Por um senso de humanidade

A humanidade está farta de tanta violência que vem por todos os lados, dos defensores da mudança aos partidários da mesmice. Violências verbais, físicas, sexuais, simbólicas… é necessário resgatar uma noção de direitos humanos – e, no fundo, de humanidade, que dê um fim à prática de tantos atos que nos desumanizam.

Escrevo porque me assusta o quanto o debate de direitos humanos se esvaziou no país. Defender os direitos humanos virou sinônimo de “defender bandido”, quando os direitos humanos são, na realidade, o direito à educação, à saúde, à moradia, à alimentação, à cidade. Se nos cobram dos deveres, respondo que o primeiro dever é cumprir os nossos direitos humanos, o que implica que qualquer pessoa – independentemente de sua origem, classe social, crença ou mesmo dos atos lícitos e ilícitos praticados no seu curso de vida – deve ser tratada como gente.

Não interessa se um criminoso cometeu o pior dos crimes, ele ainda assim merece ser tratado como a dignidade de todo ser humano. O que não quer dizer que não deve haver punição – muito pelo contrário! Mas punir não significa torturar ou superlotar celas. Não podemos ter a ilusão de que um problema grave de violência será resolvido com outra violência, desta vez institucionalizada.

A noção de direitos humanos: um debate essencial, mas que tem sido esvaziado por um viés que só nos desumaniza enquanto sociedade.

A noção de direitos humanos: um debate essencial, mas que tem sido esvaziado por um viés que só nos desumaniza enquanto sociedade.

Desumanizar os seres humanos nunca é a saída. E é exatamente o que fazemos todos os dias, com os jovens de periferia, com os moradores de rua, com prostitutas, com travestis, com empregadas domésticas. É a desumanização de gays e lésbicas que gera a violência homofóbica, assim como é a desumanização da mulher que nutre a violência doméstica. Da mesma forma, a desumanização da periferia é o que leva à chacina de jovens negros e pobres (o Mapa da Violência de 2012 fala de “pandemia” da morte desse segmento da população), nas mãos de uma polícia que é de natureza desumanizadora a mando de um governo igualmente asqueroso. Lembremo-nos de quando o PCC tomou conta de São Paulo em 2006, o que em resposta gerou uma reação violenta da PM, culminando na morte de centenas de inocentes em poucos dias.

Neste mesmo contexto surgem debates inócuos tais como a pena de morte e a redução da maioridade penal, em um país com um sistema e código penais arcaicos onde sequer a lei é cumprida igualmente para toda a população. Quais sujeiras que se quer varrer para debaixo do tapete com essas medidas? Talvez a nossa incapacidade de fazer uma discussão profunda sobre criminalidade, condições de vida e desigualdade social.

Enquanto isso, nos desumanizamos. Discute-se muito a liberdade e a igualdade, que adquirem variados sentidos, mas nunca um terceiro aspecto que é a fraternidade, a solidariedade, o respeito, sei lá como se chama. É preciso politizar esse senso de humanidade, entendê-lo como uma ferramenta de mudanças, pois política não se faz apenas com decretos e leis. Para se ter grandes avanços deve-se ter mais do que bons argumentos. É essencial um compromisso com a verdade, um amor à causa e um profundo senso de humanidade.

Deveríamos, todas/os nós, sermos defensoras/es radicais dos direitos humanos. Primeiro, tratar todas as pessoas com a dignidade que merecem. E, a partir daí, discutir e promover as mudanças que queremos. A humanidade está farta de ser desumanizada e não precisamos de mais retrocessos. Por um senso de humanidade, sejamos humanos.

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