Desde quando o gigante esteve dormindo?!

E finalmente vivenciamos um dia de protesto histórico no Brasil, quando centenas de milhares de pessoas – estima-se 100 mil em São Paulo, 100 mil no Rio de Janeiro, e mais algumas dezenas de milhares em outras cidades dentre Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Belém etc – foram às ruas, por causas e motivações diferentes, mas de alguma forma todas elas indignadas com a forma como a Polícia Militar tem tratado as manifestações nos últimos tempos (leia-se: desde sempre). Entre os gritos que ecoaram na multidão, um deles é o mais intrigante: “O gigante acordou!”. Será? Antes de seguir adiante, vamos rever o que foram os protestos.

Atos convocados pelo Movimento Passe Livre traziam, entre outros, cartazes que diziam “Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar”. A profecia foi se cumprindo...

Atos convocados pelo Movimento Passe Livre traziam, entre outros, cartazes que diziam “Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar”. A profecia foi se cumprindo…

Pelo menos em São Paulo, as manifestações têm sido convocadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) e já estão no seu quinto ato, com o próximo já marcado. A pauta sempre foi muito clara: a revogação de um aumento de R$ 0,20 no transporte público da cidade. Conflitos com a Polícia Militar marcaram as manifestações e algumas delas acabaram com sinais de depredação. Como sempre, a opinião pública – ou melhor, a opinião da imprensa – desceu a lenha nos manifestantes. O que virou a mesa a favor dos protestos, por sua vez, foi a grande arbitrariedade da ação policial no quarto ato, que deixou muitos feridos, inclusive a imprensa que apenas cobria o evento ou mesmo pedestres que nada tinham a ver com o ocorrido.

Mesmo que positiva, a imensa repercussão dos atos, que contaram com um número cada vez mais expressivo de manifestantes, também gerou uma disputa a respeito do que, afinal, se pretende com essas milhares de pessoas nas ruas. É um protesto pelos 20 centavos? É uma versão brasileira do Occupy Wall St ou dos Indignados da Espanha? É uma virada na história do Brasil? Afinal, com tudo isso que temos testemunhado, o gigante acordou ou não?

Uma passeata de tamanha dimensão é de emocionar qualquer um. Existem gerações de jovens no nosso país que até então nunca tinham visto avenidas inteiras preenchidas por pessoas, exceto no carnaval ou réveillon. Esse fenômeno não pode ser desprezado. Ele mostrou que é possível, para o Brasil, contar com centenas de milhares de jovens nas ruas. E as manifestações de certa forma canalizaram uma insatisfação que é geral. Com alguns riscos, no entanto, de o movimento esvaziar parte de seu sentido político ao abrir-se justamente para essa insatisfação.

Truculência policial, repleta de violência e arbitrariedade, virou a mesa a favor da manifestação.

Truculência policial, repleta de violência e arbitrariedade, virou a mesa a favor da manifestação.

Isso ficou evidente quando a pauta do aumento da passagem de ônibus passou não só a ser ignorada como também negada. No início, interessei-me pela bandeira “Não são só pelos 20 centavos” porque, pensei, aos darmos luz para esse debate, trazemos à tona também o direito a um transporte coletivo de qualidade a um preço adequado – ou mesmo tarifa zero – e inclusive a liberdade de se protestar, haja vista a repressão policial. Porém, ao deixar de lado os 20 centavos e destacar bandeiras simbólicas e genéricas como “Abaixo a Corrupção”, o movimento explicita o seu recorte de classe e o quanto está composto por jovens para os quais os 20 centavos não fazem diferença alguma. Em tempo, a diferença que esse aumento faz na vida da população de baixa renda chega até mesmo a ser ininteligível para a classe média. Contudo, os R$ 0,20 a mais fazem diferença e não podem ser esquecidos.

O MPL, por sua vez, é plenamente ciente disso e sabe que, ao revogar o aumento, abre-se um espaço – que já tem sido aberto! – para aprofundar o debate sobre o direito ao transporte e à cidade, e mesmo a tarifa zero (pauta que a Luiza Erundina encampou enquanto prefeita e lá vem ela, felizmente, nos relembrar disso). Por essas e outras, acredito que o MPL tem feito um ótimo trabalho ao resgatar essa pauta a cada protesto e reafirmar que, sim, é pelos 20 centavos. É preferível, na real, lutar por algo concreto e realizável como a revogação de um aumento da tarifa do que por uma melhoria genérica no Brasil.

Manifestantes ocupam a ponte estaiada em São Paulo, cidade que foi palco de um dos maiores protestos.

Manifestantes ocupam a ponte estaiada em São Paulo, cidade que foi palco de um dos maiores protestos.

Essa segunda opção, no entanto, tem sido a escolha de muitos jovens que, com o perdão da sinceridade, estiveram alheios do que politicamente tem acontecido no país desde as últimas décadas. Não é à toa que os partidos políticos têm sido hostilizados. É um direito de cada pessoa ali filiar-se politicamente a um grupo, coletivo ou partido. Isso é constitucional. E, querendo ou não, são justamente esses partidos nanicos da esquerda que têm feito barulho nos espaços para os quais essa mesma juventude costuma silenciar. Não só partidos, mas movimentos sociais como um todo – o MST, as feministas, o segmento LGBT, os movimentos negros, os/as professores/as da rede pública, entre outros – estão acordados e na luta há muito tempo.

É que há um certo abismo entre a luta de chão que se faz desde sempre no Brasil e o apoio em massa da população. Expressões como “baderneiros”, “vândalos” e “filhinhos de papai” sempre foram usadas para descrever movimentos de juventude que levantaram suas bandeiras, seja em pautas grandes como a legalização da maconha, seja em outras menores como um novo estatuto para a USP. A mídia quase nunca atua ao lado desses movimentos, muito pelo contrário. E tanto a mídia, quanto a massa da população, entraram na onda dos últimos protestos não pela causa que eles defendiam – de novo, a questão do transporte foi posta como secundária – e sim em reação à truculência policial e também pela emoção de estar participando de algo histórico.

Protestos em Brasília. Cabe sempre no perguntar se todos esses milhares nas ruas estão protestando em um mesmo movimento.

Protestos em Brasília. Cabe sempre no perguntar se todos esses milhares nas ruas estão protestando em um mesmo movimento.

Estranha-me ver Pondé, Jabor e Datena se colocando a favor do movimento – e com direito a “dicas de moda” da Glória Kalil. É um direito deles, é claro. Mas acredito que há um desencontro aqui. Será que “o movimento” que eles estão defendendo é o mesmo que eu estou pensando? Certamente não é a mesma mobilização que originalmente foi convocada pelo MPL para a defesa da revogação do aumento e, no limite, da inclusão da tarifa zero na agenda política do país. O movimento expandiu, como disse, e o fez parcialmente se despolitizando.

Acredito, como um bom otimista, que os efeitos de tudo isso são positivos: milhares de pessoas nas ruas, a truculência policial ficando mais do que evidente, uma certa independência partidária (que não quer dizer rejeição!), uma oportunidade de reforçar a luta a respeito do transporte público. Não poderia, apesar das críticas, virar as costas para esse fenômeno que é, sim, histórico e, por isso, ainda em andamento.

Afinal, é parte da caminhada que tem sido empregada há décadas; não é um começo de uma nova era. Pois se o gigante finalmente “acordou”, então não neste gigante que eu tenho vivido desde que nasci e que tanto tem me ensinado. O Brasil não acordou simplesmente porque o gigante nunca esteve dormindo. E que seja sempre assim.

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