Tigres asiáticos: alimentados pelo (precário) trabalho feminino?

Os tigres asiáticos são um capítulo bem conhecido na história mundial. Refere-se ao desenvolvimento acelerado de quatro nações do sul e leste da Ásia: Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan e Singapura. Entre 1960 e 1990, tais países apresentaram altas taxas de crescimento e rápida industrialização. Quanto a isso, não há dúvidas – afinal, é a própria definição da alcunha que tais nações ganharam. Mas pouco é sabido a respeito de como esse processo de desenvolvimento afetou e foi influenciado pelas relações de gênero da região.

O “milagre econômico” que se apresentou nessas nações insere-se bem claramente em um contexto geopolítico marcado pela chamada Guerra Fria. Sabe-se que os EUA, com o término da Segunda Guerra Mundial, apoiou maciçamente a reconstrução do Japão, país que acabara de ser atacado pelas duas bombas nucleares dos próprios ianques. Tendo em vista a ameaça que a URSS colocava à hegemonia do capitalismo, a economia japonesa foi recuperada como uma forma de se manter acesa uma chama capitalista na Ásia. Essa chama, por sua vez, poderia acender outras pela região.

Singapura: pela extensão do porto, fica evidente o quanto as exportações eram fundamentais para sua economia.

Singapura: pela extensão do porto, fica evidente o quanto as exportações eram fundamentais para sua economia.

É aí que entra o desenvolvimento dos tigres asiáticos, fenômeno que só foi possibilitado pela ajuda tanto norte-americana quanto japonesa. Criou-se, assim, quatro potências de segundo porte que orientaram suas economias basicamente para o mercado externo. Tornaram-se países industrializados e exportadores, com alta participação de capital internacional. Esses efeitos, como se pode imaginar, transbordaram a economia e ressoaram na sociedade. Seus sistemas educacionais, por exemplo, foram bastante reorientados para a formação de “capital humano” a fim de suprir demandas de mercado.

No meio de todo processo, a feminista australiana Chilla Bulbeck, em Re-Orienting Western Feminisms (1998), destaca que as mulheres desempenharam um papel fundamental, ou melhor, foram exploradas a ponto de serem essenciais para esse processo. Se passara a existir, com a globalização, um interesse das multinacionais de alocarem à produção para os países de terceiro mundo – valendo-se dos menores salários, frouxa legislação ambiental e trabalhista e fracos ou mesmo inexistentes sindicatos – passou a ser crescente o interesse em empregar essencialmente mão-de-obra feminina, a base para o desenvolvimento da economia desses quatro países.

Centro de Hong Kong: uma das cidades mais verticais do mundo, teve seu desenvolvimento atrelado ao fenômeno dos tigres asiáticos.

Centro de Hong Kong: uma das cidades mais verticais do mundo, teve seu desenvolvimento atrelado ao fenômeno dos tigres asiáticos.

Dessa forma, as mulheres eram preferidas nos trabalhos manuais realizados pelas indústrias voltadas à exportação. Não só porque a sua remuneração era de 50% a 62% da renda masculina, como também, ressalta Bulbeck (1998), eram tão complacentes quanto produtivas. Afinal, a situação de desvantagem das mulheres as compelia a aceitar trabalhos mesmo em condições degradantes. Ainda, os seus dedos menores e mais ágeis (“swift fingers”) davam-lhes vantagem em trabalhos repetitivos com objetos minúsculos. Por fim, para os patrões era mais fácil despedir as mulheres, caso fosse necessário, uma vez que direitos como licença-maternidade não estavam garantidos.

Estamos falando, portanto, de um processo violento de precarização do trabalho. As mulheres asiáticas que alimentaram os tigres o fizeram sendo incorporadas na escala mais baixa do mundo trabalhista. Não é de se espantar, assim, que consequências danosas também foram produzidas. Em 1985, por exemplo, 64% das mulheres trabalhadoras da Coréia do Sul ganhavam menos do que os custos mínimos de sobrevivência. É válido lembrar que, na década de 80 neste mesmo país, tinha-se as maiores jornadas de trabalho do mundo (em uma firma, a coreana POSCO, trabalhava-se 56 horas ao longo de sete dias por semana, com apenas um dia de folga por mês!).

Taiwan: a rápida industrialização incorporou muitas mulheres. Na maioria das vezes, de forma precária.

Taiwan: a rápida industrialização incorporou muitas mulheres. Na maioria das vezes, de forma precária.

Nas indústrias de microeletrônicos da Coréia do Sul e de Hong Kong, por sua vez, a maioria das mulheres era forçada a abandonar seus empregos antes dos 30 anos de idade por causa de deterioração do globo ocular, sendo que não havia nenhuma possibilidade de promoção ou coisa que o valha. Em Taiwan, havia fábricas que processavam amianto e não possuíam sequer um sistema de circulação de ar adequado. A regra era a seguinte: ou se aceitava essas condições de trabalho, ou não se tinha sequer uma renda mínima, por menor que fosse. Infelizmente, essa realidade não se reduz aos tigres asiáticos, mas está presente na maioria – senão todos – os países de terceiro mundo.

Uma situação degradante dessas, como podemos esperar, não vem desacompanhada de formas de resistência. Foi na própria Coréia onde movimentos de mulheres pressionaram por uma jornada de oito horas diárias, maiores salários, licença-maternidade, creches etc. Contudo, o enfrentamento por parte do Estado foi grande, havendo detenção de muitas mulheres. Existem relatos, na realidade, dos mais variados tipos de abuso sexual que aconteciam no interior das delegacias de polícias (BULBECK, 1998). De toda forma, é evidente que essa história ainda não acabou.

Coréia do Sul: lutas trabalhistas, tanto de homens quanto de mulheres, se estendem até hoje em busca de melhores condições.

Coréia do Sul: lutas trabalhistas, tanto de homens quanto de mulheres, se estendem até hoje em busca de melhores condições.

Desde a década de 90, o Banco Mundial tem procurado recriar as condições do “milagre econômico” em aproximadamente 20 países do Pacífico Sul (60% da população pertence à Papua Nova Guiné e 20% às ilhas Fiji). Entre as medidas que os governos nacionais passaram a ser pressionados a implantar estavam: corte de gastos sociais, redução de salários, privatizações e incentivos fiscais para exportações. Tudo isso, é claro, deve envolver também a exploração da mão-de-obra feminina, frequentemente não organizada em movimentos e sindicatos.

Vê-se, portanto, que ao nos referirmos a grandes crescimentos econômicos, é essencial estarmos atentos para as condições de vida e de trabalho daqueles sujeitos – homens ou mulheres – que carregam o desenvolvimento nas costas. É comum que se faça uso da condição marginal das mulheres na cadeia produtiva e, ao mesmo tempo, que se mantenha uma situação de subordinação ao se destinar, a elas, os trabalhos mais degradantes. Todos esses processos, para o bem da humanidade, devem estar sob as lupas do movimento feminista em âmbito global.

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