década que temos vivido: a importância dada aos resultados dos testes padronizados – as avaliações em larga escala – tanto para a aferição da qualidade de ensino quanto para a formulação de políticas públicas. Ainda que os resultados da reforma não tenham sido propriamente negativos, surgiu uma tendência ao acirramento das desigualdades educacionais e à onda de reformas similares àquelas defendidas pelos grupos empresariais, abrindo-se um flanco em um país que, até então, passava ao largo dessas tendências. Do Brasil, temos de aprender com os erros e acertos da Educação norueguesa e torcer para que eles façam boas escolhas de agora em diante.

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